Só o deadline está sempre na mesma

Comecei no jornalismo diário em 1990, na Folha da Tarde, jornal que mais tarde, numa quase fusão com o Notícias Populares, gerou o Agora (o NP, na verdade, fechou dois anos depois da mudança de nome da FT, mas isso proporcionou uma absorção de parte de seu cardápio pelo único jornal popular que seria publicado dali por diante pelo Grupo Folha).

Era uma época bem diferente.

Pra começar, na entrada da redação tinha um pote forrado de fichas telefônicas _claro, não havia celular, e contato entre base e repórter só era possível se este último fosse a um orelhão dar sinal de vida.

Muitas vezes, esta ligação servia como modo de transmissão da matéria. Explico: muitas das coisas que fazíamos na rua tinham de ser simplesmente ditadas, porque não havia outro modo de passar a informação à redação.

Ficávamos mais tempo na rua, disparado. A verdade é que a rua era o refúgio do repórter. Hoje, monitorado o tempo inteiro, virou um calvário documentado em tempo real.

O contato externo com o jornal era exíguo. Ou envolvia um mensageiro portador de rolos de filmes, documentos e manuscritos _seja motorista, amigo fazendo um favor, o que seja_, ou era todo feito por telefone. Jornais mais diligentes usavam radiotransmissores, conhecidos como walkie-talkie (o fax, diga-se, apareceria pouco depois).

O dia a dia de produção do jornal envolvia ainda tarefas demoradas, como o past-up (a montagem manual, com cola Pritt e estilete, de cada página da edição), a transformação daquilo em chapa, a preparação da rotativa, bem menos expedita do que nos tempos de hoje, e a própria rodagem da edição _nem é preciso dizer que o equipamento atualmente disponível para as editoras imprime até dez vezes mais rápido a mesma quantidade de papel.

Você já deve estar aí rindo de tanta dificuldade, pensando em como era fazer jornalismo na era da pedra lascada (e olha que nem citei a inexistência da internet _ou do Google, como queira).

Mas tem uma coisa que não mudou em nada de lá para cá: o horário do fechamento.

É sério, alguém, me explica: por que, com tanto avanço tecnológico notório e a olhos vistos, o deadline, o maldito deadline, é praticamente o mesmo em 2009 como era em 1990?

Não é balela, eu vi: em alguns casos, como o das edições de domingo, o limite para concluir a edição era mais extenso há 19 anos do que atualmente. É, na minha eleição, o maior mistério que permeia o jornalismo impresso.

Se todos os gargalos se abriram, porque só o horário do fechamento não reagiu?

8 Respostas para “Só o deadline está sempre na mesma

  1. Acredito que seja pelo fato da quantidade de notícias também ter aumentado. Realmente, como tu disse, é muito mais rápido e fácil fazer uma matéria atualmente, mas a quantidade de notícias no mundo todo é incrível.

    Belo post!

    Abraço!

  2. Essa é uma questão que sempre me intrigou. Moro em Sorocaba, e não faz sentido que, em 2009, o leitor da Folha e do Estado, na quinta-feira, não possa ler o resultado do jogo do seu time, isso pra ficar num assunto “ameno”, digamos assim.
    Quando trabalhava na própria Folhapress e chegava à cidade por volta da meia-noite, várias vezes vi o caminhão da “Folha” parado descarregando os jornais na central de distribuição da cidade. Ok, há a questão de distribuir os jornais para o resto da região, mas isso não poderia ser feito mais tarde, de forma a receber um jornal mais atual?
    Com a palavra, a área industrial.

    • Fernando e Diego,

      Meu amigo Marcelo Soares, aparentemente, disse tudo: com tanto avanço, o jornal ainda depende de caminhões para chegar à banca. Isso não evoluiu nesse tempo todo. Agora, é inegável que chega a ser ridículo, na era da tecnologia, ter de fechar um jornal`frio às 20h para que ele chegue a… 90 km de SP!!!

      Um absurdo.

      abs

  3. Em 2002-2004, voltei a morar em Porto Alegre e lá assinei a Folha. No começo, o jornal chegava ao meio-dia. Era a mesma edição baixada às 20h. Quando as distribuidoras da Folha e do Estadão se uniram, o jornal começou a chegar às 18h. Deixou de ser negócio pra mim. Àquela hora eu já tinha lido tudo e mais as repercussões na Web.

    • Marcelo,

      É outro absurdo que jamais entendi: como numa praça servida por avião em pouco mais de uma hora o jornal chega tão tarde? Pior, a mudança na distribuição atrasou em seis horas o produto. Um péssimo serviço ao cliente.

  4. Realmente intrigante essa história do fechamento, mesmo em tempos de web e diagramação mais rápida. Mas o meu comentário maior é que fazia tempo que não via alguém usando “expedito” (no caso aqui, no feminino) como adjetivo… lembrei do meu professor de português, dizendo “seja mais expedito, Expedito”.

  5. Pingback: Um trambolho chamado ‘máquina da UPI’ « Webmanario

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