Arquivo do mês: outubro 2009

Universidade aprofunda debate sobre o uso dos games no jornalismo

Um olhar mais profundo na relação (ou interseção) entre games e jornalismo, procurando compreender a forma como os jogos on-line podem ser usados no campo jornalístico e noticioso.

É esta a proposta que está sendo desenvolvida na Georgia Tech _e que tem tudo a ver com a era da conversação e das novas narrativas jornalísticas, uma espécie de obsessão de minha pesquisa acadêmica nos últimos meses.

O trabalho na universidade americana começou bem, encontrando e analisando o jogo do “menino do balão”, um assunto que dominou o noticiário na semana passada e tem repercussões até agora, com a provável imputação penal dos pais da criança _que jamais esteve à deriva num balão, como eles fizeram acreditar.

Eu creio piamente no game, que já é a principal indústria do mundo, como um aspecto importante na renovação das maneiras como contamos histórias ao nosso leitor/usuário. Esse é apenas mais um exemplo.

E se a gente mudasse o cardápio noticioso dos jornais?

“Temos de partir de uma situação em que tentamos fazer o melhor trabalho cobrindo as mesmas notícias que todo mundo para outra em que trazemos a nossas audiências notícias que não havia ninguém cobrindo”.

A frase é do presidente da rede de TV norte-americana ABC, David Westin, e faz muito sentido. Por que ainda não se discutiu, no jornalismo, uma mudança de cardápio noticioso.

No máximo, temos batido na tecla, no caso dos produtos impressos, da necessidade de se relativizar o “aconteceu ontem”, divulgado fartamente pela web, para investir em conteúdo analítico e opinativo.

E a coragem para se fazer isso?

Westin avança na conversa com um ótimo ingrediente: e se procurássemos outra categoria de notícias, fazendo uma mudança profunda na agenda das editorias e, ao mesmo tempo, valorizando o exclusivo?

Não estou falando aqui de matar o hard news, por favor. Ele nunca morrerá. Mas pode perfeitamente ocupar bem menos espaço num jornal do futuro.

Equilibrar o que obrigatoriamente deve ser noticiado e incluir players novos me parece um excelente novo caminho para o produto impresso.

O jornalismo que transcende o papel

elpais_colombia_multimidia

Um veículo modesto, bem longe da badalação do homônimo rico e congêneres; Uma ideia de trazer conceitos mais vanguardistas ao surrado jornalismo nosso de cada dia. É o que basta.

O El Pais, de Cáli (terceiro maior jornal da Colômbia), inaugurou um canal para, segundo o próprio periódico, impactar a audiência “a nível gráfico, visual e jornalístico”.

Basicamente, propostas de novas narrativas jornalísticas. Um nome pomposo, que tenho usado sempre, mas que significa apenas deixar um pouco de lado a ditadura do texto e explorar outros recursos da web (todos, como vídeo, áudio, grafismos etc). A fórmula aqui é até surrada (a história de 11 personagens da noite calenha), mas isso pouco importa.

Se o El Pais daqui faz, com a estrutura que você já pode imaginar, a gente também consegue. Nem que seja pelo institucional, é obrigatório ter experiências assim em nossos veículos.

E há gente bastante importante no Brasil que, infelizmente, ainda está com o pé no freio quando a conversa vai para esse lado de fazer algo que transcenda (e ao mesmo tempo valorize mais) o papel.

A biópsia e um mea-culpa dos jornais impressos

Uma biópsia de um jornal sem vida (o moribundo Columbia Daily Tribune) e uma releitura do atestado de óbito do Rocky Mountain News (finado desde 27 de fevereiro deste ano). Textos que nos fazem pensar sobre o que andamos fazendo _e tudo aquilo que deixamos de fazer.

Uma edição aleatória do Daily foi analisada por Clay Shirky, nascido na cidadezinha de 100 mil habitantes no Missouri. Naquele dia, seis repórteres assinaram as únicas oito reportagens produzidas pela equipe do jornal. Todo o resto, excluindo o caderno de Esporte, era de autoria da AP.

E por que apenas seis repórteres? O resto estaria envolvido em outras tarefas ou investigações? “Não”, revela Shirky, “é que o jornal, que tem 59 funcionários, possui apenas seis repórteres”.

Em outro texto, John Temple, que foi publisher do Rocky Mountain News, faz um mea-culpa sobre o fim do periódico de 150 anos. “Nós enxergamos o site do jornal como uma versão eletrônica do jornal, sem vida própria”.

Em resumo, o povo do RMN pensou a web como espaço para exibir a edição impressa, não como um canal de novas oportunidades e plataformas.  Temple também descobriu tarde demais que o ex-plateia agora quer é interferir no processo. “Hoje os consumidores exigem serviços quando, onde e como eles quiserem, e querem ter o poder de participar, não apenas de receber conteúdo”, disse.

Conclusão: investir em produção de conteúdo impresso e experimentações de narrativas na web faz muitíssimo bem à saúde do seu jornal.

Mais conversas sobre a publicação pessoal

Na sexta-feira encerrei mais um pequeno curso (uma conversa, na verdade) sobre a era da publicação pessoal para a 48ª turma de trainees da Folha de S.Paulo.

