O retrógrado entrave sindicalista

Perguntei a Leonardo Dresch (a cabeça por trás da produção multimídia do jornal O Globo) por que os fotógrafos de jornais não se engajam no mix de conteúdos e, falando objetivamente, abracem a produção dos vídeos nossos de cada dia.

Falei disso há pouco tempo, e houve polêmica porque faltou o “fotógrafos de jornais” em meu discurso.

“A construção narrativa quem faz melhor é o réporter”, disse Dresch, que também é fotógrafo.Eu rebato com “mas são profissionais de imagem, deveriam se interessar por essa fronteira”.

Dresch levanta outro aspecto, este sindical: a organização que representa os fotógrafos é, em sua percepção (e compartilho isso), mais forte que a entidade de classe dos jornalistas. “Entidade de classe”, para dizer a verdade, é o termo certo.

Mas daí me lembro de Ronaldo Bernardi e seu incrível registro do mundo animal que levou um ano da apuração à concretização. Lembra? Claro: é aquele vídeo da tartaruga que ataca e come uma pomba.

A constatação óbvia é que os afinados com o discurso sindicalista estão ficando pra trás.

8 Respostas para “O retrógrado entrave sindicalista

  1. sindicalista bom é sindicalista…

  2. “Construção narrativa quem faz melhor é o repórter” é um fato, mas isso não deveria eximir o fotógrafo da atividade também.
    Fotojornalista, no entanto, creio ter aquela ideia de que foto boa é aquela que não precisa de nenhum outro recurso além da própria imagem. De uma certa forma eu concordo, é o que demonstra o talento do fotógrafo. Porém, não se pode estagnar de tal forma apegado ao conceito, a evolução multimídia está por toda parte, quem não aceitar isso e colocar em prática vai ficar pra trás…
    Ah, muito interessante a discussão no outro post também, o do dia 5/ago.

    • Juliana, concordo totalmente contigo. Não consigo entender como um profissional do plano e do enquadramento simplesmente não se preocupa com essas coisas. Se for verdade que trata-se simplesmente de uma questão sindical, é ainda mais vergonhoso. No jornalismo não tem lugar para essas coisas não. Existe bancário ainda? Pois é, é o caso.

  3. Estava lendo uns artigos a respeito do assunto e parece mesmo haver uma espécie de “rixa” entre repórteres e fotógrafos, coisa meio besta, na comunicação [não só nela, claro] todos devem andar juntos para obter o melhor resultado.
    Talvez tu já tenhas lido, gostei desse artigo – Reinventado o Fotojornalismo http://www.digitaljournalist.org/issue0203/kennedy.htm Give us a good view about the issue.
    Abs

  4. Devagar com o andor. Todo o papo sobre futuro e multimídia é interessante e bonito, mas muitas vezes não passa de uma máscara usada pelas empresas para esconder a mera exploração e a economia de mão-de-obra, que acaba levando a um jornalismo mal feito.

    A mistura de funções entre jornalista de texto e imagem pode render resultados interessantes, mas muitas vezes nada mais é do que uma maneira de ter um profissional trabalhando por dois, ganhando por um e fazendo um trabalho bem pior do que qualquer um dos dois faria sozinho.

    O que pode haver de positivo, por exemplo, em reunir as funções de repórter, cinegrafista e motorista do carro de reportagem, como faz a Band?

    “Sindicalismo” é coisa ultrapassada, arcaica? Não caia nessa. Há dois anos, o coração da indústria do entretenimento parou por causa de uma reivindicação sindical. Os roteiristas de Hollywood perceberam que as empresas estavam ganhando fortunas com as novas mídias e queriam ser remunerados por isso também. Nada mais justo. E nada mais distante do que vivemos. Cada vez mais os jornalistas são chamados para produzir em outras mídias, e ninguém ganha nada mais por isso — a não ser as empresas.

    Papo de sindicalismo ultrapassado? É isso o que os patrões querem que a gente pense.

    • Fausto,

      Motorista já é uma função que extrapola o assunto em discussão aqui, né? Especificamente neste texto questiono o porquê de repórteres fazerem vídeos nas redações de jornais generalistas, enquanto os fotógrafos não se envolvem no assunto.

      Mas entendo sua posição, apesar de discordar. Esse sindicalismo “exacerbado” pode matar a profissão.

  5. Não extrapola; mostra de qual lógica que estamos falando. Uma empresa que usa um cinegrafista para dirigir carro, filmar e entrevistar não está preocupada com a qualidade multimídia dos seus produtos. Está querendo faturar de qualquer jeito.

    Há muitos bons fotógrafos que não dariam bons repórteres de texto e vice-versa. Esse tipo de decisão deveria ser respeitada. E, se é o caso de um fotógrafo trabalhar fazendo texto E imagem, porque não receber pelos dois?

    O que mata a profissão é jornalismo mal feito. E um jornalismo multimídia que é criado com a única preocupação de gerar novos conteúdos sem custos adicionais leva justamente a isso.

    • Fausto,

      A questão que tanto defendo: construir uma narrativa multimídia não é fazer trabalho de cinegrafista, apenas uma nova forma de contar uma história. Quem tiver perfil vai fazer (já está fazendo, aliás), e nitidamente o resultado é bem melhor do que simplesmente uma página estática numa folha de papel.

      abs

Deixe uma resposta para Juliana Marques Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s