Arquivo do mês: maio 2009

A web, a conversação e a parede de banheiro

“Aquilo que antigamente as pessoas escreviam numa parede de banheiro hoje pode ser visto por milhões”, afirma a advogada Sandra Baron, diretora-executiva do Centro de Estudos de Direitos da Mídia, de Nova York.

A frase sintetiza o que está acontecendo agora nos Estados Unidos e, como sempre, deve se espalhar pelo mundo: pessoas estão sendo processadas por calúnia, invasão de privacidade e violação de direitos autorais pelo que publicam na internet _seja nos comentários de um blog, num fórum, num chat, no microblog…

Reportagem do The Wall Street Journal (que aliás erra no título e restringe o problema legal aos “blogueiros”, esse termo detestável) mostra que o número de processos civis motivados por declarações postadas na web saltou de 12, em 2003, para 106 quatro anos depois (é o dado disponível mais recente).

Essa metáfora da parede de banheiro é muito boa. E se aplica também ao jornalismo, profissional ou amador.

Curioso que, nos EUA, alguns dos processados alegam estarem cumprindo tarefas jornalísticas para serem julgados por uma lei específica.

No Brasil, nem essa chance há mais: a queda da Lei de Imprensa aumentou sensivelmente o risco de a gente ser condenado por calúnia, injúria e difamação.

Fotografei um fantasma, e agora?

Não é inédito, mas é sempre curioso: ao fotografar a residência de Edward Jenner, descobridor da vacina contra a varíola, Chris Sandys, da BBC, diz ter capturado a imagem de um fantasma.

Se você observar atentamente a foto, verá que de fato há um vulto humanoide perto de uma porta, ao final de um dos corredores da sinistra casa.

Fantasma é matéria? Não, afinal de contas, fantasmas não existem. Mas a simples possibilidade de que um registro desses possa ser possível justifica o barulho em torno da “notícia”.

Agora, é sempre uma situação difícil: como publicar, sem cair no descrédito, que se “fotografou” um fantasma? Muitos veículos optam por simplesmente tratar internamente do assunto quando acontece alguma coisa do gênero com seus profissionais.

E esse tipo de coisa é mais comum do que a gente pensa.

A última que me lembro é a do fotógrafo Robson Fernandjes, do Estado de S.Paulo, cuja câmera travou ao registrar um pai de santo que avisou estar cercado de maus espíritos…

Eu, heim…

Jornais não dominam mais as bolsas de pesquisa científica

Dos Estados Unidos, quem diria, vem uma notícia auspiciosa para o jornalismo: editores e repórteres de jornais impressos não dominam mais a concessão de bolsas de pesquisa científica no país.

Segundo o New York Times, em quatro dos programas mais conhecidos (Harvard, Instituto de Tecnologia de Massachusets, Stanford e Michigan), caiu de 29 para 11 o número de jornalistas empregados pela mídia tradicional. Também diminuiu bastante a quantidade de jornalistas que trabalham em revistas e agências de notícias.

“A mídia agora é muito mais ampla”, conta James Bettinger, diretor da John S. Knight Fellowships, em Stanford. “Estamos tentando reconhecer esse fato e aproveitá-lo. Uma das coisas que nos parecem claras é que muitas inovações poderosas não virão do jornalismo tradicional. Este ano, escolhemos dois consultores de mídia que tradicionalmente não seriam considerados jornalistas.”

Há outra explicação para o desaparecimento gradual dos coleguinhas de redação entre os agraciados com bolsas de pesquisa nos EUA: o fato de os jornais dificultarem sua liberação para este tipo de curso e, pior, o medo dos profissionais de perder o emprego caso apostem na empreitada acadêmica.

Ainda assim, Bettinger tocou no ponto. O ambiente nada favorável a inovações que ainda toma conta das redações, especialmente a de jornais tradicionais, não sugere que seus quadros tragam, à universidade, alguma colaboração que realmente valha o pagamento de uma bolsa.

