Nada mais desatualizado do que o jornal de hoje

Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, escreve hoje em sua coluna no jornal impresso sobre um fenômeno trazido com o avanço tecnológico: mais e mais leitores, enfim, “descobriram” subitamente que o jornal de hoje é feito, na verdade, ontem.

Silva ilustra sua tese com frases que recebe diariamente do público consumidor do periódico, como as que se seguiram à manchete “Avião com 228 a bordo some no mar no trajeto Rio-Paris”, que dava o mesmo tratamento noticioso, na última terça-feira, a uma informação amplamente conhecida desde as primeiras horas da manhã do dia anterior.

Leia também: Aconteceu ontem – Alguns escritos sobre o estado do jornalismo impresso

“A manchete seria boa em 1921 [ano de fundação da Folha] quando não havia TV e internet. Hoje, parece mais um jornal de ontem. Todo mundo já sabia” e “A manchete principal da Folha de hoje explica por que o jornal impresso está, cada vez mais, perdendo espaço para outras mídias” foram algumas das manifestações.

É um novo dilema de uma velha mídia: como o produto concebido para ser o registro histórico do dia que passou conseguirá ser atraente para um público que, não bastasse a possibilidade de se informar em tempo real, o faz sob demanda e ao alcance de um clique.

Há saídas, todas ousadas e arriscadas _como a própria não obrigatoriedade da manchete, motivo de enquete neste site (aliás, clique no link abaixo e dê a sua opinião sobre o assunto).

Vamos tratar bastante do tema nesta semana no Webmanario.

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

17 Respostas para “Nada mais desatualizado do que o jornal de hoje

  1. Acho uma prepotência os jornais ainda ignorarem isso. Como na morte do Papa. Todos ficaram o sábado inteiro na internet / tv/ rádio acompanhando e os jornais trouxeram a manchete “Morre o papa”. Daqui um tempo eles vão pagar mais caro por isso!

  2. Alec, acho que o debate nunca pode ser “ou isto ou aquilo”. Não é verdade q o leitor não queira encontrar no jornal o que já foi noticiado ontem. Muitas vezes ele quer. Quer encontrar resumido, ou explicado, ou ilustrado, ou ampliado, mais bem contado, detalhado, mas quer saber do que já viu ontem. O leitor compra o jornal porque credita ao jornal a possibilidade de escolher por ele, daquele monte de coisa, o que ainda vale a pena saber. Ele pode não ter tempo de ficar clicando em sites, ou ter coisa melhor pra fazer na hora do Jornal Nacional. Sobre o jornal sem manchete, acho que é uma falsa “solução”. Se o jornal não tem nada bom pra dar numa manchete, é porque não se preparou para contar boas histórias, não tem apurações exclusivas, ficou a reboque dos fatos ou dos outros. Ou seja, o problema está bem mais embaixo.

    • Ana,

      Estamos chegando lá: eu defendo que o hard news seja uma infografia, com o passo a passo do dia anterior. Que a análise/aprofundamento/tendência abra o material.

      No futebol, queria (e já fiz no Diário do Grande ABC entre 1995 e 2000) que o abre fosse o vestiário/repercussão, enquanto o relato do jogo fica resumido a uma bela ficha técnica acompanhada de sub de 25 cents.

      Sobre o jornal sem manchete (e que vamos chegar aos finalmente até o final da semana), concordo contigo e acho q tem de ter material investigativo pronto e rechecado pra manchetar em qualquer dia. É árduo, mas é o estado da arte do acabamento.

  3. Se fosse verdade que o crescimento de outras mídias deveriam mudar totalmente o caráter informativo do jornal diário, isso teria acontecido no começo do século passado, com o rádio. Desde a expansão do rádio os jornais estão “desatualizados”. Ou seja, para o leitor, atualidade não é tudo, certo?

    • Ana,

      A diferença hoje, se compararmos rádio e TV à internet, é a possibilidade maravilhosa de ter o noticiário on-demand, ou seja, na hora em q vc quiser. Isso sim provocou uma mudança e tanto no contrato de trabalho entre jornalista e público.

      Antes era preciso deixar rádio e TV vomitando sua programação até que chegasse a hora do noticiário. Agora, vai-se direto ao assunto desejado, no momento em que se quiser.

      Isso expôs definitivamente a desatualização dos jornais (e da própria TV). Imagine que os principais noticiários televisivos são os das 20h, pelo menos (sim, pelo menos, profe Pasquale…) 12 horas depois de os diários impressos ganharem as ruas _e algumas vezes com assuntos da noite anterior, como a rodada de futebol das quartas-feiras exibida no JN de quinta.

      Ou seja: mesmo a TV tem interesses de documentação do dia anterior, forçando uma desatualização polêmica.

  4. Também considero um tiro no pé esse tipo de manchete. Não há necessidade de repetir aquilo que já é de conhecimento de todos. Acredito que os jornais impressos ganhariam muito mais se investissem em interpretar a notícia, não apenas ater-se ao fato.

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  8. Rapaz,
    eu comprava três jornais por dia, hoje compro um por mês e olhe lá – quando algo no caderno de cultura me interessa.
    Leio notícias nos portais e comentários nos blogs.
    Passando frente às bancas, olho os jornais como produtos antiquados – até um pouco risíveis – e sinto travo, certa pena, nostalgia. Mas é assim mesmo.
    Não sei dizer qual ou se um jornal de papel me atrairia de novo – já fui viciado neles – mas penso, todavia, que se eles deixarem de frequentar as bancas sentirei saudades.
    Ainda gosto de vê-los por lá, empilhados, suspensos por prendedores de roupa.
    E pensar que foi uma instituição tão importante antigamente, indispensável, que me acompanhou a juventude inteira, que guardei, arquivei, mostrei a amigos, reli.
    No entanto, olha só como é o tempo, aos poucos, quase sem notar, fui deixando de lado o hábito de manusear, passar as folhas, estendê-las à minha frente no café da manhã, depois do almoço, à noite. E fico admirado que o hábito se foi e não sinto sua falta.
    Eu o esqueci fisicamente.
    Só me lembro deles quando passo pelas bancas.
    Lembro-me deles como se fosse um arranco na alma, com certa culpa de não os querer mais no meu dia a dia.

    • Walmir, seu depoimento é um sinal dos tempos.

      Eu ainda não sei se gosto mais do jornal ou da banca, ou ia toda semana com meu ansioso por ler novidades.

  9. Alec,
    Será que não está na hora, então, de mudar a “concepção do produto”?
    Quem registra a história continua sendo o jornal, mas na Internet. E o papel, o que pretende fazer para continuar vivo —porque realmente, se continuar falando do ontem, vai ficar (e já está ficando) no ontem.
    Concordo com sua aposta do outro post (sobre a infografia). E a reação do público talvez seja adversa mesmo —mas aí é questão de abrir mão de parte do ínfimo público dos jornais impressos hoje para tentar abarcar um público maior, que acha jornal extremamente chato.
    Não sei não. Mas que alguma coisa está para mudar, ah está! =)
    Abração!
    Madu

    • Madu,

      Passou da hora de mudar a concepção do produto. E eu sigo apostando no aconteceu ontem como um auxílio luxuoso para as páginas, destacando mais o aprofundamento (com observação, análise e opinião).

      Não desisti ainda…

      abs

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