Arquivo do mês: abril 2009

Por que tanta gente quer ser jornalista?

Ricardo Kotscho comenta porque tanta gente quer ser jornalista. Pudera, é muito legal, adiciono. Durante anos, uma frase de Ziraldo foi meu mantra: “Eu não entendo como as pessoas podem ser felizes se não forem jornalistas”.

Legal que, logo de cara, Kotscho já se sai com “Claro, eu sei que com o crescimento das novas mídias eletrônicas ninguém mais precisa ter diploma nem emprego para ser jornalista, pois cada um pode fazer seu próprio jornal na internet.”

Essa é uma das sentenças com as quais mais concordo hoje em dia. Eu mesmo já disse, algumas vezes, que se tivesse essas oportunidades na minha época, provavelmente eu teria desenvolvido minha veia jornalística de cueca e em casa, sem jamais ter passado por uma redação ou faculdade do ramo.

Kotscho ainda fala de sua crença na sobrevivência do produto jornalístico impresso (eu também acredito nisso).

Enfim, é um texto de fôlego (na verdade, a transcrição de uma palestra) reproduzido pelo Comunique-se. E que num feriado pode cair bem como leitura incidental.

O estado do jornalismo cidadão no Brasil

Os pesquisadores da USP Beth Saad e Francisco Madureira (sim, meu amigo Madu, também editor de tecnologia do UOL) apresentaram (Beth representou a dupla) um interessante trabalho no Simpósio Internacional de Jornalismo On-line, realizado em Austin (Texas) no final de semana.

O paper analisa detalhadamente o estado atual do jornalismo cidadão nos principais portais de internet do Brasil. Vale a leitura.

Os outros papers do simpósio também já estão disponíveis na web.

Ainda lemos jornais 2

Em Dubai, moradores da cidade leem jornais na rua (Foto: PakistanHousing/Flickr)

Em Dubai, moradores da cidade leem jornais na rua (Foto: PakistanHousing/Flickr)

Uma decepção chamada leitor

Nada polêmica, capa de revista semanal de diário americano provoca reação negativa do leitorado

Nada polêmica, capa de revista semanal de diário americano provoca reação negativa do leitorado

Acho que sou muito ingênuo, porque fiquei espantado ao saber que uma foto na capa da revista semanal do jornal St. Louis Post-Dispatch provocou forte reação negativa dos leitores.

Na capa, que reproduzi acima, um negro beija uma branca. E daí?

E daí que essa combinação ainda incomoda as pessoas. Sim, em pleno 2009.

O jornal possui um blog que discute exatamente a questão racial nos EUA. E, ali, a capa (que não tem nada de polêmica mas acabou revelando os esqueletos no armário das famílias americanas) foi objeto de um intenso fórum de discussão.

Incrível como a gente ainda se surpreende com o público que lê e avalia o nosso trabalho. Às vezes dá vontade até de desistir dele. De vez.

Quando o jornalismo é um jogo

O Online Jounalism Blog traz um post caudaloso sobre uma tendência de convergência que já vínhamos observando desde o ano passado: o uso de games on-line como complemento ao noticiário _o newsgaming.

O texto cita o pesquisador Nick Diakopoulos, da Georgia Tech, para quem os jogos ajudam o usuário a ter uma compreensão mais ampla do significado e das causas de determinados acontecimentos.

É um mercado que, não duvide, crescerá _e muito_ nos próximos meses. Um investimento se as redações on-line quiserem estar sintonizadas com as mudanças impostas pela tecnologia.

Feitos e vendidos por sem-teto, eis os jornais que dão certo nos EUA

Nos Estados Unidos, jornais produzidos e vendidos por sem-teto a US$ 1 viram suas tiragens crescer desde a eclosão da mais recente crise econômica mundial. O movimento vai na contramão do que experimenta a imprensa, digamos, formal.

A explicação, ao mesmo tempo trágica, é inspiradora: melhorou o nível cultural de colaboradores e vendedores do produto nas ruas (muitas vezes, a mesma pessoa). Claro, é cada vez maior a incidência de desempregados (e sem lar) com melhor formação educacional.

Esses novos excluídos, vítimas dos despejos que compõem o cenário da depressão mundial, vivem em albergues públicos (ou sob tendas em terrenos baldios) e tentam recolocação. Vários descobriram em veículos como Street Roots, de Portland, Real Change, de Seattle, e Street Sense, de Washington, uma possibilidade real de tentar voltar ao patamar de vida anterior.

