Pague para ser um repórter

Considerado a principal trincheira do jornalismo cidadão (eu adoro esse clichê), o site coreano Ohmynews _que só em 2009 já acumula prejuízo de US$ 400 mil (ou cerca de R$ 800 mil)_ agora aposta em doações para sobreviver.

É o próprio fundador e “presidente” da iniciativa, Oh Yeon-ho, quem relata o conto em carta postada na página. A doação é algo muito americano, pouco europeu, nada brasileiro (asiático, confesso, não sei).

Ele recorre a um discurso de “independência” e sugere que 100 mil leitores, doando cerca de US$ 8 mensais, poderiam manter o projeto de pé e, principalmente, menos dependente de publicidade. Pergunto-me, neste caso, se o produtor do conteúdo não é, em boa medida, seu leitor. Logo: pagar para trabalhar?

“Hoje”, diz Oh, “mais de 70% de nosso faturamento vem de publicidade”.

Eu torço o nariz quando o papo vai por aí. Porque toda a mídia formal amealha isso ou mais em anúncios. Porque os leitores, no máximo, pagam a assinatura ou a compra eventual em banca (e isso nunca garantiu a sobrevivência de ninguém).

Ao mesmo tempo, ser bancado por publicidade não pode ser motivo de alegação de falta de independência. Faz parte do jogo.

Sabem como é, o galo que canta primeiro tem culpa no cartório.

Aposto que a Ana Brambilla, especialista em Ohmynews, vai falar sobre o tema em breve.

4 Respostas para “Pague para ser um repórter

  1. Sim, guri, a situação é estranha e abre margens para interpretações do tipo “pagar para trabalhar”. O Pedro Dória deve estar dando risada disso, pois eu pego no pé dele desde 2007 quando ele chamou o OhmyNews de “trabalho escravo” 😀

    Encheções e puritanismos à parte, me parece que o OhmyNews não pode ser visto necessariamente como uma “empresa” que é sustentada pelo público tanto em termos de conteúdo quanto financeiramente.

    É uma comunidade, antes de tudo. E uma comunidade gerenciada por profissionais. Assim, os cidadãos-repórteres ou somente leitores contribuiriam para continuar a ter esses profissionais dedicados a manter a seriedade do espaço e o caráter essencialmente jornalístico do conteúdo.

    É mais do que pagar pelo conteúdo – que também pode ser consumido de graça – e do que pagar para trabalhar – que não é forçado a ninguém. Entende meu ponto de vista?

    Beijo!

    • Ana, foi só uma provocação. Não creio no “pagar para trabalhar”, vc sabe disso. Parto apenas do princípio de que os leitores do site são seus próprios colaboradores. Daí o jogo de palavras.

      Mais: descreio na fórmula de doações, não acho que funcione para notícias. Não há modelos palpáveis baseados neste modelo. Mas eu adoraria que desse certo.

      bjs

  2. Pingback: OhmyNews aposta na comunidade para sobrevivência financeira « Libellus

  3. Pingback: Alguns equívocos sobre blogs e jornalismo cidadão | thalles.blog

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