Um trambolho chamado ‘máquina da UPI’

A máquina desenvolvida pela UPI: ruidosa, lerda e pesada, mas uma maravilha tecnológica na era da pedra lascada

A máquina desenvolvida pela UPI: ruidosa, lerda e pesada, mas uma maravilha tecnológica na era da pedra lascada

Outro dia, num claro episódio de regressão, revelei que, na minha primeira Redação (como se fosse minha, eu era apenas mais um foca) tinha um pote cheio de fichas telefônicas. O povo gostou e pediu que, sempre possível, eu contasse um pouco mais sobre a idade da pedra lascada no jornalismo.

Daí, não sei bem o porquê, me lembrei da máquina de transmissão de fotos que a UPI, agência de notícias criada em 1907 e que ainda existe, apesar de ter perdido muito da relevância, ajudou a desenvolver.

Bem, o trambolho da UPI era isso que você vê na foto acima. Pra começar, ficava acondicionado numa maleta (imagem menor, à direita) que pesava não menos do que 20 kg. O peso, como veremos a seguir, era o menor dos problemas.

Apesar de quebrar um galhão e agilizar a chegada de material fotográfico à redação (a máquina da UPI usava o sistema wirephoto, ou seja, as imagens eram transmitidas via ondas de rádio), a questão na operação da bugiganga envolvia bastante paciência.

Notem o cilindro que ela possui. Era ali que o fotógrafo, literalmente, colava a imagem que ia transmitir. E a bichinha passava a girar velozmente, acompanhada de um irritante, contínuo e altíssimo ruído. Uma maravilha da tecnologia, nos admirávamos todos.

Se a foto fosse colorida, o suplício era bem maior. Claro, cada uma das quatro chapas que compõem a imagem em cores (preto, cyan, magenta e amarelo) eram transmitidas uma por vez, num processo que certamente não levava menos de 75 minutos _a foto PB passava em, digamos, meia hora. Isso se a linha não caísse. E o fotógrafo tivesse de começar tudo outra vez.

Lembre que, além de carregar o pesado equipamento, os fotógrafos ainda cuidavam da revelação de suas películas, aumentando sua bagagem com produtos químicos, utensílios plásticos e papel fotográfico, muito papel fotográfico.

A última vez que eu vi uma máquina UPI (em funcionamento, e no meu quarto de hotel me azucrinando) foi em 1993, numa cobertura no Equador.

Que ela descanse em paz.

19 Respostas para “Um trambolho chamado ‘máquina da UPI’

  1. de todo modo, era um projeto ambicioso… não tinha ideia que isto existisse… como a internet hoje facilita tudo e simplifica, a impressão que se tem é a de que antes dela, não parecido ou com função semelhante pudesse existir…

  2. Eu vi durante algum tempo mais. Comecei a trabalhar no Correio do Povo em 1995. Lembro de ela ter sido aposentada só lá por 1998.

  3. engraçado imaginar algo portátil com 20 kg. ;p

  4. Muito interessante!
    Assim como a gente quando começou o curso de Biblioteconomia na UFMG (sou graduada por lá e onde faço mestrado), vimos as fichinhas do catálogo da biblioteca. Imagine um bibliotecário de várias décadas atrás catalogar cada livro manualmente?
    Essas histórias são muito interessantes.
    Abraços!

  5. A Leafax veio e foi antes de eu entrar no jornalismo.

    • Marcelo, acho que a tecnologia começou a andar tão rápido a partir daquele momento que novidades passaram simplesmente a ser tragadas pela novidade seguinte, que já chegava com bem menos hiato.

  6. Pingback: Tudo por um furo: de novo, a ficção vira realidade « Webmanario

  7. Muito legal, eu já sou meio do contra acredito exatamente nisso que tu disse, uma novidade traga a outra, mas no meio de tantos avanços eu ainda preferiria ter vivenciado essa época mais antiga.
    Abs!

  8. eu me lembro que em 1992, eu fazia downloads via telefone usando modem com velocidade absurda de 1200bauds, um arquivo de 1Mb demorava perto de uma hora, senão caisse a ligação, tinha que começar tudo de novo.

  9. Pingback: Um ano em dez posts. Feliz 2010! « Webmanario

  10. Eu tenho uma dessas em casa

  11. Eu trabalhava no Correio Braziliense com recepção e transmissão de fotos…. todas as noites ia dormir escutando aquele barulho piuiiii piuiiiii

  12. Adalberto Leister Filho

    Não peguei esses tempos da pedra lascada, mas lembro de coisas absolutamente ultrapassadas: o bip da federaçao paulista de basquete, que dava os resultados da rodada, os releases chegando por fax e às vezes só descobríamos uma notícia relevante quando alguém se lembrava de checar a máquina, no horário do fechamento, e tínhamos que mudar toda a edição, para desespero geral, os atletas que não tinham celular, a gente tinha que ligar na casa do cara e torcer para ele estar por lá ou deixar recado…

    • Adalba, a linha fixa – e, portanto, a necessidade de presença física em algum lugar – era o maior terror. Agora, o bip da Federação Paulista de Basquete, meu deus, merece um texto à parte: quem foi o gênio que inventou isso?
      abs

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