Todos estes jornais funcionam como instituições sem fins lucrativos, por sinal uma das saídas consideradas viáveis para os jornalões nestes tempos bicudos. Como tal, essas entidades estão habilitadas a receber verbas públicas e doações _embora venha da venda nas ruas a maior parte de sua subsistência.

O New York Times conta que vários desses produtos marginais estão vendendo mais exemplares depois da crise. Sua pauta, bastante parecida, relata dificuldades do dia a dia em regiões metropolitanas de notável concentração de desempregados.

Eles investem no treinamento de vendedores que compram o jornal a 25 centavos de dólar e os repassam aos leitores por um preço quatro vezes maior.

São os únicos produtos jornalísticos impressos que aumentaram sua circulação até aqui, em 2009, nos EUA.

O Caso Boimate revisitado: anatomia de uma barriga

Nasce um mito: a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

Nasce um mito: a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

A barriga mais célebre do jornalismo brasileiro completa, daqui a uma semana, 26 anos. Falo do boimate, história publicada pela revista Veja em sua edição datada de 27 de abril de 1983 _porém desde o dia 23 nas bancas.

A matéria (reproduzida acima) repercutia reportagem publicada pela ilibada revista New Scientist quase um mês antes, em 31 de março. Um infográfico (esse termo nem existia nessa época, usava-se “arte” mesmo) imenso tenta explicar o inexplicável. Pomposa, a resenha, que incluía aspas de um engenheiro genético da USP (busque por “Ricardo Brentane”) dava conta de um triunfo espantoso da engenharia genética: a fusão de células animais e vegetais.

O produto desta conquista era o boimate, como Veja apelidou. Em resumo, um tomate reforçado com células de gado que possuía uma polpa muito mais nutritiva e tinha “um futuro promissor na alimentação de pessoas”, como registra o texto do semanário da Editora Abril.

Ocorre que 31 de março é véspera de 1º de abril, data em que a mídia (principalmente a inglesa) costuma pregar peças em seus leitores. Até hoje essa tradição resiste.

A redação de Veja não percebeu as pistas, abundantes no texto, de que se tratava de um trote. Para começar, a fusão celular tinha sido obra dos pesquisadores Barry McDonald e William Wimpey _claras referências às redes de fast-food americanas McDonalds e Wimpy’s. Mais: ambos trabalhavam na Universidade de Hamburgo (ou Hamburg University, em inglês).

Veja não foi a única a cair no conto do boimate. A matéria da New Scientist foi lida parcialmente e debatida no Senado dos EUA durante uma audiência sobre as potenciais consequências ambientais da engenharia genética (procure por “McDonald”). Isso em setembro do ano seguinte, 1984.

Em 1983, o McDonald’s tinha uma loja havia dois anos em São Paulo _a primeira no país, dois anos mais velha, funcionava em Copacabana. A Wimpy’s, nem isso (a rede, ainda na ativa nos EUA, jamais desembarcaria no Brasil).

Era, também, bem mais difícil fazer jornalismo. Você ficava sempre com a sensação de que era o último a saber. Não havia internet nem Google, tampouco celular _logo, muito mais difícil localizar pessoas e checar a veracidade de fatos.

A própria telefonia, estatal e inoperante, deixava muitíssimo a desejar. Algumas ligações levavam horas para ser completadas para muitas vezes cair segundos depois. E dá-lhe discar (sim, o telefone era a disco e estropiava o seu dedo nessas mil tentativas).

O acesso a produtos impressos, então, proibitivo. Havia pesadas taxas sobre importação de livros, revistas e jornais. Mesmo assim, todos chegavam bem depois. No caso do jornal, com sorte, um só dia, mas revistas mensais (caso da New Scientist) ou semanais estavam pelo menos um período atrasados (às vezes dois ou mais).

O espaço entre o boimate original (31 de março) e o de Veja (23 de abril) revela exatamente o delay sobre o qual discorri acima. Normalmente, os jornalistas que viajavam ao exterior tinham a incumbência de trazer consigo na bagagem a maior quantidade de publicações possível. Era árduo saber o que a concorrência, especialmente os cachorros grandes, estava fazendo.

Para encerrar, as brincadeiras de 1º de abril na imprensa. Acho totalmente inadequadas. Felizmente essa bobagem inexiste no Brasil _a mídia de Espanha, Portugal e América Latina faz a mesma tolice e torpeza com seus leitores em 28 de dezembro, o dia da mentira deles (ao menos, sempre há fontes que enganam os jornalistas).

