Sobre a reinvenção do jornal

O debate suscitado pelo post anterior, que falava sobre a sustentabilidade da negócio jornalismo impresso, justifica uma continuação. Afinal, o que estamos buscando são soluções que ajudem a sustentar (por quanto tempo não sabemos) a prática de apresentar notícias em papel, hoje ameaçada devido a seu alto custo.

A Carol Rocha, por exemplo, não consegue imaginar um mundo sem jornais. Esta é exatamente a tese de Gary Kamya, que defende com unhas e dentes uma suposta expertise dos jornalistas profissionais, embora reconheça o poder de mobilização do crowdsourcing e as coisas que só um amador é capaz de fazer por você.

Daí o Jorge Cordeiro, companheiro velho de guerra das redações, tocou no aspecto limitador do meio papel, algo que se limita a si próprio. Enquanto na plataforma on-line temos qualquer tipo de opção (basta pensar que é um ambiente que abriga todas as outras mídias juntas), ainda não estabelecemos uma conexão intelectual de produção de conteúdo voltada para o uso dessas ferramentas. Pensa-se em papel, e só. Isso sim é ainda mais limitador.

Concluímos que o jornal precisa se reiventar. Mas como? Não por acaso o projeto gráfico vigente na Folha de S.Paulo, implementado em 2006, possui colunas abrindo páginas. Está no receituário de “reinvenção” do impresso valorizar articulistas e opinião como um diferencial da Web, meio em que o hard e o breaking news parecem se encaixar tão bem.

Uma questão crucial para o jornal mudar de fase é o “aconteceu ontem”. Libertar-se ou não desta amarra é um dilema para um produto que, afinal de contas, é um documento histórico do dia que passou. É fato, entretanto, que conviver com notícias lidas à exaustão 24 horas antes é para lá de desagradável.

Agora, eu coloco o convergência como maior entrave. Encimesmado, o jornal não pode ir muito longe. Confeccionado com o olhar multiplataforma associado à sua tradição de investigação e busca pela notícia de primeira mão, o jornalismo impresso ainda tem vários tiros para dar.

4 Respostas para “Sobre a reinvenção do jornal

  1. Acho que o impresso deve investir numa coisa que quase não existe no online: reportagem.
    Cadernos especiais, matérias analíticas, contextualizadas. Ainda acredito que esse seja o caminho.

    No universo online quase não existe repórter; a figura do redator é mais comum. Aquela coisa de checar tudo por telefone, fazer “ronda” na polícia, bombeiros, CET etc.

    • Carol,

      Posso responder de forma polêmica? Existe uma glamourização da figura do repórter. Não adianta ter repórter se for como é, em boa medida, hoje: aquela figura dominada pela agenda das assessorias e que não consegue colocar o nariz para fora para respirar durante uma entrevista coletiva (outra invenção dos tempos da pasteurização da imprensa).

      Enquanto houver tanto repórter agindo como cachorro com um gravador pendurado no pescoço, não rola.

      Precisamos de mais reportagem, sim, mas não necessariamente de repórteres. Até pq vários dos melhores subiram e hoje ocupam cargos de edição _tão importante quanto, ainda mais no jornalismo impresso.

      bjs

  2. Neste caso, então precisamos de melhores pauteiros. Gente que proponha temas interessantes para boas reportagens, feitas por bons repórteres – aqueles seres que perguntam, que questionam, sabe? rs

    • Carol,

      Aí vamos chegando a um denominador comum. Matéria boa a gente arruma graças a sacada, observação e fonte (ou tudo isso junto). Raramente o jornalismo declaratório oferece algo auspicioso. Mas em geral a pauta dos jornais é bastante fraca, basicamente um roteiro, justamente pq existe uma tendência a ficar refém do repórter. Todo um erro.

      bjs

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