Arquivo do mês: dezembro 2008

Conversações sobre o jornal impresso II

Eu gostei dessa coisa de conversar sobre os jornais impressos. E resolvi prosseguir.

No post anterior, falávamos sobre minha crença na perpetuação da espécie _ainda que, fique claro, ela jamais voltará a ser um produto de massa e ainda precisa encontrar o seu lugar no mundo de acordo com o novo “contrato de leitura”, como bem provocou o David Butter.

Numa era em que já há toda uma geração de jornalistas sem tinta no DNA _vários nem sequer foram apresentados às etapas de produção de um produto impresso_, é esperado encontrar quem veja no veículo que papai lia (será que ainda lê?) uma peça de museu.

Mesmo sem o tal DNA, todos os dias essa geração se depara com os jornais, que são importantes fornecedores de informação exclusiva para os sites nos quais trabalham. Essa é uma constatação contra a qual não há entretantos.

No Brasil, o negócio do jornalismo impresso se mostra sustentável mesmo em tempos bicudos _ontem, novos números apontaram que o faturamento com publicidade cresceu 4% com relação a outubro de 2007. O melhor é que, on-line, as oportunidades se expandiram ainda mais.

Enquanto vê subir o faturamento dos portais, o webjornalismo (um pedaço do que eles oferecem, não o responsável absoluto por essa alta) ainda se debate com sua frágil credibilidade.

Pesquisas qualitativas e de opinião são categóricas: quando confrontado com as duas plataformas, o consumidor de notícias ainda enxerga (e de longe) o jornal papel como o meio mais confiável para obter informação e tende a “acreditar mais” nos veículos on-line se eles forem ligados a empresas tradicionais do ramo _ou seja, donas de jornal impresso.

Tecnologia, positivamente, não compra credibilidade. E esse caminho, muito longo, é o principal obstáculo que o jornalismo na Web ainda precisa superar. Vários já parecem superados.

Sozinho, sem a muleta das grandes corporações, será possível? Talvez não. O blog, pedestal da publicação pessoal e descolado do mundo corporativo, está aí para provar (PDF).

Voltamos ao tema.

Conversações sobre o jornal impresso

A discussão agora começa a se encaminhar: que utilidade nós (profissionais da área e leitores) daremos ao jornal impresso em papel nos próximos anos?

Apesar de o cenário não estar claro, me parece evidente que o produto não acabará. O jornal, da maneira que é feito hoje, ainda tem “garrafa vazia para vender”. Não fosse assim, os portais de Internet não abririam suas atualizações diárias replicando reportagens de seus ancestrais. Só isso já é uma demonstração da utilidade de editores experientes e reportagem ostensiva.

James Surowiecki diz, em artigo na New Yorker, que um veículo como o The New York Times não é menos lido do que antigamente. Muito pelo contrário: graças à Internet, o consumo de suas notícias nunca foi tão alto. A questão é que, via Web, ele não custa nada. Ao mesmo tempo, derrubar a barreira do conteúdo pago explica porque o acesso a seu conteúdo aumentou. É uma equação nítida.

Eu mesmo cheguei a imaginar um cenário em que os jornais em papel também passariam a ser gratuitos, cobrando por serviços como, por exemplo, a entrega do exemplar em casa. Porém já houve jornais que cancelaram esse plus alegando redução de custos.

Felix Salmon avança um pouco mais na discussão e aponta que a notícia sempre foi gratuita. Na verdade, durante décadas os leitores pagaram para receber anúncios, não informação. Sim, são os anúncios (não as assinaturas ou venda em bancas) que mantêm o negócio jornal vivo.

E, pelo menos no Brasil (cheque o seu jornal de hoje, forrado de cadernos extras para abrigar ainda mais peças publicitárias), o negócio segue em expansão.

Nessas conversas sobre futuro do jornal impresso, lembre-se sempre de separar o mundo em pedaços. O colapso de empresas jornalísticas nos EUA, por exemplo, não encontra equivalência na Europa ou na América do Sul _e mesmo na África, onde o mercado dos gratuitos (que comprovadamente impulsionaram os pagos) ainda é ínfimo e tem muito a crescer.

Um forte indício

A American Society of Newspaper Editors discutirá, em abril, a possibilidade de tirar “paper” de seu nome e se transformar apenas na American Society of News Editors.

A discussão foi revelada apenas um dia depois de dois jornais de Detroit anunciarem o fim de suas edições impressas.

Presságio?

Quem tem medo do jornalismo popular?

Luiz Carlos Duarte, diretor de redação do Agora São Paulo, e Octavio Guedes, que ocupa cargo similar no carioca Extra, foram os convidados do programa Notícia em Foco, que semanalmente leva jornalistas à CBN para discutir o futuro da profissão.

Interessante ouvir o diálogo entre eles, em alguns momentos tão diferente, em outros, bem parecido. Sobre os jornais gratuitos, por exemplo, enquanto Duarte se aferra à logística de distribuição e garante ter mais penetração do que Destak e Metro, Guedes aponta para o bolso e mostra preocupação com essa concorrência _a verdade é que a instabilidade do câmbio e da economia como um todo atrasarão novos investimentos nesta área.

Ambos os jornalistas comandam jornais populares, segmento em que o preconceito e a desinformação grassam na mesma proporção de patinadas editorais e forçadas de barra.

