A insanidade dos trolls ativistas políticos

A polêmica atuação do delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz no Caso Satiagraha deu mais uma demonstração exemplar de que um estudante francês, Nicolas Kayser-Bril, foi muito lúcido ao cunhar o texto “A economia dos comentários“. Neste caso me refiro às reações desproporcionais a postagem de Fernando Rodrigues sobre o tema.

Em resumo, para Kayser-Bril, quanto maior o número de respostas a determinado artigo na Internet, maior a chance de haver ruído, mediocridade e a nefasta aparição de trolls, esse personagem estúpido da Web que veio ao mundo apenas para ofender e desestabilizar qualquer tentativa de conversação.

Neste caso específico, é o ativismo político que está por trás dessa proliferação de trolls. Mesmo ativismo, por sinal, que vitimou outro jornalista, Vinicius Torres Freire, quando ele “ousou” tecer críticas a Lula. Nessa hora, um pelotão de maria-vai-com-as-outras emerge na caixa de comentários com a ofensa como único, digamos, argumento. São eles que dão embasamento a teses como a espiral do silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, pela qual os detentores de opiniões minoritárias se calam por receio de represálias da horda dominante.

Por isso tenho demonstrado aqui tanta preocupação com a necessidade de um gerenciamento de discussão nos portais noticiosos para, além de encaminhar e manter o debate dentro do limite do racional, poder filtrar e eliminar do convívio on-line os intoleráveis inimigos da liberdade de expressão. Essa gente guia o pensamento de quem vem em seguida, e o resultado é este aí que está posto: estrume em forma de comentário.

Faz muito tempo que a popularidade e relevância de um site (ou blog, ainda que seja blog apenas na nomenclatura _os blogueiros de botique são inúmeros, inclusive o próprio Protógenes) deixaram de ser medidos pelo número de comentários na página. Afinal, como pontuou corretamente nosso estudante francês, tudo o que essa avalanche de palavras produz é ruído e mais ruído, com direito a um lugar automático na lata de lixo do ciberespaço.

A incapacidade dos trolls ativistas de fazer sinapses é latente. Para eles, quando um repórter negocia com suas fontes a publicação de reportagens, é sinal de que ele está comprado (para citar dois exemplos, fiquemos com as repórteres Andréia Michael e Lilian Christofoletti, da Folha de S.Paulo, outras vítimas de toda sorte de insanidade verborrágica dos comentaristas profissionais da Internet).

São esses mesmos trolls políticos (supostamente politizados) que notabilizam outros trolls, estes ainda mais perigosos, pois são os que tomam a iniciativa de tornar públicas suas opiniões destrutivas e via de regra forjadas apenas para fomentar mais ódio e debate vazio.

6 Respostas para “A insanidade dos trolls ativistas políticos

  1. Olá Alec. Entendo seu ponto de vista e concordo em parte. O Grande problema é: quem vai definir se comentário é ou não pertinente? Particularmente prefiro estar exposto aos “trolls” do que ver a liberdade de expressão cerceada por algum “comitê”. Uma dica de leitura que pode te dar alguns subsídios sobre o que você está expondo é o artigo “Contra a liberdade indiscriminada de expressão” (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ofjor/ofc050299a.htm), de Cláudio Weber Abramo – publicado no OI em 99 –, sobre o qual tenho ressalvas abissais. Grande abraço e bom ano novo.

    • Victor,

      Grato pela sugestão de link.
      Insisto na necessidade de mediação profissional da interação, especialmente nestes casos, quando as pessoas ainda por cima se escoram no anonimato para perpetrar barbaridades.

      abs

  2. O sr. Victor Barone escreve que tem “ressalvas abissais” em relação a peça que publiquei uns anos atrás no Observatório da Imprensa. Conviria que ele as explicitasse.

  3. Olá Abramo,

    Pode me chamar de Victor, ou Barone, sem o sr., por favor, faz com que me sinta sisudo.

    Antes de explicar minhas ressalvas “abissais”, devo dizer que seu artigo é excelente, e resume, com argumento e propriedade, o sentimento de quem tenta estabelecer um debate lógico tendo como contraponto um interlocutor cujo objetivo é simplesmente “vencer” a contenda de idéias.

    O trecho no qual você fala da “disseminação do vale-tudo intelectual e pragmático”, inclusive, tem sido base de argumentação para outros artigos que tenho desenvolvido e argumentações sobre artigos de terceiros.

