Terremoto no Haiti: o cidadão perdeu para o jornalista

Virou clichê, nas grandes tragédias, incensar o Twitter e seu poder de instantaneidade e mobilização. É quando o jornalismo cidadão, essa prática tão saudável de apurar/analisar/difundir notícias (preceitos idênticos ao do jornalismo profissional), é notado.

No devastado Haiti, porém, o cidadão foi bem menos jornalista do que os profissionais: foram coleguinhas com experiência na condução de transmissões ao vivo que seguraram o grosso dos relatos e imagens in loco sobre o terremoto de 7 graus na escala Richter.

Depois deles, o microblog (com o Twitter na linha de frente, claro) se transformou de novo numa enxurrada de RTs de orações ou supostas informações de ajuda humanitária. Um volume comparável aos anéis de latas de alumínio colecionadas por gente que acreditava, há uma década, que as peças podiam ser trocadas por cadeiras de rodas.

Veja imagens do terremoto no Haiti

A ausência de cidadãos não jornalistas na cobertura da tragédia do Haiti sugere, numa análise rasa, que o povo do país não tem acesso nem aos mínimo dispositivos móveis. O que, se verdadeiro, desmistifica a crença na onipresença da testemunha ocular habilitada a publicar na web algum pedaço da história que testemunhou.

Ao mesmo tempo, insinua comprometimento de quem deve zelar, profissionalmente, pela difusão das notícias.

Um detalhe importante para entender o comentário: a rede de internet, em sua maioria acessada via satélite no Haiti, resistiu surpreendemente bem à tragédia. A telefonia celular apresentou problemas, mas permitia conexões eventuais.

9 Respostas para “Terremoto no Haiti: o cidadão perdeu para o jornalista

  1. e vc ja viu este blog de pesquisadores da unicamp que estão no haiti?
    http://lacitadelle.wordpress.com/

    chove jornalista nos comentários implorando por entrevistas, fotos, informações, etc…

    • D,

      Sim, é a exceção. E mesmo assim, entre ontem e hoje, quando escrevi o texto, o blog ganhou uma única postagem e zero imagens. Quem comandou a cobertura em seu começo, desta vez, foram jornalistas e fotógrafos profissionais.

      abs

  2. Oi Alec,
    de fato, senti falta de UGC no calor da hora e da manhã seguinte. Os (poucos) vídeos produzidos por usuários surgiram tempo depois, quando as emissora jás se deslocavam para o lugar da tragédia.
    O cidadão repórter pode não ter tido fôlego (até porque NINGUÉM tinha folêgo algum naquelas circunstâncias). Mas ele teve agilidade e furou os noticiários.
    Fiquei apavorada com o montão de abobrinhas que circulou no Twitter ontem. Variavam de números para doações a minutos de silêncio (!!). Mas foi incrível ler os relatos de @carelpedre e de @fredodupoux que twittaram do local. Sem contar que os vídeos mais quentes foram feitos por cidadãos.
    Então não sei até que ponto a gente pode entender esse episódio aclamando profissionais e apontando “falhas” na cobertura em UGC.
    Anyway, uma coisa foi nítida: os noticiários nunca pediram tanto UGC e nunca tiveram tão poucas repostas.

    • Ana,

      Carel Pedre e Fréderic du Poux são jornalistas no Haiti e não fizeram nada além de cumprir seu papel. Mas eu questiono no texto, como uma possibilidade, se podemos compreender aquilo como comprometimento profissional, por um lado, e exclusão digital, por outro. Fica só a mesma percepção que você teve: que praticamente não houve conteúdo gerado por pessoas que não têm no jornalismo a sua profissão. Uma tentativa, que é o blog do pessoal da Unicamp que visita o país (http://lacitadelle.wordpress.com/) ficou nisso, uma tentativa. Desperdiçou-se, por enquanto, a chance de dar vazão a material produzido por eles.

      bjs

  3. Entendo o seu ponto de vista e concordo. Já comentei por aí que na hora de pegar no pesado, jornalista em ação. Diante do terror que deve ter sido durante o terremoto, a turma nem deve ter se lembrado do Twitter e afins. Por outro lado, o acesso e dipostivos, certamente dificultaram a divulgação de info por cidadãos-repórteres. É uma situação atípica também. Jornalista precisa manter a calma, segurar a câmara, apertar o botão da máquina, enfim…é rotina.
    Agora, camarada, para além da publicação na Web, não tenho dúvida que os meios de comunicação de lá não dão contam de informar os cidadãos. Certamente uma rede de circulação já deve ter se estabelecido e, provalmente, o rádio tenha canalizado as colaborações.
    Em Honduras, apesar de grande presença nas mídias colaborativas e redes socias, com info sobre a crise política, as rádios cumpriram o papel de informar “colaborativamente”.

    • Yuri,

      A situação é realmente difícil, e meus comentários são quase suposições. Realmente não sabemos como está funcionando a rede de comunicação internamente no Haiti. O fato é que os relatos que chegaram ao exterior em boa medida fora _e continuam sendo_ pilotados por jornalistas, mesmo que em situação precária. O aspecto que me parece mais claro na história é que a exclusão digital, isso é evidente, mas precisava acontecer pra gente se lembrar, limita o campo de ação do jornalismo cidadão.

      abs

  4. Olá, amigos/as. Até agora pelo que tenho acompanhado na cobertura das grandes redes, o que se descreve, entre vários cenários, a do completo apagão. Falta água, comida e energia. E aí, nesse caso, pensemos que se alguma alma cidadã twiteira tivesse um celular, logo logo a bateria iria arriar. E certamente é o que deve ter ocorrido. E só uma questãozinha: caso algum de vocês tivesse lá naquelas ruas tomadas por corpos já em estado de composição e lhes ocorresse de terem de ajudar a salvar alguma vida envolta em escombros, o que faria? assistiriam à cena de alguém tentando retirar alguém dos escombros e faria fotos e vídeos ou largaria tudo para se somar as esforços?

    • Redação TP, já passei por essa situação. É terrível, mas o dever de registrar está acima de tudo. Mas não foi essa a questão no Haiti: temos de entendê-la ainda, mas aparentemente envolveu falta de acesso à web (anterior ao terremoto e crônica).

      abs

  5. Pingback: A derrota do cidadão (e o triunfo do jornalismo profissional) revisitados « Webmanario

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