‘Quem ignora o que o público diz em mídias sociais não pode ser jornalista’

Ana Brambilla é minha dupla colega: é jornalista e professora de jornalismo. Mestre em Comunicação, acaba de assumir como editora de mídias sociais do portal Terra. Um desafio e tanto.

E é exatamente sobre mídia social (e jornalismo cidadão, assunto no qual Ana é uma referência) que versa meu bate-papo com ela (via e-mail), o primeiro da série “3 Perguntas Para” que aparecerão com frequência no Webmanario.

Na conversa, ela alerta sobre a importância de o jornalismo profissional estar atento ao que diz e produz e público. E faz uma defesa incondicional do jornalismo cidadão.

Já faz algum tempo que estou fascinado com o fenômeno lan house de periferia e a inclusão digital da população brasileira (NOTA: esta entrevista se deu antes que o IBGE divulgasse que as lan houses só perdem para as residências no acesso à web no Brasil). Já somos o povo que mais tempo passa na web, e nessa faixa social (classes C e D), o avanço na internet é imenso. Sinal de que a rede é um gênero de primeira necessidade ou de que faltam mais opções de entretenimento (notadamente as bancadas pelo poder público)? Até que ponto ficar muito tempo na web é sinal de avanço de um povo?

O tempo on-line, quantitativamente falando, não me parece suficiente para estimar o avanço intelectual de um povo – a menos que essa “intelectualidade” seja reduzida ao “saber mexer” com a tecnologia. É necessário entender, antes, O QUE esse povo anda fazendo on-line, qual o tipo de informação tem acessado, produzido, processado.

Qualquer um que já tenha entrado em uma lan house sabe que o uso de Orkut e MSN é soberano. Considerando que são plataformas de relacionamento e que em termos de contato humano, convivência é um dos traços mais característicos da brasilidade, estas plataformas digitais só vêm intensificar este cimento social de que o brasileiro tanto gosta. Ou seja: se ainda há dúvidas sobre a tecnologia aproximar ou afastar as pessoas, o uso intenso das mídias sociais pelos brasileiros mostra que a aproximação ainda prepondera.

Mas não fiquemos apenas no relacionamento. Há quem use o conhecimento da rede para aprender. Lembro de um vídeo bacana feito pela Regina Casé que mostra as lan houses da periferia e, nele, um rapaz conta que aprendeu a consertar bicicletas em tutoriais publicados no YouTube. Desde então, vem ganhando dinheiro com isso. A web estimula o autodidatismo. E para quem tem vontade de aprender mas não tem grana para investir em cursos, as lan houses podem ser boas salas de aula 🙂

O jornalismo profissional tende a considerar a mídia social uma falácia. Pouco importa o que as pessoas falam ou deixam de falar. O que perde um jornalista por profissão que ignora de própria vontade o que se diz em plataformas de publicação pessoal? Como a mídia social pode ser incorporada no dia a dia de quem trabalha com notícias?
Quem ignora o que o público diz em mídias sociais já devia ignorar o que este mesmo público dizia nas ruas. Ou seja: não pode ser jornalista. Afinal, a razão de existir do jornalismo é GENTE. O público é fonte, o público é (ou deveria ser) a finalidade do nosso trabalho. E se ele – ou o que ele pensa, diz – é ignorado por quem estás nas redações, melhor faz se desprezar o trabalho do jornalista.

Aliás, isso me faz pensar porque os sites noticiosos não estão entre os mais acessados na web. Será que o público se vê neles? Ora, a internet é o lugar onde o público, finalmente, pode se ver. Se o jornalismo praticado no meio digital for igualmente burocrático e limitado às fontes oficiais tal como grande parte dos veículos tradicionais, está fadado a ser engolido por sites de entretenimento ou mesmo pelas redes sociais nos relatórios de audiência. Como não estamos muito distantes disso, alguns veículos estão se dando conta de que devem estar presentes também nas mídias sociais.

E este é um despertar histórico. Afinal, será preciso quebrar paradigmas de linguagem jornalística, de critérios de noticiabilidade, ou seja, conceitos seculares da profissão que mexem nos brios de quem se diz mestre na “arte” de transformar a realidade em notícia. Enquanto empresas de comunicação de vários países contratam seus editores de mídia social, há quem esteja vendo neste novo colega uma oportunidade de expandir a visibilidade de seu próprio trabalho, há quem esteja temendo por novas obrigações em troca do mesmo salário.

Não agradar a todos é natural, J.C. provou disso (não, não me referi a Jornalismo Colaborativo, embora ele também não tenha agradado a todo mundo).

Mas a minha visão da equação jornalismo + mídias sociais é de total interdependência. Jornalista que não souber/quiser/gostar de incorporar as mídias sociais no seu trabalho, não terá lugar no mercado.

