Arquivo do mês: novembro 2008

A crise econômica chega ao jornalismo

A crise econômica bateu à porta da indústria jornalística, como era de se esperar. No exterior, num cenário em que cortes de pessoal (os famosos passaralhos) já vinham acontecendo nos Estados Unidos, a agência de notícias Associated Press, a mais antiga do mundo (tem 162 anos), anunciou um corte de 10% em suas redações.

A AP abriga mais de 4 mil jornalistas (entre editores, repórteres e fotógrafos). A medida de contenção de despesas, portanto, deverá atingir pelo menos 400 deles. Em 2008, a empresa já tinha adotado a estratégia de congelar vagas. Não resolveu.

O problema de uma agência deste porte balançar é que suas matérias ajudar a encher páginas e mais páginas de pequenos jornais espalhados pelo mundo. Com menos material sendo produzido via agências, naturalmente o caminho destes veículos é diminuir de tamanho _e dispensar mais gente, num trágico efeito dominó.

No Brasil, os principais meios de comunicação ainda não partiram para as demissões coletivas como forma de encarar a provável redução de faturamento. Por ora, o que tem acontecido é um recrudescimento da fiscalização rigorosa sobre os gastos da redação, como viagens ou uso de veículos. Espera-se mais.

A blogosfera saiu de moda e perdeu o sex-appeal. É sério

A blogosfera saiu de moda e perdeu o sex-appeal. Sempre que alguém diz coisa parecida (recentemente foi a Wired, agora subscrita pelo jornalista português Paulo Querido), há uma movimentação de oposição quase nas sombras na rede.

O fato de ser nas sombras comprova que a máxima parece verdadeira: o blog vai caminhando daquela fase intimista e pessoal para virar um negócio? Outro dia eu disse que podia até ser, mas que não iam tirar de mim as delícias de fazê-lo de cueca.

Querido sustenta, numa bela apresentação, que sim mesmo. “Os jornais em geral já se aproximaram dos formatos narrativos que emergiram dos blogs (vistos como laboratório). Também porque um número impressionante de bloggers optou por se aproximar do estilo dos jornais, da função dos jornais _e dos modelos de negócio dos jornais.”

Mais uma vez, ponhamos-nos a pensar…

A maconha chegou ao Twitter. Isso muda alguma coisa?

A minha compreensão sobre as redes sociais é que elas reproduzem, praticamente de forma idêntica, o convívio em sociedade. Algumas vezes, até com aperfeiçoamentos, como a possibilidade de bloquear pessoas indesejadas ou se tornar invisível para outras _coisa que, na vida off-line, sempre será impossível.

Daí eu leio um texto de Svetlana Gladkova horrorizada com um novo follower que lhe bateu à porta no Twitter (uma rede social, lembrem, concebida para telefones celulares, daí o minimalismo de seus 140 caracteres máximos).

Gladkova passou a ter as atualizações acompanhadas por uma tal MediCann, que trabalha com a venda de maconha para uso medicinal (o que é perfeitamente legal em países como Canadá e parte dos Estados Unidos, mas vetado no Brasil, por exemplo).

Vai daí que nossa amiga faz um libelo contra o que considera vulnerabilidade do serviço de microblog, sugerindo uma série de restrições para censurar o acesso de determinados usuários à conta dos outros. Um deles, que eu nem sabia, já existe: idade mínima de pelo menos 13 anos para se cadastrar no site. Facilmente burlável, claro.

Sem fazer juízo da causa, diria que não funciona. Especialmente na rede, a censura não pode vir de fora. Tem de ser estabelecida dentro de casa. O mesmo “parental control” que vale para a televisão ou vigia os sites que seu filho navega trancado no quarto dele deve prevalecer quando o assunto são redes sociais. A vida on-line ainda é de difícil compreensão mas, acredite, bem mais fácil de se livrar de enrascadas antes que elas cheguem ao mundo dito real.

Leituras sobre a rede

Ótima dica do professor espanhol Ramón Salaverría: o livro Comunicación Local y Nuevos Formatos Periodisticos en Internet, que pode ser baixado diretamente na rede.

É uma obra coletiva que reúne os trabalhos de 11 pesquisadores de seis universidades. A ênfase é a análise do noticiário hiperlocal e um raio-x específico da plataforma blog, de fato o único formato verdadeiramente inovador que, por ora, a rede deixa como legado.

Veja assume erro e pede desculpas

Finalmente uma boa notícia para o jornalismo responsável: a revista Veja assumiu ter cometido um erro ao colocar o colégio Visconde de Porto Seguro em sua coluna “desce”, na semana passada, sob a justificativa de que “a escola paulistana obrigará os alunos a assinar um panfleto de propaganda petista”.

Era uma referência a Carta na Escola, publicação que recentemente entrou para o rol de leituras obrigatórias da instituição de ensino. Ou seja, apenas mais um round da desimportante rixa ideológica entre a publicação da Editora Abril e Carta Capital _cujos respectivos leitores nada têm a ver.

Sob o título “Veja errou” num vistoso rodapé com direito à logomarca da escola, a revista se desculpa nesta semana pelo “julgamento curto e drástico” e diz que não dispunha de informações “sólidas o bastante” para, outra vez, levar sua disputa anódina com a rival para o lugar onde deveria haver notícia.

Carta Capital, também com freqüência, toma tempo do leitor com referências e insinuações que, antes de atingir a concorrente, acertam em cheio quem deveria ser o mais respeitado: seu próprio público.

