Publicar só boas notícias é uma saída para o jornalismo?

O ponto de vista não é propriamente novo, mas é normal ressurgir em tempos sombrios, como o atual, de depressão após a turbulência econômica. Estou falando do uso da boa notícia como válvula de escape no jornalismo.

Mais de uma pesquisa já apontou que, além de saturadas das notícias, as pessoas estão especialmente saturadas de notícias ruins (seja o crash economômico ou mundo cão construído por pedófilos e assassinos).

É sobre isso que Paul Lamb escreve, citando como exemplos redes sociais construídas em torno de temas edificantes e até um projeto de jornalismo cidadão que só aceita “notícias felizes“.

Lembrei que a Folha de S.Paulo, há anos, chamava na primeira página sob o chapéu “boa notícia” a pauta “otimista” da edição do dia. No rádio, a CBN até hoje possui seção semelhante.

Resolveria o problema do declínio do jornalismo impresso? Respondo com uma reflexão: ele (o jornalismo) não estaria se desvirtuando caso optasse por uma agenda desse tipo?

20 Respostas para “Publicar só boas notícias é uma saída para o jornalismo?

  1. Oi, Alec!

    Toda vez que coloco a TV no jornal, minha mãe repete a mesma frase: não aguento mais ver essa violência, notícia ruim, blá blá blá…

    De certa forma, concordo com ela, como telespectadora. Mas como jornalista, não há como fugir do mundo real.

    Se uma das funções básicas do jornalismo é ser um “monitor independente do poder” (Bill Kovach e Tom Rosenstiel em ‘Os Elementos do Jornalismo’), certamente teremos notícias ruins, já que corrupção e abusos são quase inerentes a essa prática, desde que o mundo é mundo.

    A diferença, creio, está na forma de apresentar os fatos. Acho que o cansa mais não são as notícias em si, mas o sensacionalismo midiático em torno delas. Isso sim é desgastante para nós, jornalistas, e para o público.

    Violência existe. Mas já reparou que quando casos como Isabella, Eloá etc, vêm à tona, aumenta consideravelmente o número de ocorrências semelhantes? Honestamente, não sei bem como explicar esse “fenômeno”. Será culpa da mídia, que busca explorar ao máximo os temas em busca da audiência? Ou será que as pessoas criam coragem para denunciar mais?

    Deixar de noticiar ou diminuir a frequência desse tipo de ocorrência nos jornais não contribuiria para a impunidade? Ou será que falar de violência gera mais violência?

    Ainda não tenho opinião formada…

    • Carol,

      Não é que aumenta o número de casos após a divulgação de um, o que ocorre é o fenômeno da “agenda setting”, ou seja, começa-se a prestar a atenção em casos que ocorrem de forma isolada todos os dias nos rincões mais distantes do país ou da lado da nossa casa, na esquina. A mídia é que passa a noticiar aquilo que, até então, não virava nem nota de pé de página.

      bjs

  2. Sim, Alec, conheço a agenda setting. Mas acho que a imprensa não passa a prestar atenção a casos isolados. Ela cava mesmo, vai fundo, hiperdimensiona… Isso é que cansa.

    • Carol,

      Não vejo hiperdimensão, apenas suíte. Os outros casos vão servindo pra suitar aquele principal que detonou o estabelecimento da agenda. Mas cansa mesmo. É o público quem diz.

      bjs

  3. Jornalismo só com notícias boas existe, ao menos sei de um exemplo, e nasceu nos anos 90:

    http://www.associatedcontent.com/article/84498/the_bright_side_cape_may_county_new.html

    O que vejo é que nossa mídia tem interesses que a leva a ter um pé no sensacionalismo e outro no denuncismo. Acerta muitas vezes, fazendo a sociedade se posicionar e tentar solução para suas mazelas. Mas erra muito, principalmente por usar do expediente para vender seu peixe no contrabando. Não há imprensa livre, isenta. E hoje ela está nas mãos de um único cartel, que tem inimigos e grandes amigos. São seus interesses que mais ditam a pauta.

    • Jurandir, grato pelo link.

      Que não há imprensa isenta, não tenho dúvida. Isso é um mito. O ser humano não é isento.

      abs

  4. É… na verdade, não podemos generalizar a mídia. Talvez a televisão hiperdimensione determinados assuntos mais do que os veículos impressos.

    Sabe um exemplo de publicação que prioriza notícias boas? A revista Exame. Para ela, o Brasil vai de vento em popa… O ângulo das pautas são sempre os avanços econômicos, o crescimento de determinados setores, a contratação de mão de obra nas áreas rurais etc.

