Arquivo do mês: setembro 2009

Jornalismo colaborativo ganha força em O Globo

Muito legal a iniciativa do jornal O Globo na campanha “Dois Gritando“, que tenta incentivar o jornalismo hiperlocal e a colaboração, contando para isso com a participação de seus leitores.

Pelos próximos três meses, o jornal vai publicar reportagens exclusivas baseadas em informações prestadas ou sugeridas por seus clientes. Trinta e seis temas (favelização e rua sem calçamento são dois exemplos) foram destacados inicialmente, mas o leitor pode incluir outros.

É o tipo de iniciativa adequada à necessidade de conversação com o público, mas me preocupa seu caráter temporário. Não podemos nos dispor a ouvir as pessoas por apenas três meses: é um trabalho de formiguinha interminável.

Se bem que O Globo é, de longe, o jornal brasileiro com maior diálogo com seu público. Basta lembrar das vezes em que material do Eu Repórter, o canal permanente de participação do periódico, apareceu nas páginas do produto impresso.

De toda forma, uma vez mais é O Globo _até por sua característica provinciana, mesmo sendo um jornalão_ quem se mostra mais preocupado com o que as pessoas estão falando, discutindo e se incomodando.

Aliás, sobre o provincianismo que citei acima: está certíssimo. Jornais com pretensões de alcance nacional, em geral, não conseguem atingir seus objetivos fora da sede e, ainda por cima, decepcionam o leitor da cidade onde são publicados. Em resumo: não consegue cobrir o país adequadamente, e ainda deixa brechas locais porque tem de gastar papel com assuntos gerais nacionais.

Passou da hora de derrubar esse tabu.

Mudanças sugeridas para os cursos de Jornalismo brasileiros

É sem dúvida um avanço o mestrado profissionalizante previsto no documento entregue por comissão de especialistas ao ministro Fernando Haddad com sugestões para mudanças nos cursos de Jornalismo brasileiros. As propostas do grupo ainda terão de passar pela aprovação do Conselho Nacional de Educação.

O surgimento de cursos de especialização, para jornalistas formados ou outros profissionais, já é uma realidade no pós-queda do diploma específico para trabalhar na área. Haverá várias oportunidades a partir do próximo semestre, e o reconhecimento desse cenário é um grande passo.

A comissão recomendou também a ampliação da carga horária do curso _incluindo aí enfim um estágio supervisionado e regulamentado, uma lacuna que sempre tivemos no jornalismo.

Mas é melhor ler o que diz Rogério Christofoletti, que analisou todos os pontos importantes do documento.

Lembrete importante: tudo pode ser mudado na discussão posterior do CNE. Trata-se, portanto, apenas de sugestões.

No tempo em que os jornais eram importantes…

life_newspapers

Uma belíssima galeria de fotos históricas da revista Life remete ao tempo em que os jornais impressos tinham toda a relevância do mundo.

Ainda que seja inegável que tenham perdido muita, não se desfizeram de toda ela.

Ou se desfizeram?

‘E o prêmio Pulitzer de tweets investigativos vai para…’

Ilustração: John Cole, The Times-Tribune

Ilustração: John Cole, The Times-Tribune

Abril de 2012, Universidade de Columbia (EUA). O apresentador checa seu smartphone para anunciar o vencedor da categoria “tweets investigativos” do Prêmio Pulitzer, a mais renomada distinção do jornalismo.

Exageros e ironias de cartum à parte, 2012 me parece muito tarde para um prêmio do tipo. Não haverá mais tweet, mas outra coisa (the next big thing?).

Agora, quanto à piada da brevidade do texto: é possível investigar e colocar pulgas atrás de várias orelhas em 140 caracteres. Não duvide disso. Afora o fato certo e sabido de um tweet levar a outro rincão, ou seja, uma página com o tamanho que se necessite.

A propósito, a ilustração de John Cole, do The Times-Tribune (Pennsylvania), abre o Nieman Report desta estação. O assunto é jornalismo e mídia social. Ótimas reflexões, para imprimir e ler.

(via @agranado)

A maior contribuição ao jornalismo visual completa 8 anos

msnbc

A representação visual de informação jornalística nunca mais foi a mesma depois deste trabalho da MSNBC publicado apenas cinco dias depois dos ataques de 11 de setembro, em 2001.

Foi a primeira vez que um veículo on-line utilizou o recurso do slide show (e também de áudio) para contar uma história. O infográfico animado acabou se tornando o divisor de águas entre o que era e o que passou a ser feito pelo jornalismo na internet.

