O poder material de um jornal impresso

O papel é mais importante do que o que está escrito nele? Há quem acredite piamente nisso, como se das páginas de um veículo impresso emanasse uma espécie de autoridade moral e social que, por si só, tornasse melhor e mais combativas as informações expostas ali.

Há tempos a Ana Estela, do Novo em Folha, ensaia falar sobre o tema. Enfim saiu.

“Os impressos, por vários motivos _materialidade física, permanência, edição gráfica, circulação geográfica e demograficamente conhecida_, têm um papel de espaço público e de agente político que os on-line não têm (ainda, pelo menos)”, diz a Ana, que é editora de Treinamento da Folha de S.Paulo (registre-se: que dá bastante ênfase ao jornalismo multimídia).

Daí eu fico pensando se aspectos sociológicos e antropológicos podem se sobrepor a questões práticas como o cardápio de um veículo, seja ele uma rádio, uma TV, um site na internet ou mesmo um jornal ou revista, que andam tão em baixa (sempre importante repetir, muito mais no Hemisfério Norte do que aqui).

É fato que o jornal em papel é uma instituição até mesmo da democracia. Mas essa condição, como estamos assistindo, não é suficiente para evitar sua extinção. É por isso que zelar pelo jornalismo, independentemente da plataforma, é uma tarefa mais importante agora do que contemplar o poder que se esconde por trás de linhas e imagens impressas.

14 Respostas para “O poder material de um jornal impresso

  1. Alec,

    Já notou como o sonho de 90% dos estudiosos de Internet é publicar um livro? Essa eu nunca vou entender…

    • Rodrigo,

      Curioso. Se bem que, ultimamente, tenho notada uma guinada rumo aos trabalhos 100% on-line, em detrimento do impresso. Mas sua observação faz todo sentido.

      abs

  2. Pessoalmente, gosto da solução procurada pelo Christian Science Monitor. Ele parou de publicar todo dia em papel, mas não deixou de publicar em papel. Mantém uma edição semanal. A menor periodicidade do impresso obriga uma seleção mais apurada do que de melhor a casa tem a oferecer. Isso é interessante – quando eu coordenava o projeto “Deu no Jornal”, da Transparência Brasil, os estagiários chegavam a pegar mais de 20 matérias sobre o mesmo “assunto do dia” publicadas pela Folha ou pelo Estadão. Digamos que o assunto fosse sanguessugas, por exemplo. Dava quatro, cinco páginas de sanguessugas por dia. Isso significa que todos os melhores repórteres estão cobrindo um só assunto e deixando o resto de lado. O New York Times só faz coisas parecidas quando tem um 11 de setembro. Mais ainda: cinco páginas com um só assunto é um desperdício de papel e de edição. Necessariamente a maior parte do que sai nessas cinco páginas é coisa que um leitor minimamente ligado já viu na internet e na TV. O Guardian vem experimentando com um modelo paralelo que eu pessoalmente acho interessante – o Guardian Weekly. É um “tablete”, em formato de revista, que sai uma vez por semana e reúne praticamente as reportagens da semana em que o jornal investiu tempo, dinheiro e neurônio. Quem lê o jornal todo dia já leu antes, mas o Weekly não é pra quem lê todo dia. Acho que esse modelo de cobrir principalmente o que já deu na TV e na internet pode se ajustar bem ao site; o impresso valorizaria esse aspecto sociológico levantado pela Ana se centrasse fogo no que a casa tem de melhor e mais exclusivo a oferecer. Aquilo que realmente vale a pena recortar e guardar.

    • Marcelo,

      De fato, a ideia de migrar para o on-line mas manter uma edição em papel com o suprassumo do conteúdo eu vejo com ótimos olhos. De certa forma, as próprias edições de domingo dos jornalões brasileiros seguem um pouco esse formato (oferecer uma cara mais ‘revistada’ na edição mais nobre da semana).

      Mas eu continuo acreditando na permanência do papel como um produto premium e de elite. Eu pagarei com todo prazer pela minha edição impressa do meu jornal. É um hábito que não pretendo abandonar.

      abs

  3. Alec, em nenhum momento escrevi que o papel vale mais que o que está escrito. Será que eu me expressei tão mal que dei margem a esse erro de interpretação? O que eu disse é que a concretude física e a permanência que decorre dessa materialidade acrescentam ao noticiário um valor próprio, exclusivo dos impressos. E não sou EU que estou dizendo que o jornal impresso tem um papel diferente. Citei ali gente que realmente pesquisa o assunto –eu não pesquiso nada– falando isso. E, pensando bem, se os veículos fossem realmente iguais, as empresas aceitariam pagar pela publicidade do on-line o mesmo que pagam pelo impresso, não? Algum valor deve ter o fato de ser concreto, permanente, material, pelo menos para os anunciantes

    • Ana,

      Não, quem sugeriu que pudesse ser isso fui eu mesmo, num pensamento praticamente em voz alta. A “concretude física e a permanência que decorre dessa materialidade”, sem dúvida, confere algo diferente ao jornal impresso. O que eu estou tentando entender é exatamente qual é a extensão disso. Eu sou do tempo do “está marcado no jornal” como verdade absoluta. Mas essa coisa foi caminhando para um outro aspecto. Quero saber qual.

  4. Só pra deixar claro, então: me exclua dos que “acreditam piamente que o papel é mais importante do que o que está escrito nele”. Não acredito piamente em nada, muito menos numa bobagem dessas. =)

    • Registrado o protesto e devidamente excluída. Não me referia a vc, mas a alguns dos estudiosos linkados em seu texto. Perdão pela confusão. 😉

  5. Alec, teoricamente é isso. Mas as edições, inclusive de domingo, às vezes me dão um tédio… Geralmente dá pra contar nos dedos as matérias que me chamam a atenção e que eu não li antes. Cancelei a assinatura do Estadão por isso. Mantive a do Valor, porque todo dia tem coisa exclusiva, e mesmo no “assunto do dia” ele é mais sintético, mais analítico.

    • Marcelo,

      Há pontos altos e baixos, mas creia: domingo é o único dia em que recebo mais de um jornal em casa. Por ora, mantenho a intenção de prosseguir com essa diversidade.

      abs

  6. Alec,

    acho que o jornal impresso ainda tem mais credibilidade entre o público do que os portais de notícias.

    O que está impresso foi, obrigatoriamente, mais checado do que as “notícias online”. A agilidade da internet propicia maior número de erros – por consequência, menos credibilidade.

    Talvez o valor esteja aí.

    beijo,

    • Carol,

      Certamente o jornal impresso tem mais credibilidade do que os portais on-line, ao menos no Brasil (em países como os EUA, pesquisas recentes mostram que, quando não está pau a pau, o on-line já supera o impresso).

      Agora, discordo de sua afirmação sobre o que está no impresso “foi obrigatoriamente mais checado do que as notícias on-line”. Foi mesmo? Quem disse? Ou deveriam ser, pelo ciclo noticioso de 24 horas?

      bjs

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