  5. Bom… eu assinei a revista por dois anos. Parei de recebê-la no começo do ano passado, acho. Até então, quando eu lia, achava que vivia no país das maravilhas. Acabei de passar numa banca de jornal e vi a edição desta quinzena. Talvez agora, com a crise, eles tenham mudado a linha. A capa é sobre o que deu errado com os bônus, ou algo assim.
    Não lembro de ler nada contra o governo. Só lembro de matérias focadas no crescimento e bom desempenho de determinadas áreas da economia brasileira.

  6. Isso me lembra o caso hilário do Dia da Boa Notícia, que o Portal iG quis implantar.

    Pena que elegeram o 11 de setembro de 2000 para isso….

  7. Mas em tempos de crise, não estariam os jornalistas corretos em mostrar todos os dias os números do desemprego?
    Hj ouvi no rádio q só no Brasil já são mais de 700,000 desempregados após a crise, ou no caso da pedofilia, após vermos o caso da menina de 9 anos não seria óbvio chamar a atenção do que anda acontecendo?
    Estamos saturados sim, mas esconder o que acontece não resolve em nada , certo? Outro caso que me chamou a atenção é o bombardeio da record a folha de sao paulo, os caras passaram do limite, esse tipo de uso do poder (já que a emissora passa uma matéria de uns 7 minutos o dia todo) não tinha q ser proibido?
    Bom quero dizer só que a imprensa é repetitiva mas se tratando de assuntos sérios acredito que esta certo, pois seria hipocrisia se manter apenas com noticias positivas em dias cada vez piores…

  8. Oi, Alec e Carol,
    tive a mesma impressão recentemente quando li algumas edições seguidas da Exame. Ela bate em alguns pontos da política econômica do Lula, não por acaso os mesmos que a Veja bate, mas a cobertura dela é francamente mais positiva, principalmente em relação ao ambiente de negócios.

    Arrisco um palpite sobre isso. Acho que um empresário, um executivo ou alguém que compre a Exame, e veja nela uma forma de obter boa informação sobre o ambiente de negócios, não se sentiria bem em ver um mundo negro, pessimista.

    Acham que tem fundamento?

    • Guilherme,

      Confesso que estou surpreso, mas minha última fase de leitor contumaz de Exame coincide com minha passagem pelo Invertia, o canal de economia do portal Terra (2005, portanto). Até ali, a pauta era totalmente política e direcionada para gargalos na infraestrutura, inabilidade com os juros, assistencialismo. E tome artigos/matérias do Sardenberg atacando o imobilismo do governo.

      Se for possível perceber uma mudança de discurso da revista, para o lado positivo, assim como caminhou a crise, taí uma ótima sugestão de trabalho acadêmico.

      Sobre o otimismo nos jornais, e me esqueci de falar: perceba o Lance. Qual é a manchete, do time que ganhou ou do time que perdeu? Trabalhei em A Gazeta Esportiva e lá era a mesma coisa. A exceção, mas por troça, foi a manchete “Porcos Tristes”, trocadilho infame perpetrado na final da Libertadores de 200 perdida pelo Palmeiras para o Boca Juniors.

      O jornal meramente esportivo, portanto, no geral opta pelo positivismo em sua capa.

      abs

  9. Eu leio muito raramente a Exame, mas com freqüência o Valor, igualmente especializado em economia e negócios e posso garantir que há nele um enfoque realmente atenuante sobre a crise. O mais contraditório é ser produto da sociedade entre o Globo e a Folha de S.Paulo, dois jornais que fazem um cotidiano alarmismo com os efeitos da crise no Brasil. No Valor, com um público mais técnico, o noticiário é muito mais equilibrado, sem exageros. Podemos ver pautas sobre setores na economia que estão saudáveis neste momento e crescendo, com análises muito mais aprofundadas.

  10. Pingback: O dia em o IG criou a data da notícia boa. Era 11 de setembro de 2001… « Webmanário

  11. Alec e demais,

    Não sou jornalista e não conheço o meio. Mas como ex assinante da Exame, a minha impressão era de que muitas das matérias eram compradas, para falar do sucesso da empresa X e do empresário Y. Estes artigos seriam como versões impressas de matérias de programas de TV como Amaury Jr ou do João Dória Jr.

    Abs,

  12. Pingback: Você quer ler boas notícias? | Webmanario

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