Quem pode ser jornalista multimídia?

Mais uma minientrevista (na outra, o criticado foi o entrevistador…). Desta vez para o Curso Abril de Jornalismo. E tem tudo a ver com nossas conversas aqui no Webmanário.

Hoje, todo mundo fala do jornalista multimídia. Você acha que esse profissional é aquele que sabe produzir conteúdo para todas as plataformas? É essencial que o profissional saiba escrever para um jornal/ revista e ao mesmo tempo tirar foto, filmar, editar e colocar na rede?

Primeiro, não acho essencial. O jornalismo, e especialmente o bom jornalismo, é uma conjunção de perfis e habilidades específicas. A soma de todo esse conhecimento é que dá, ao produto final, uma cara tão plural e abrangente. Eu preciso, na minha equipe, daquele cara reflexivo, que questiona tudo, que tem sacadas e filosofa sobre o noticiário, ótimo texto, mas por isso mesmo demorado. Ao mesmo tempo, quero também o faz-tudo, que está on-line em todas as frentes, não tem medo de manual de instruções, instala programas, enfim, faz a roda girar dentro daquela caixa que tem tudo o que a gente precisa pra fazer jornalismo multimídia hoje: o computador.

Eu costumo dizer, para quem estuda jornalismo ou mesmo para quem já é foca, que quem tiver habilidade para fotografar, gravar áudio, filmar, narrar ao vivo, tuitar, enfim, tiver condições de abraçar todas essas mídias ao mesmo tempo, tem obrigação de fazê-lo. É muito pessoal: para alguns repórteres, usar uma máquina fotográfica (mesmo as mais simples) é um mistério. E fazer vídeos? As pessoas logo imaginam aquela câmera enorme, uma montanha de equipamento. Nada disso: estamos falando de habilidades específicas que estão dentro do espectro dos novos produtos portáteis (notadamente, notebooks e celulares), que facilitam a transmissão de dados e, ao mesmo tempo, não são (literalmente) um fardo para se carregar.

Agora, o que não dá para admitir é o autismo on-line, como as redações “de papel” ainda estão forradas de gente. Uma coisa é não ter habilidade para tocar vários empreendimentos ao mesmo tempo sem prejudicar o mais importante deles (a apuração). Ignorá-los e relativizá-los, porém, é o erro mais grave que um jornalista pode cometer hoje.

Você começou em um jornal impresso (a Folha da Tarde, em 1990), e também foi um dos primeiros jornalistas a gerar conteúdo para celulares. O jornalista hoje tem que ter mais habilidades?

A questão das novas habilidades tem tudo a ver com a ampliação das oportunidades de trabalho.

Você citou o conteúdo para celular, então falarei um pouco dele, por que de fato é um ótimo exemplo: foi uma empreitada, em 2001, na qual por meio de uma parceria com a BCP assinantes de serviços noticiosos da operadora receberam flashes da cobertura do jogo Uruguai x Brasil, pelas eliminatórias à Copa de 2002.

Foi algo muito novo e surpreendente. Era a estreia de Luiz Felipe Scolari no comando da seleção brasileira e eu estava lá, em Montevidéu, alimentando (via e-mail) um feed que retransmitia as pequenas notas em formato de torpedo aos usuários.

Além disso, cobri o jogo com matérias para jornais e flashes para sites (as parcerias foram definidas antes de eu viajar, num típico esquema stringer dos tempos de hoje) e fiz áudios para emissoras de rádio.

Naquela cobertura, só não fotografei e filmei (a demora para transferência deste tipo de arquivo naqueles tempos, ainda sem banda larga, talvez me absolva…).

Resumo da ópera: mais habilidades (e capacidade de dar conta delas, nunca se esqueça disso, não dá para fazer um monte de coisas, uma pior do que a outra) significaram também mais contratos e mais trabalho. Começou puramente como uma questão de sobrevivência (eu estava desempregado e busquei alternativas), mas que felizmente adotei como estratégia profissional.

O recado que fica dessa experiência: quanto mais coisas soubermos fazer no exercício da profissão, melhor informaremos o nosso cliente. Usuário, leitor, o que seja. Uma matéria sobre uma música, na Web, sem a música lá dentro simplesmente não cumpriu seu papel. E publicar um áudio é tão simples que, quando você descobre, fica com raiva por ter temido aquilo.

O campo para o jornalismo só tende a crescer, especialmente por causa da participação do público e do excesso de opções informativas. Contar com pessoas treinadas em hierarquização, filtragem e edição de fatos será uma condição que ninguém (ou quase, vai) abrirá mão nas próximas décadas.

Você pode citar 3 ou mais características fundamentais para um bom jornalista?

1) Esqueça o autismo digital. As ferramentas on-line estão aí, prontas para ajudar a agilizar o seu trabalho e sua missão (informar bem e o quanto antes). Várias outras surgirão, é inexorável. Uma coisa é o que dizem para você que a ferramenta faz. A outra, mais importante, é a utilidade que você dará a ela.
2) Não tenha medo da tecnologia. Pelo contrário, ela é nossa amiga e, mais ainda, do seu cliente, que deixou de ser espectador para ser participante.
3) Entenda o jornalismo como uma conversação e um processo tocado por várias pessoas: sim, o seu público. Crie comunidades em torno deles. Participe ativamente das redes sociais onde se debatem os assuntos de suas reportagens. Enfim, dialogue.

4 Respostas para “Quem pode ser jornalista multimídia?

  1. Esse termo não existe, ele define um meio, o tempo, acho na minha enorme ignorância, vai provar que tudo isso é bullshit. Existe é mil maneiras de mostrar a mesma coisa: jornalismo. E ponto.

    • Barbara,

      Define não o meio, mas os meios. Do ponto de vista semântico e de nomenclatura, é bullshit, sem dúvida. No aspecto prático e profissional, contudo, exige uma formatação do cérebro. Todo um desafio.

      bjs

  2. Pingback: Convergência para quem precisa « Webmanario

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