A sociedade não precisa de jornais, mas de jornalismo

Cresceu, nas últimas semanas, a discussão sobre a cobrança por conteúdo jornalístico na internet, por sinal uma grande bobagem que já foi testada e reprovada nos primórdios da web.

E não adianta comparar com o iTunes _afinal, notícia é perecível, ao contrário da música, executada milhares de vezes (logo, seu valor é imensamente superior).

Mesmo assim, me responda: você conhece alguém, no Brasil, que paga ao iTunes por música diante de tanta oferta gratuita? Um louco, talvez.

Daí aparece Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York (o lugar para se aprender jornalismo hoje no mundo), contando que em 1993 uma investigação antipirataria identificou uma série de torneiras que vazavam, de forma ilegal, o protegido conteúdo da popular coluna humorística que Dave Berry publicava no jornal Miami Herald.

A força-tarefa achou muita coisa, desde material na usenet (espécie de avó da internet), a listas de e-mail com mais de 2 mil destinatários e até um garoto de 14 anos que copiava as colunas porque adorava Barry e queria “que mais gente lesse o que ele escreve”. Isso há 16 anos.

“Quando uma criança ameaça o seu negócio não porque te odeia, mas porque te ama, você tem um grave problema”, disse a Shirky Gordy Thompson, que na época era executivo dos negócios on- line do New York Times.

Pois é exatamente este grande problema que está encarando o jornalismo de frente. Por mais que você se feche em copas e exija moedinhas para liberar pílulas de conteúdo, ele estará circulando livremente na web por outras vias. Várias. Milhares. E principalmente por pessoas que acham o seu trabalho o máximo. Elas pagariam apenas para ter o prazer de distribuí-lo na rede, sem auferir qualquer lucro.

“A habilidade do público de compartilhar conteúdo não vai cair. Pelo contrário, se expandirá cada vez mais”, diz Shirky. É essa certeza que torna absolutamente inócuo qualquer modelo escorado em cobrança do usuário.

Jornais não vendem papel. Vendem notícia. Sobre isso, Shirky _autor do principal livro sobre a sociedade em rede em 2008, Here Comes Everybody_ é definitivo.

A sociedade não precisa de jornais. Ela precisa de jornalismo“.

Mark Deuze, professor de jornalismo e novas mídias, também fala sobre o assunto em post recente de seu blog.

7 Respostas para “A sociedade não precisa de jornais, mas de jornalismo

  1. explodam os jornais, salvem o jornalismo!

  2. IZAÍRA THALITA S. LIMA

    Muito bom o texto e é exatamente o que comentamos aqui no curso de jornalismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) sobre o futuro do jornalista profissional nesse meio virtual. Notícias todo mundo poderá produzir na Web, mas Jornalismo com seus aspectos de crítica, investigação e apuração não será todo usuário que produzirá e a sociedade precisa que se faça realmente jornalismo, sem se ficar no superficial da notícia, na informação pela informação. Um abraço!

    • Izaíra,

      é exatamente isso. Eu costumo dizer que com o overload informativo e o excesso de opções noticiosas o trabalho do jornalista tende, ao contrário do que se pensa, ser mais importante. Ter alguém para filtrar/editar/hierarquizar notícias certamente será uma demanda das próximas décadas.

      abs

  3. Alec, pela lei – e pela ética – é proibido reproduzir conteúdo sem autorização, mesmo que a fonte seja citada, não? Esses “espalhamentos” pela net são absurdos, na minha modesta opinião. Várias pessoas mantêm blogs dessa forma: ctrl C ctrl V no texto dos outros. Até citam a fonte. Mas que contribuição elas dão pra sociedade – e pro jornalismo?

    • Carol,

      É proibido reproduzir com interesses comerciais, não? A reprodução privada e sem fins lucrativos não é atingida pela lei…

      bjs

  4. Acredito que não… lembro de ter aprendido algo nesse sentido. Acho que qualquer um que mantenha blogs ou sites, pode ser responsabilizado pelo conteúdo publicado e responder com base na lei de imprensa. Isso porque não há legislação especifica para essa mídia. Mas deve existir jurisprudência nesse sentido.

    Fiquei curiosa. Vou procurar informações sobre esse assunto…

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