Em relação a como as mídias sociais podem ser incorporadas no dia a dia de quem trabalha com notícia, creio em 3 vertentes:

– apuração (busca por fontes, personagens, pautas, testemunhos, opiniões);
– veiculação (linguagem adequada às mídias sociais, grupos e momentos certos para divulgação de determinadas notícias);
– feedback/relacionamento (é muita informação espontânea e barata – na verdade, de graça! Por que não aproveitar para MELHORAR o meu trabalho? E por que não trazer esse aliado para MAIS PERTO da minha rotina profissional?).

Você acompanhou bem de perto a trajetória do Ohmynews, projeto que podemos considerar modelo em jornalismo participativo. E sabe que eu tenho várias restrições a ele (a principal, o adestramento de cidadãos para que se comportem como repórteres, quando a improvisação e desconhecimento de vícios e liturgia da profissão me parecem mais adequados à tarefa). Outro dia o Paulo Querido, jornalista português, disse que o jornalismo cidadão “dá uma notícia por ano”. Eu também tenho aquela sensação e que a noção de notícia de quem colabora com sites jornalísticos é do tipo meu-cachorro-fez-xixi-no- poste. De Gillmor a Querido, passando pelo Ohmynews (que estaria moribundo financeiramente, não?), você também não se decepciona com a qualidade da colaboração na nossa área? Que projetos colaborativos você referendaria hoje como modelos a serem observados? E o Ohmynews, que destino você enxerga pra ele?

E quem disse que o meu-cachorro-fez-xixi-no-poste não pode ser importante? Há um problema enorme nos noticiários colaborativos ancorados pela grande mídia, que pretendem aplicar os mesmos critérios de noticiabilidade para as reuniões de pauta da redação E para o conteúdo que o público manda. Isso reflete o vício do jornalista achar que sabe o que “é importante” para a sociedade, que ele sabe o que o público deve saber. Será? A propósito, o que é “importante” para alguém? Me parece um conceito tão individual que o jornalismo pasteurizou com uma arrogância absurda nos últimos 200 anos. Afinal, o que É importante está no noticiário. Mas importante para que, cara-pálida?

Se os critérios de relevância editorial forem os mesmos para o jornalismo tradicional e para o jornalismo colaborativo, então Paulo Querido tem razão: o público deve dar uma notícia por ano. Só que o erro vem antes disso. Vem na proposta editorial que estes noticiários trazem ao público. Eles querem cópias de si mesmos só que feitas pelas mãos dos outros. E isso é impossível! O público não estudou para isso. O público NÃO RECEBE para isso. Por que vai fazer um trabalho igual ou melhor do que o de um jornalista? O público fala daquilo que interessa a ele, à microssociedade dele. E isso vai do 1º dia do filho na escola até a sujeira na praça ao lado da casa dele. Por isso que o jornalismo colaborativo é quase sinônimo de jornalismo hiperlocal. E aí chegamos num dos pontos que, talvez, tenham jogado contra a trajetória do OhmyNews.

Este noticiário sul-coreano nasceu em âmbito nacional. Para os menos de 50 milhões de habitantes, o OhmyNews dava conta. Mostrava uma realidade que não aparecia nos jornais tradicionais, até mesmo por um vínculo forte que estes mantinham com o poder público, fruto de uma redemocratização tardia, além dos malditos kisha clubs, tradição segregacionista que mina a imprensa do oriente e limita o acesso a determinadas informações das grandes esferas sociais apenas aos veículos maiores, bancados por elas. Eis que o OhmyNews encontrou um nicho e cresceu. Cresceu tanto que não coube mais só na Coreia.

Espalhou a ideia pelo mundo. Foi copiado. Criticado, Ovacionado. Mas se já é difícil fazer um noticiário de cobertura nacional, o que sobra para um noticiário global? Na contramão do jornalismo hiperlocal, o OhmyNews Internacional (versão em inglês) não recebeu grandes investimentos, tem uma infraestrutura tímida e atualização lenta. Ainda assim, segue vivo, dando espaço para muitos cidadãos repórteres do mundo inteiro. Aliás, não conheço outro espaço jornalístico tão cosmopolita.

Para que o OhmyNews tenha futuro, é preciso haver uma mudança no modelo de negócio. Virar uma ONG ou experimentar o modelo de crowdfounding são algumas possibilidades. Vejo que o papel social deles é suficiente para justificar uma dessas duas alternativas. Assim, quero observar de perto o Spot.Us, Ushaidi e o Witness, projetos de crowdfounding ou crowdsourcing que podem nos ensinar modelos interessantes – tanto editoriais quanto financeiros.

16 Respostas para “‘Quem ignora o que o público diz em mídias sociais não pode ser jornalista’

  1. Muito bacana, isso é uma questão que eu sempre questionei. Porque os jornais sempre são iguais…
    Infelizmente o noticiário é igual em tudo, impresso, web, tv, mas o legal da internet é conseguir fugir um pouco do padrão. Eu acho mais interessante ler sobre o cachorro que fez xixi no poste, do que saber que o lula estava na Alemanha. Cada cabeça uma sentença.
    Abs!

  2. Acho muita presunção defender a bandeira de que as corporações midiáticas é que precisam organizar e cooptar (no bom e no mau sentido) cidadãos dispostos a informar e a criticar a informação.