Não importa o quão estúpido seja o trote inventado, não me parece apropriado vindo de um veículo jornalístico.

Mas graças a eles o jornalismo deu à luz, há 26 anos, o boimate.

ATUALIZAÇÃO: Meu amigo André Marmota conta uma curiosa história de 1º de abril ocorrida no Brasil: foi em 1999, quando o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, decidiu publicar uma capa inteira com notícias fake (entre elas, a contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo São Bento, clube da cidade).

O excesso de Photoshop e o mal que ele faz

A miséria no Haiti parece mais glamourosa depois do banho de loja que a imagem...

A miséria no Haiti parece mais glamourosa depois do banho de loja que a imagem...

Finalmente alguém tomou alguma providência: um concurso de fotos na Dinamarca exigiu que três concorrentes entregassem os arquivos originais de suas imagens porque desconfiaram do uso excessivo de Photoshop, essa benfeitoria (e ao mesmo tempo praga) que assola o fotojornalismo.

A conclusão, veja você mesmo, é inequívoca.

... que a imagem de Klavs Bo Christensen ganhou num editor de imagens (Fotos: Klavs Bo Christensen)

... do fotógrafo Klavs Bo Christensen ganhou num software (Fotos: Klavs Bo Christensen)

(via @agranado)

Mais diálogos sobre a era da conversação

Participei na noite desta terça-feira da 13º Semana da Comunicação da UNG, a Universidade de Guarulhos.

Foi mais um diálogo sobre a conversação e outras modificações que a tecnologia impôs ao jornalismo. Como você pode ver pelos slides, não muito diferente do papo que mantive em outras faculdades (e mesmo dentro da Folha de S.Paulo) recentemente.

Hoje foi um pouco diferente porque havia a necessidade de dar ênfase ao jornalismo esportivo _que, afinal de contas, é o que desempenho no dia a dia. Daí eu sempre dou um jeito de cutucar quem gosta de esportes, mas não de jornalismo, e tentar afastá-lo o quanto antes da profissão. “Façam educação física, gestão em marketing esportivo, sei lá, tantas carreiras…”, digo.

Exibi ainda uns títulos ruins (eles estão por toda parte, é só procurar) e tive de tempo de discursar contra a obrigatoriedade do diploma para se trabalhar na profissão.

Muita gente não gostou do que ouviu.

Notícias do jornalismo cidadão

Vindas diretamente da Espanha, duas recentes menções ao jornalismo cidadão me chamaram a atenção.

A primeira é do designer Javier Errea, que está por trás do redesenho de jornais premiados e verdadeiramente novidadeiros neste museu de grandes novidades que é o jornalismo impresso.

“O bom jornalismo, sinto muito dizê-lo, nunca será feito por leitores ou usuários, mas por bons jornalistas. Não que a informação pertença aos jornalistas, eu não sou corporativista, acredite. Mas desconfio muito da moda. E vivemos uma moda de jornalismo participativo”, afirmou.

Do outro lado do balcão, o amador Eduardo Arcos rejeita o rótulo de “jornalista cidadão” e diz que ele não existe _Tiago Dória já falou sobre este texto, mas atraído pelo canto da sereia. Arcos cobra um reconhecimento do mainstream (leia-se: crédito) e tenta se posicionar no palco. Ele pede holofote, o que é péssimo (até porque, no geral, esse crédito sempre existiu).

Diz que os amadores são usados pela grande mídia e lembra que, na era da publicação pessoal, qualquer um pode publicar fotos, textos ou vídeos (ou o que seja) na internet, dispensando a presença de uma corporação.

Daí lembrei que tenho uma restrição ao consenso de que jornalismo participativo (ou colaborativo) e cidadão são sinônimos. Pra mim, não são. A participação me supõe uma mediação profissional. Daí participação. Participar do processo de contextualização de uma notícia. O jornalismo cidadão entendo como o ambiente em que pessoas colocam no ar, sem edição profissional, seus conteúdos noticiosos.

Preocupam-me, também, as duas visões. A do insider, caso de Errea, que vê moda numa coisa inexorável que a tecnologia deu a todo mundo. Ele, moderno no design de notícias, é um dinossauro quando o assunto é conversação.

E a do blogger espanhol ressentido, que se sente usado pela grande mídia (parar de reportar talvez seja a solução?).

Os dois estão bem errados.

Mas legal que tem mais gente falando sobre essa encruzilhada (texto caudoloso em espanhol, mas bacana).