Olhando assim ele pode até parecer meio tosco _e era. Tem dificuldades de navegação e recursos limitadíssimos. Mas lembre-se: estávamos em 2001, praticamente na pré-história da internet.

O que era simples acabou entrando para a história do jornalismo visual e das novas narrativas jornalísticas.

Estudar jornalismo não é uma exigência

Está lá, no 233 Grados (233ºC, aliás, é a temperatura de combustão do papel): veículo on-line espanhol procura gente com “texto notável” e que sabe contar boas histórias “ouvindo todos os pontos de vista”.

Uma das exigências é que “ter estudado jornalismo” não é uma exigência.

As vagas (entre elas documentarista e gestor de comunidades) são bem vanguardistas, ao menos um passo à frente do que se exige hoje no jornalismo profissional.

Ontem falei disso, né?

Será que temos jornalistas aptos e dispostos a assumir essas funções? Ou teremos de recorrer ao mosaico?

Cuidado: pessoas imitando jornalistas

Hoje um amigo jornalista me contou o pedido de socorro de um colega de trabalho da área de tecnologia de informação, instado em sua faculdade a entrevistar alguém para uma tarefa acadêmica.

Curioso, mas as pessoas sempre querem agir como jornalistas. O colega do amigo, leigo, queria saber quais os formatos de entrevista e como fazê-las.

Meio chato, porque a mobilização sem vícios é, sempre, mais útil. E o que garante o mosaico que dá origem à verdadeira colaboração que está por trás do conceito de jornalismo participativo.

O que você, cidadão, quer realmente saber? Sempre renderá mais do que simplesmente reproduzir hábitos e indagações de repórteres profissionais. Repórteres ganham a vida pra perguntar, você não. Pergunte o que quiser saber, de verdade. Funcionará bem melhor. Não há liturgia, apenas pergunta boa e pergunta ruim.

No geral, o jornalista tem um propósito: seu lide. A informação ou frase que resolverá a principal tarefa do dia.

O restante da humanidade, que também diariamente analisa, apura e difunde informação), não tem essa amarra formal. Ideias preconcebidas sobre o que são perguntas ou respostas, definitivamente, nada acrescentam ao processo.

Amador ou profissional, o jornalismo é, e faz tempo, uma conversa em que se buscam versões, explicações e análises.

Deixem o lado chato e protocolar com a gente e cuidem do resto.

‘Na internet, ninguém sabe que você é um cachorro’

cartum_cachorro_internet

O tema é velho e batido, e a charge, tola e infantil.

Porém chama a atenção que o anonimato na internet (um problema ainda atual e mais grave sobretudo no jornalismo on-line) tenha sido abordado em 1993, quando a rede mal dava seus primeiros passos _nos EUA, por que a novidade só chegou para valer no Brasil três anos depois.

“Na internet, ninguém sabe que você é um cachorro”, diz o cartum de Peter Steiner, publicado pela The New Yorker, uma das revistas mais legais do mundo.

O que mudou de lá para cá: a evolução da construção da reputação on-line forçaria os dois cachorros a se exibir, se eles realmente quisessem ter alguma relevância. A conexão entre real e virtual é absoluta.

Hoje, em vez de se esconder sob suas verdadeiras indentidades, eles teriam orgulho de latir au-aus para uma plateia.

‘A imaginação no jornalismo é a verdade’

Para que a ficção seja ficção, o jornalismo deve ser a verdade.

A ficção é o contraste sem o qual a imprensa não pode existir.

Interessantes palavras do escritor mexicano Carlos Fuentes.

Levantamento relaciona queda do PIB global a iniciativas de cobrança por conteúdo on-line

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Muito oportuno o levantamento de Ramón Salaverría, que usando dados do FMI _e bastante conhecimento sobre a vida pregressa da internet_ estabeleceu uma relação entre PIB global e iniciativas de cobrança por conteúdo on-line, como a que assistimos agora, desde 1996.

À ela, Salaverría deu o nome de Lei do Pagamento por Conteúdos On-line, cuja premissa básica é: “o número de iniciativas para implantar conteúdos pagos em meios digitais é inversamente proporcional à evolução do PIB nos países ocidentais”.

O gráfico elaborado por ele (e que você vê acima) é lapidar para comprovar a tese.

Salaverría deixa ainda a pergunta: recuperada a economia após o crack do subprime, desistirão os grandes grupos jornalísticos (que pediram ajuda até do Google) da nova investida monetarista contra o que os usuários da web há anos estão acostumados a ter de graça?