    Acho muita presunção pensar que tão-somente (ou que prioritariamente) os que melhor sabem traduzir a linguagem e os fatos dos demais campos sociais a fim de que a sociedade laica os compreenda melhor sejam os jornalistas formados e treinados (ou adestrados?!) sob a tutela da mídia corporativa.

    Ora, se a mídia corporativa vive de patrocínio e a sua agenda política, econômica e cultural não pode ferir os interesses desses patrocinadores, é justamente a facilidade e o barateamento do processo de edição e a queima de etapas necessárias ao domínio da técnica que fazem com que um paradigma secular esteja sendo quebrado.

    A mídia corporativa tem um papel, que pode ser muito melhorado caso a CONFECOM consiga fazer com que, dentro de poucos anos, os monopólios e oligopólios sejam quebrados. No entanto, assim como está, a referência permanece sendo a informação de viés conservador orientada por especialistas que refletem um pensamento único.

    O único portal que possui um colunista diferenciado é o Bob Fernandes. Encontramos também um Nassif e um Alon Feuewerker aqui, um Azenha e um Rodrigo Vianna acolá… Mas o Paulo Henrique Amorim é muito chapa branca – o avesso do Jabor, do Mainardi, da Miriam Leitão e assemelhados.

    O jornalismo cidadão não tem espaço nos portais: ou por acaso o Fórum de Entidades de Porto Alegre, movimento que conta com um vereador e várias ONGs e associações de bairro, consegue denunciar a prostituição da Câmara de Vereadores pela construção civil?! Não, pois a RBS vive dos anúncios da construção civil. Logo, as pautas sobre sustentabilidade são extremamente pontuais, superficiais e não contextualizam a grave situação pela qual a cidade passa hoje em dia.

    Nesse ponto, os amadores independentes são muito melhores cidadãos e só precisam aprender um pouquinho a apurar a informação e a dar um certo espaço para o contraditório (coisa que a mídia corporativa industrial financiada pela publicidade tal qual hoje é posta jamais fará).

    O ciberativismo pode ajudar a fazer com que as mídias sociais e as corporações midiáticas abram os seus olhos, com o auxílio de uma verdadeira reforma na Lei das Comunicações seguindo o novo modelo argentino.

    Do contrário, Saskia Sassen já fez um estudo recente de recepção na internet e comprovou que o comportamento da maioria das pessoas ao buscar por notícias, crítica, análise e entretenimento na web reflete o comportamento de recepção dos veículos hegemônicos na mídia de massa.

    O modelo de financiamento e de concessão da mídia de massa influi bastante naquilo que as pessoas consideram como referência técnica e de estilo. Portanto, uma quebra de paradigma definitiva e mais democrática acerca daquilo que entendemos pela naturalização do jornalismo cidadão e pela parceria colaborativa sem dependência das corporações de mídia de massa só deverá se consolidar quando o pessoal que está hoje com 10 anos tiver 40 e quando os de 55 ou mais já tiverem passado dessa pra melhor.

    []’s,
    Hélio

    • Hélio,

      Tendo a concordar com tudo o que vc diz. Menos com depositar alguma esperança na Confecom. Aliás, nem me fale esse nome. Trata-se de um fórum anacrônico debatendo ideias velhas, antidemocráticas e repugnantes.

      abs

  3. muito boa a discussão. parabéns.

  4. Parabéns pelo texto, um excelente exercício de reflexão necessário aos jornalistas e à sociedade.

    “Quem ignora o que o público diz em mídias sociais já devia ignorar o que este mesmo público dizia nas ruas”. É exatamente isso. Parece que repórteres ligam o piloto automático e procuram as respostas que exatamente querem ouvir. Não é assim… O público não é ilustração.

    Também sou jornalista e justamente por me intrigar e me encantar com a relação das pessoas com a arte (para além de críticos, curadores e artistas), área que geralmente cobri, fui parar (e ainda estou) numa pesquisa de mestrado em sociologia acerca dessa troca, de onde sempre vi sinais riquíssimos de interação social, substrato para os textos mais interessantes.

    Gente, essa é a nossa matéria-prima.

    Muito bom!

  5. Oi Olívia!

    Compartilho contigo essa sensação de que o público não é ilustração.

    Já vi repórter de TV dizendo o que os entrevistados deveriam dizer na frente das câmeras. Isso é jornalismo?

    E ainda acham que isso é “ouvir o público”…

    Tanto pior são aqueles que se limitam às fontes oficiais, pela eterna e maldita desculpa de falta de tempo”.

    Pessoas assim parecem ignorar que notícia, jornalismo em geral são coisas VIVAS e não podem ser pré-programadas.

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  12. Precisamos urgente criar manuais para “jornalistas-cidadãos”. Logo na primeira página deve estar a seguinte definição de notícia:

    “Notícia não é quando seu cachorro faz xixi no poste. Notícia é quando o poste faz xixi no seu cachorro”.

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  14. Ola

    Muito bom!! Adorei a discussão

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