Aconteceu ontem: alguns escritos sobre o estado do jornal impresso

Desde ontem, com Carlos Eduardo Lins da Silva (ombudsman da Folha de S.Paulo), iniciamos aqui uma conversa sobre formas de o jornal impresso apresentar o noticiário a fim de se diferenciar de internet/tv, que exploram exaustivamente os mesmos fatos horas antes.

Silva contou que é recorrente a reclamação, por parte dos leitores da Folha, de que o jornal não trouxe fatos novos nem sequer avançou, publicando meramente o que já havia sido visto/lido pelo público no dia anterior.

Pesa contra o desprendimento ao “aconteceu ontem”, antes de mais nada, o próprio DNA do produto jornal, nascido para relatar e documentar a jornada que passou. Poucos jornalistas conceberiam um publicação diária que fugisse ao registro destacado do dia anterior. Mas, e o público?

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Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Pode-se dizer que é uma patologia do jornalismo.

O advento da internet teve muito mais impacto na audiência dos jornais do que o rádio e televisão porque, diferentemente de dois antecessores, a web deu ao consumidor de notícias a possibilidade de escolher onde e quando consumi-la.

Essa sim é a grande novidade que a revolução tecnológica trouxe ao exercício do jornalismo. Hoje não é mais necessário aguardar o momento em que jornal/tv/rádio vão transmitir notícias. Um sequenciado e curto apertar de botões leva o freguês a um destino ainda melhor: a exata notícia que procura. Afora o fato dele próprio ser capaz de apurar/produzir/difundir a informação que lhe convenha.

O triunfo da navegação por mecanismos de busca (eufemismo para Google), essa sim, expôs a grande ferida do jornalismo impresso: a desatualização.

Soluções óbvias são oferecer conteúdo diferenciado proveniente de investigação (o bom e velho furo) e tratamento analítico e opinativo ao noticiário.

Mas o que fazer com o “aconteceu ontem”?

Volto ao assunto nesta terça.

5 Respostas para “Aconteceu ontem: alguns escritos sobre o estado do jornal impresso

  1. Caro Alec, o “aconteceu ontem” precisa vir com um diferencial, senão não tem o menor sentido gastar dinheiro comprando notícia velha. Creio que o diferencial é o jornalismo crítico, que contextualiza e investiga os fatos. Se a internet é sintaxe, sejamos semântica. Abs.

  2. Pingback: Nada mais desatualizado do que o jornal de hoje « Webmanario

  3. Pode ser uma ideia ainda muito foca da minha parte, até porque não tenho a menor experiência de como é- parafraseando noblat- “a arte de fazer um jornal diário” .

    Mas creio que há a possibilidade sim de investir em interpretações, nos desdobramentos do fato. Abandonar um pouco o formato “retranca, sub-retranca” tão batido.

    Acredito que jornalismo de qualidade não é só aquele que informa o básico, isso qualquer boteco de esquina me dá. Eu acredito que bom jornalismo é aquele que provoca o leitor a pensar.

  4. Pingback: Aconteceu ontem: análise e opinião resolvem? « Webmanario

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