O direito de resposta mais célebre da história do jornalismo nacional

Visivelmente constrangido, Cid Moreira lê direito de resposta de autoria de Leonel Brizola

Visivelmente constrangido, Cid Moreira lê direito de resposta de autoria de Leonel Brizola

Fez 15 anos, praticamente incógnito, o direito de resposta mais célebre da história do jornalismo brasileiro: em 15 de março de 1994, visivelmente constrangido, Cid Moreira (que por 27 anos esteve à frente da bancada do Jornal Nacional) leu texto de 440 palavras que a Justiça obrigou a TV Globo a divulgar em seu telejornal mais nobre.

Foram cerca de três minutos nos quais Cid, a cara do JN, incorporou Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, que atacou duramente a emissora.

A ação de direito de resposta, obra do advogado Arthur Lavigne, foi inédita e abriu caminho para que os cidadãos buscassem amparo legal contra barbaridades cometidas pela imprensa _neste caso específico, num editorial, Roberto Marinho, o dono das Organizações Globo, havia chamado Brizola de “senil”.

Leia, abaixo, a íntegra do texto. E divirta-se com o vídeo deste momento histórico que minha amiga @fergiu me ajudou a relembrar dia desses.

“Todo sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui, citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Ontem, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar o editorial de O Globo, fui acusado na minha honra e, pior, chamado de senil.

Tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que use para si. Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e, basta, para isso, olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura que por 20 anos dominou o nosso  país.

Todos sabem que critico, há muito tempo, a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou ontem, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípio. É apenas o temor de perder negócio bilionário que para ela representa a transmissão do carnaval. Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a Passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar, de todas as forma, o ponto alto do carnaval carioca. Também aí, não tem autoridade moral para questionar-me. E mais: reagi contra a Globo em defesa do Estado e do povo do Rio de Janeiro que, por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior. E isto é o que não perdoarão nunca.

Até mesmo a pesquisa mostrada ontem revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado.

Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria, antes, um dever para qualquer órgão de imprensa. Dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção. Quando ela diz que denuncia os maus administradores, deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante de seu poder. Se eu tivesse pretensões eleitoreiras de que tentam me acusar não estaria, aqui, lutando contra um gigante como a Rede Globo. Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.

Quando me insultam por minhas relações administrativas com o Governo Federal, ao qual faço oposição política, a Globo vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível. Quem sempre viveu de concessões e favores do poder público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesmo.

Que o povo brasileiro faça seu julgamento, e, na sua consciência lúcida e honrada, separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis e gananciosos”.

14 Respostas para “O direito de resposta mais célebre da história do jornalismo nacional

  1. Bom, não me lembrava exatamente desse direito de resposta, mas ao longo dos anos (quando eu assistia ao Jornal Nacional), vi muitos direitos de resposta lidos pelos âncoras com constrangimento também.
    Realmente foi o direito de resposta mais célebre até hoje.
    Abraços!

    • Nunca houve direito de resposta no caso da Escola Base.

      Um dos donos morreu anos depois, deprimido.

      Outro, Icushiro Shimada, ficou frente a frente com vários editores-chefes e diretores de redação de jornais brasileiros, durante aula no Master de Jornalismo. “Podem me dizer o que quiserem, mas sei que vocês fariam tudo de novo. Eu não confio nos senhores”. Simbólico.

      • Letícia Alves

        Me lembro do caso da Escola de Base mesmo. Nesse caso além de não ter concedido o direito de resposta, fica claro a destruição da família pra sempre.
        Assim como a imprensa pode informar e contribuir, também pode confundir e até destruir reputações.

  2. Ei, bacana que postou a pérola!

  3. Profe Alec,
    ADOREI!
    Gostaria de ouvir seus comentários sobre a disputa de audiência da Globo x Record (pós 11 de agosto). Será uma ‘guerra santa’? Será que os telespectadores ou fiéis entenderam aquela palhaçada toda?
    Saudades mil..
    Bj gde,,

    • Profe Cacá,

      É até um clichê dizer que vale tudo pela audiência. É assim na TV, é assim no rádio, é assim na internet, é assim no jornal. O que tenho certeza é que os telespectadores que não eram fiéis nem adoradores da marca Globo ficaram bem putos com essa história toda. Ficou evidente o interesse institucional, não jornalístico.

      bjs

  4. Esse direito de resposta do Brizola foi a maior porrada que eu vi a Globo tomar desde que me entendo por gente.

    E o caso da Escola Base devia ser ensinado nas escolas (normais mesmo, não só nas de jornalismo) como uma aula de como não fazer as coisas…

    • Expedito,

      Eu tive a compreensão do que foi essa leitura de direito de resposta recentemente, ao ver anos depois e ficar chocado. Vi ao vivo, mas não tive a percepção histórica do fato no momento.

      Quanto à Escola Base, entendo os colegas e a pressão pela publicação com base exclusiva em fontes oficiais. É provável que eu cometeria esse mesmo erro. Logo, concordo contigo: tem de ficar como modelo de uma atuação profissional desastrada.

      abs

  5. Pingback: Cid Moreira, boneco de ventríloquo de Brizola | Webmanario

  6. Pingback: “De tanto ver crescer a INJUSTIÇA, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos MAUS, o homem chega a RIR-SE da honra, DESANIMAR_SE de justiça e TER VERGONHA de ser honesto” Rui Barbosa « ( E.V.S. )

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