É um pessoal que me pareceu bastante ciente sobre os novos desafios que a tecnologia impôs à profissão.

Os slides da aula (agradecimento especial ao amigo Sérgio Lüdtke)

O roteiro de links

Depois de uma sessão mais teórica, na semana passada, desta vez nos agarramos a exemplos (bons e ruins) de conversação e abertura para participação do público no mainstream.

Delícia lembrar o dia em que a ex-plateia, revoltada com o descaso e a ineficiência do veículo que acompanhavam, deu o troco e fez uma grande organização pagar muito caro.

Ou ainda perceber que, na lógica das redes sociais, as pessoas vêm sempre antes das instituições (algo que já virou um corolário, né?).

Mais: que o Twitter, diferentemente de todas as outras mídias sociais, não é construído com base em relações de afetividade e amizade. Todo o oposto: seu inimigo pode estar seguindo você.

Enfim, temos muito a aprender.

O enviesado conceito de off no jornalismo brasileiro

Tenho ouvido com bastante frequência, até por desempenhar, no momento, outras funções na redação, expressões como “a gente não consegue ninguém falando em off sobre o assunto?” ou “ninguém publicou nem mesmo uma confirmação em off”.

É aquela velha confusão do jornalismo brasileiro, que põe no mesmo balaio a publicação de informações sem atribuição de fonte (chamada por aqui equivocadamente de off) e informações para uso interno da redação (o conceito real de off).

O off nada é mais é do que um indicativo, uma pista que determinada fonte dá para que o jornalista avalie se uma investigação vale a pena _ou, ainda, que confirme ou complemente uma apuração em curso.

Ricardo A. Setti já falava sobre o tema em 2004, num excelente artigo para o Observatório da Imprensa.

No entanto, para nós, jornalistas brasileiros, off é tudo aquilo que publicamos sem identificar a procedência. Simples assim.

Alemanha ganha primeiro jornal impresso personalizado do mundo

Uma dupla de jovens empresários alemães apresentou esta semana um projeto mirabolante: o do “primeiro jornal personalizado da Europa“. Parece loucura, e é.

O Niiu, que será lançado na segunda quinzena de novembro, se propõe a ser uma miscelânea de reportagens publicadas pelas edições on-line de veículos alemães e internacionais.

Cada assinante (que pagará 1,20 euros por edição) escolhe, no dia anterior, que tipo de notícia quer ver no seu jornal na manhã seguinte.

A premissa do ousado projeto é superquestionável: “as pessoas preferem ler em papel”, diz Wanja Soeren Oberhof, 23, um dos donos da ideia (ao lado de Hendrik Tiedemann, 27).  É?

A duplinha de aventureiros diz que, para os anunciantes, seu produto é um prato cheio, porque podem alcançar exatamente o público que almejam.

 Como aventura, o Niiu me parece sensacional _é desse tipo de experimento que sacamos conclusões para o futuro do negócio jornal. Como produto, entretanto, tem tudo para naufragar.

Volto ao assunto quando ele fechar as portas.

(via 233 Grados)

Alguns segredos (?) do videoblog

As plataformas para distribuição e compartilhamento de vídeos nunca foram tão fáceis de manipular. Mais uma benesse do avanço tecnológico que, claro, o jornalismo tem se apropriado _ainda de maneira tímida e aquém de suas possibilidades.

Leah Betancourt, que é gerente de comunidades digitais do jornal americano Star Tribune, de Minneapolis, aborda um aspecto importante em texto publicado pelo Mashable: a produção de conteúdo, especificamente no formato videoblog, tão antigo quanto o YouTube mas que, infelizmente, ainda tem sido deixado de lado pelo jornalismo profissional (ressaltem-se as exceções de praxe).

Pior para o jornalismo profissional, porque as pessoas estão fazendo experimentações e, turbinadas pelo avanço tecnológico, muitas vezes conseguem resultados melhores do que os que se observam no mainstream.

 Da produção à distribuição, as dicas de Leah são valiosas para se começar (pra quem ainda não começou) a pensar seriamente no assunto e em novas narrativas jornalísticas, praticamente o tema da semana no Webmanario.

HQ, telenovela e fotojornalismo: um exemplo de nova narrativa

narrativas

Lançado originalmente em 2003, The Photographer é mais um belo exemplo de nova narrativa jornalística.

A obra mistura fotografia, história em quadrinhos e fotonovela para contar a aventura de Didier Lefèvre, fotógrafo que acompanhou uma missão da ONG Médicos Sem Fronteiras ao Afeganistão.

Outra bela ideia de sobre como contar uma história nos tempos de hoje.

Jornais dos EUA investem menos US$ 1,6 bi em jornalismo

Rick Edmonds fez as contas e chegou a um número impressionante: os jornais americanos reduziram seu investimento em jornalismo em pelo menos US$ 1,6 bilhão anualmente.

É um retrato nu e cru da crise porque passam os impressos diários nos Estados Unidos, país que perde um jornal a cada três meses, em média.

Ao mesmo tempo, Edmonds detecta impressionantes investimentos em empreendimentos on-line ou projetos que contam com a participação de estudantes ou organizações não governamentais.

Isso sim é uma boa notícia.

(via @agranado)