Exemplos, aliás, temos aí aos montes: a quantidade de bobagem na qual a academia tem se debruçado (e isso inclui o Brasil, claro) e desperdiçado dinheiro nos últimos anos é notória. Você conta nos dedos os trabalhos que realmente agregaram alguma coisa à evolução da profissão.

Mas agora, sem a predominância de jornalistas de jornalões, existe uma boa de possibilidade de chegarem, à esfera acadêmica, reflexões e detecções que ajudem mais rapidamente o combalido jornalismo a reagir, mudar e se adaptar a um novo paradigma comunicacional e informacional.

Otimismo demais?

E na revista, não vai nada?

La Lata: para ler, só com abridor...

La Lata: para ler, só com abridor...

Pensam que é só o jornal?

Nada disso, a revista também tenta se reinventar. Perdeu relevância, leitores e está na corda-bamba.

A priori, ela teria mais chances: papel de maior qualidade, mais tempo para maturação…

Enfim, nesta crise do impresso, a revista tenta mudar para não morrer.

Esta matéria mostra ótimos exemplos ultramodernos de como fazer revista nos tempos da convergência.

Jornalista bom é jornalista processado

Eu costumo dizer que jornalista que não tem um processo nas costas é simplesmente porque não foi notado. Não foi a “mosca na sopa”, como me dizia um colega de redação. Quando, no geral, os personagens do noticiário gostam de você, é sinal de que algo está errado com o seu trabalho.

Há a tentativa de reparação quando ocorre o erro crasso, é verdade. Essa não é boa ter nas costas.

Lembrei de tudo isso ao saber que Donald Trump, o homem que deu um emprego a Roberto Justus (seu imitador como apresentador de reality show no Brasil), foi aos tribunais contra o escritor Timothy L. O’Brien, que atesta que ele é, ao contrário do que apregoa, apenas um milionário.

Sim, Trump (que se denomina possuidor de US$ 5 bilhões) foi tratado como um reles detentor de “no máximo” US$ 250 milhões no livro-reportagem “Trump Nation: The Art of Being the Donald“, lançado em 2005. O’Brien teria descoberto, na biografia não autorizada, que o homem do topete inflava seu real patrimônio.

Hoje, quatro após o lançamento da obra, Trump confirmou a validade da queixa (houve uma espécie de reserva antes, para não perder o prazo _confesso que não entendi o meandro jurídico, me expliquem) dizendo ter sido prejudicado em seus negócios porque O’Brien o teria “desvalorizado” sem provas.

O magnata (milionário ou bilionário, tanto faz) garante ter perdido quatro negócios “intercontinentais” por causa das “difamações” contidas no livro. Aparentemente, não há provas dessa alegação.

Esse é um ótimo processo para se tomar nas costas (pondere aí o poderio do adversário, claro). Ainda mais após a crise econômica global, que fez fortunas enxugarem do dia para a noite. Trump está mais fraco e seus argumentos sempre parecerão mais pífios. E são.

E nessas, quem se notabiliza, é Tim O’Brien. Com um porém: ele precisa explicar de onde vieram os dados que tanto incomodaram Trump. No livro, eles são creditados a fontes que pediram anonimato.

Ressuscitaram um delírio _e que já enganou jornais

Bastou o jogador Ronaldo ter relembrado, durante sabatina ao jornal Folha de S.Paulo, a convulsão que sofreu horas antes da final da Copa do Mundo de 1998 para voltar a circular, via e-mail, um hoax que dominou a cena na web há 11 anos e, ciclicamente, volta à baila, notadamente em época de Mundial _ou quando, como fez o jogador corintiano, alguém tenta exumar o cadáver.

Trata-se de um texto apócrifo que relata suporto acordo de bastidores entre CBF e Fifa no qual decidiu-se pela venda do título à França _que venceu a seleção dentro de campo por retumbantes 3 a 0 em Saint-Dennis.

É claro, trata-se de um delírio. Em 1982, por exemplo, não havia internet, e tentou-se espalhar boca a boca a “informação” de que o italiano Paolo Rossi, carrasco do Brasil no Mundial da Espanha, havia jogado dopado e, desta forma, o Brasil passaria às semifinais em lugar da Itália. Ahã.