Foi, enfim, uma conversa bem interessante e reveladora sobre as estratégias e pontos de vista de dois jornais bem posicionados em seu nicho.

Os hackers da notícia I

Primeiro, o uso malicioso da rede: se você é um internauta que costuma navegar atrás de notícias, impossível não se sentir observado ao receber um mail não solicitado com as dez matérias mais lidas da CNN ou com um resumo das
especiais de fim de semana do New York Times.

A mensagem certamente foi enviada por um tipo de espertalhão que usa o consumo de notícias como um pretexto para capturar dados pessoais, sejam eles de ordem fiscal ou pessoal.

É uma forma de o noticiário ser usado, no mínimo, como chamariz para irregularidades na Web.

Perceba isso: seu histórico de navegação o coloca imediatamente na rota de determinados caçadores de dados, e por ene motivos.

Outro aspecto é a etiquetagem dos textos. Nota-se muito na blogosfera (ainda que, pelo menos a nacional, seja totalmente irrelevante) um inchaço nas tags de blogs, a ponto de “caso isabela nardoni” aparecer como link hierarquicamente tão importante quanto um show de Madonna.

Isso mesmo, etiquetam textos com palavras da moda para garantir que, nas buscas comandadas pelo Google e que abrangem só 10% da Internet legal, páginas apareçam com protagonismo.

É outra forma de flagrante manipulação na Web.

O papo prossegue.

Mais vulnerável do que nunca

Vale a pena ler, ainda que com algum atraso, matéria do New York Times assinada por John Markoff sobre a vulnerabilidade da Internet _o texto, em português, está no suplemento semanal que a Folha de S.Paulo publica com reportagens especiais do jornalão americano.

O cálculo é que criminosos roubem, anualmente, US$ 100 bilhões dos usuários de computador.

Uma análise paralela que se deve fazer (e que escapou de Markoff) é a fragilidade de quem aperta os botões para acessar a rede. Ou seja, nós.

Trazendo a conversa para o jornalismo, o assunto que nos interessa aqui, a gente pode chegar a uma série de vigaristas que não aplicam fraudes financeiras, mas manipulam os usuários da mesma forma.

Voltaremos ao tema para introduzir os hackers da notícia. Para eles, não há limites quando se trata de distorcer acontecimentos e imagens.

Passando dos limites

Um jornalista tem emoções e preferências, mas revelá-las em público (ou seja, no exercício da função) é catastrófico nos quesitos ético e comportamental.

É bastante comum (além de péssimo e não-recomendável), nas coberturas de esporte, treinadores e jogadores vitoriosos serem aplaudidos em entrevistas coletivas.

Repórteres de cultura também costumam dar uma de tietes quando estão diante de astros e estrelas _e daí, tome mais aplausos.

Até em política há personagens que são recebidos com felicitações por profissionais que têm a obrigação de manter postura neutra diante dos acontecimentos (um exemplo é o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que tem uma geração de fãs hoje de bloquinho e caneta nas mãos).

Mas nada como o ocorreu neste domingo, quando um jornalista iraquiano arremessou seus sapatos contra George W. Bush durante uma visita-surpresa do norte-americano a Bagdá. “Este é o beijo do adeus, cão”, disse o repórter, retirado da sala de entrevistas.

E, espero, da profissão.

A produção jornalística do Unifai

Os alunos do curso de Jornalismo do Unifai (Centro Universitário Assunção) deram a cara pra bater nessa reta final. E 2009 promete ser um ano cheio de desafios, obstáculos, dificuldades, inquietações.

Comandados pela jornalista e professora Camila Escudero, puseram no ar mais uma edição do e-Mariana, nosso informativo on-line.

Sob a supervisão de Flávia Delgado, fizeram ótimas experimentações em TV e já sentiram o gostinho do veículo.

Com Paulo Massini, nosso bom e velho Massa, viajaram ao mundo do rádio e estão se aperfeiçoando.

E professor Alec Duarte, não fez nada? Pois é… a prática ficou toda para 2009, quando confeccionaremos o produto jornalístico que definimos ser o ideal, debatido neste semestre que se encerra.

Carla Coelho, coordenadora do curso, e Rodolfo Martino, o mentor de toda essa geração, certamente cobrarão esmero.

Ótimo ano para todos, então!

Uma imagem…

Ronaldo acena para a torcida em sua apresentação no Corinthians

Ronaldo acena para a torcida em sua apresentação no Corinthians

… fala mais do que mil palavras (registro necessário para o fato jornalístico de 2008 no Brasil). E, como tomei merecida bronca de Gustavo Roth, editor-adjunto de fotografia da Folha de S.Paulo,esclareço que a foto acima é de Diego Padgurschi.

O inevitável caminho rumo aos dispositivos móveis

Olha que bacana essa informação do Wall Street Journal: em nações emergentes, como a Indonésia, o acesso à Internet está ocorrendo com mais freqüência por meio de telefones celulares, não dos tradicionais desktops.

É uma tendência que, se confirmada, só vai ampliar a oferta de serviços móveis (e os postos de trabalhos para quem mexe com conteúdo, como nós, jornalistas).

A matéria tem um dado espetacular: a projeção de que, em 2013, serão 700 milhões os smartphones (celulares com acesso amigável à Web), contra os 76 milhões registrados em 2007.