    Meu mal-estar se resume a um único ponto – cuja preocupação você também ressalta em seu artigo nos trechos abaixo:

    “É óbvio que não se conseguiria estipular de antemão qual informação é correta e qual é incorreta. Isso sequer serviria ao interesse do ser humano, uma vez que semelhante estipulação implicaria a supressão de especulações de validade duvidosa, mas que podem, com o tempo, vir a se demonstrar construtivas ou úteis. Contudo, isso não significa que seria impossível aquilatar (com a possibilidade de errar, decerto) se um tipo de informação é ou não é formulada honestamente.”

    A seguir você sugere que esta determinação seja feita por “consensos criados em determinados segmentos sociais dotados do poder consensual de suprimir o que não é aceitável”.

    É nesta centralização nas decisões do que é certo ou errado, verídico ou não, que repousa minha discordância ao pano de fundo do seu artigo.

    Você diz que “a tragédia é que, cada vez menos, a sociedade reconhece as prerrogativas dos grupos de saber que a compõem.”. Concordo. Ocorre que dar a estes grupos a prerrogativa de dizer o que procede ou não abre possibilidades de controle e manipulação grandes demais para serem postas de lado.

    Grupos específicos, com embasamento científico para tratar deste ou daquele tema, são compostos por seres humanos que, por sua vez, possuem formação, sentimentos, visões de mundo diferentes que podem influenciar suas decisões pessoais além dos campos da ciência propriamente dita.

    Tenho sempre muito receio e cautela com qualquer sugestão que de alguma forma signifique a concentração de poder nas mãos de poucos ou de grupos específicos.

    É a velha história: o poder corrompe.

  4. Prezado Victor:

    A questão, como enxergo, é pragmática. Simplificando bastante, trata-se de duas opções — abrir espaços para qualquer manifestação a respeito de qualquer coisa, sem regramentos formais antecedentes (ainda assim tais espaços têm de ser administrados ou no mínimo propiciados por alguém) ou disciplinar intervenções no âmbito de cada domínio. A primeira opção, que é a dominante, é a opção do relativismo prático — o vale-tudo, em síntese. Praticada em muitas disciplinas ditas “humanas”, dessa escolha decorre a criação de “escolas” interpretativas (quase nunca explicativas) que se multiplicam à vontade. O resultado é que não há motivos para levar nenhuma a sério.

    O regramento do debate decerto atribui a alguns a prerrogativa de suprimir o que se considere improdutivo, o que resulta no risco (várias vezes materializado na história das idéias) de se instituirem mecanismos de proteção indevida de interesses (intelectuais e práticos, como os que dizem respeito a carreiras profissionais) encastelados.

    Apesar disso, a segunda opção me parece preferível à babel de opiniões, que não pode levar a nada além da alimentação dos míni-egos. Os efeitos do conservadorismo que inevitavelmente se impõe pelo regramento dos debates pode ser compensado no longo prazo pela evolução da “classe dirigente” em questão.

    É assim que funciona nas disciplinas da Natureza, que devem (ou deveriam) servir de modelo para o resto.

    • Caros Abramo e Victor,

      Muito bom hospedar esta discussão aqui. Eu próprio, que sou contrário à “babel de opiniões” _muitas vezes constituídas apenas do caráter “troll” que serve apenas para polemizar no vazio_, às vezes fico pensando se não se trata de uma postura muito rígida e, ainda pior, que bate de frente com a liberdade de expressão.

      “Consensos criados em determinados segmentos sociais dotados do poder consensual de suprimir o que não é aceitável”, por outro lado, criariam um “vazio de análise”, em minha opinião. Na medida em que há um consenso (há mesmo), afugenta-se a possibilidade de discussão.

      A minha briga é contra a discussão propositadamente polemista e que nada acrescenta ao debate.

      Transpondo o problema para a origem do post que originou esta discussão, me parece que ela fica mais clara: tanto um blog pessoal quanto um site noticioso do mainstream possuem, por que não, a determinação de aprovar os comentários. É o tal “consenso”.

      A verdade é que, do jeito que está, nossas discussões on-line não estão levando a lugar nenhum a não ser servir de palco para desequilibrados em busca de holofotes, não lhe parecem? No meio destes, as argumentações feitas sob a luz do bom senso parecem se dissipar, desaparecem na neblina de ruído.

      abs

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