O lance legal desse hoax, e por isso ele figura aqui no Webmanario, é que jornalistas caíram no conto. Houve várias referências em colunas de jornais menos relevantes e, anos depois, blogs reverberaram essa bobagem.

Outra curiosidade: a única referência no Google a Ronald Rhovald, o funcionário da Nike que, segundo boato, teria intermediado a negociação, é justamente o texto do hoax. Um indicação clara de que se tratava de um personagem inventado para dar credibilidade a uma mentira.

Quando líamos jornais 2

Anos 30: vendedores de jornais no Rio de Janeiro

Anos 30: vendedores de jornais no Rio de Janeiro

Wall Street Journal restringe diálogo entre redação e leitores

Os jornais ainda não fazem questão de monitorar o que diz (e interagir com) sua audiência on-line, mas já estão bem interessados no que fazem seus jornalistas nestes canais.

O Wall Street Journal inclusive lançou um manual de conduta on-line para seus profissionais. E, por ele, é proibido compartilhar informação com o público.

Nada mais equivocado.

As normas do jornalão para regular a atividade dos funcionários nas redes sociais é digna de reprodução. Uma lição de como não fazer.

* Deixe nossa cobertura falar por si, não detalhe como uma matéria foi apurada, escrita ou editada;
* Não discuta artigos que não tenham sido publicados, as reuniões que você assistiu ou o planejamento de coberturas ou entrevistas que você fez ou fará;
* Negócios e prazer não devem ser misturado em serviços como o Twitter. O bom senso deve prevalecer, mas se você está em dúvida sobre a conveniência de postar uma mensagem, converse com seu editor antes do envio;

Estas recomendações simplesmente excluem a possibilidade de diálogo com pessoas que acompanham seu trabalho e, com frequência, dão sugestões ou simplesmente insights sobre coisas que poderão virar matéria.

Ao mesmo tempo, tenho ouvido opiniões que me desanimam. Como gente experiente em redação recomendar que “o leitor jamais deve ser respondido” porque “não tem nada a acrescentar e só enche o saco”.

Incrível porque várias dessas pessoas reclamam que, ao tentar um conversação via, digamos, microblog, não são respondidas. “Mas pera lá”, costumo interpelar, “e você por um acaso respondeu quando foi perguntado?”. Não, né?

A qualidade da conversação com a audiência depende de uma relação recíproca e de confiança. Se você for útil a um determinado grupo, receberá como recompensa o esforço dessas pessoas em lhe remunerar de alguma forma _normalmente, oferecendo informação.

Mas nossos jornais, ainda por cima, preferem evitar ou mesmo restringir esse contato. Outra desconexão com a vida real, que aponta claramente a tendência de pessoas serem mais importantes que instituições.

Inominável.

Que tal encontrar novos usos para o jornal?

Enquanto discutimos que futuro terá o jornal, o USA Today arregaçou as mangas e pediu a um estilista (Isaac Mizrahi) que criasse um modelo com base em… papel-jornal.

O resultado você confere neste vídeo.

(via @tdoria)

A gripe suína e a falta de contextualização no jornalismo

Isso aqui está quicando há alguns dias na rede, mas só agora me animei a escrever sobre.

É um vídeo que dá conta, com base em números oficiais da Organização Mundial da Saúde, que 31 pessoas morreram de gripe suína (ok, de influenza A H1N1) entre 24 de abril e 6 de maio deste ano.  No mesmo período, as mortes por tuberculose superaram 63 mil.

O que isso significa? Antes de mais nada, que na maioria das vezes falta ao jornalismo dimensionar o assunto que está se tratando. Colocados lado a lado, muitas vezes os números perdem todo o seu glamour.

Eu até admito que, neste episódio da nova gripe, como as Organizações Globo apelidaram por conta própria a doença, não foi possível detectar sensacionalismo perante o desconhecido.

Mas claramente faltou informação sobre a baixa letalidade da enfermidade, o que provavelmente poderia ter reduzido os episódios lamentáveis de pessoas usando máscaras a milhares de quilômetros de algum foco real do problema.