Vamos ver se aprende-se algo com o episódio. E que se poupe o leitor da rivalidade que só diz respeito _e mesmo assim internamente_ a veículos jornalísticos.

A ética e o jornalismo financiado

Mais um texto disseca as experiências de jornalismo financiado nos Estados Unidos, mas não fala nem uma palavra sobre o possível conflito ético dos experimentos.

Digo possível porque a questão surgiu e me pareceu válida. Foi numa conversa com os atuais trainees do jornal Folha de S.Paulo. A simples menção de que havia pessoas pagando por reportagens suscitou um “gente, mas isso não pode, é matéria paga”.

Pois é. David Cohn e Leonard Witt também não pensaram nisso. São deles os dois projetos mais auspiciosos na área, como já contei aqui outro dia.

Apenas para recapitular: Dave comanda o Spot Us, projeto em que cidadãos da região metropolitana de San Francisco sugerem uma pauta e fazem uma vaquinha para pagar um jornalista e um editor/revisor para concretizar a reportagem.

Feita a matéria, Dave ainda batalha a venda dos direitos exclusivos para algum grande veículo. Se não rolar, paciência: o dinheiro do público, ao menos, já bancou os gastos e a remuneração do freelancers contratados.

Witt, criador do jornalismo representativo, pensou diferente: tem um jornalista trabalhando numa pequena comunidade de 17 mil moradores. A idéia é que o profissional funcione como uma espécie de policial do quarteirão, ou seja, conhecido e respeitado pela comunidade, a quem afinal dará voz por meio de reportagens. Também é  remunerado pelos “pauteiros” _os leitores.

Jornalistas receberem dinheiro (ou outro tipo de contribuição) de leitores já é uma realidade nos Estados Unidos, e não apenas por causa dos projetos de Cohn e Witt. É comum autores de blogs, por exemplo, ganharem livros ou mesmo doações em espécie das pessoas que habitualmente acompanham seu trabalho.

Por aqui, o tema ainda é um tabu. Mas há quem, há tempos, recorra ao expediente, como Pedro Doria, dono de um dos melhores e mais acessados blogs do país.

Se as experiências prosperarem nos EUA, vamos ouvir falar muito mais disso nos próximos meses. Oportunidade para discutir se, afinal, o financiamento público ao exercício do jornalismo esbarra em algum preceito ético da profissão.

Não me parece que, no conceito geral, seja o caso.

Patética, Veja trata leitor como idiota

A rivalidade (imbecil) entre as revistas Veja e Carta Capital (que no fundo são a mesma coisa, apenas com sinais trocados) bateu recorde de estupidez nesta semana, quando a publicação da Editora Abril colocou o colégio Visconde de Porto Seguro na coluna “desce”, que registra personagens em baixa no noticiário.

O motivo? A escola adotou, como leitura obrigatória, Carta na Escola, braço educacional da revista de Mino Carta.

Além de ridícula, a atitude trata o próprio leitor de Veja como um idiota completo. Nem sequer é notícia _e o público nada tem a ver com a concorrência (muito mais ideológica do que jornalística) entre os dois produtos.

Exemplo de como não fazer.

A blogagem como gênero jornalístico

No primeiro plano de ensino que concebi para um curso acadêmico, de gêneros jornalísticos, cometi a desfaçatez (foi o que ouvi de colegas) de incluir a narração ao vivo (ou “live blogging”, como queiram) na lista que incluía os já manjados texto noticioso, reportagem, entrevista, editorial, artigo, coluna etc…

Polêmico, mas hoje o assunto já é discutido com mais maturidade. Afinal, as narrações ao vivo de eventos (sejam quais for, de partidas esportivas a seminários corporativos) pululam e não deixam de ter o seu quê de estilo e funcionalidade. Isso sem contar a explosão do microblog, que na época daquele modesto curso era um prematuro na incubadora.

Agora Paul Bradshaw, do Online Journalism Blog, insinua a possibilidade de a blogagem em si entrar no rol das vertentes jornalísticas capazes de merecerem o carimbo de gênero.

E por que não?

Desde que sejam blogueiras, né? Aquela velha história: não adianta transpor colunismo em papel para o on-line emprestando para isso, apenas, a ordem cronológica inversa de publicação. O texto jornalístico, para ser considerado blog, tem de incitar a conversação, promover o diálogo, apresentar o que a blogosfera (ou alguma parte dela) fala sobre o assunto.

Se for assim, estou dentro.

Projeto em Jornalismo Impresso I – Aula 11

Nesta sexta (14/11), os alunos do curso de Projeto em Jornalismo Impresso I conversarão com o jornalista Edson Rossi, que recentemente assumiu o cargo de diretor de conteúdo do portal Terra. O evento começa às 8h30.

O papo, é evidente, não tem como foco o jornalismo on-line, recém-abraçado por Rossi, mas sim sua vasta experiência como “revisteiro” _por anos, dirigiu (e levou ao topo) publicações da Editora Abril_ e também no jornal em papel.

Falaremos sobre o mercado editorial brasileiro e os desafios de quem, como os alunos, precisam lançar um novo produto nas bancas. Rossi, por sinal, participou diretamente do lançamento da revista Fut!, produto com ênfase em futebol internacional do jornal Lance.

Falou e disse

“Somos donos da tinta e donos do papel e estamos numa posição em que julgamos outras pessoas numa base diária, mas nunca nos submetemos pessoalmente. Existe uma atitude de defesa que temos enquanto jornalistas: quando alguém nos critica e acusa de sermos partidários, começamos por identificar a forma como aquela pessoa está errada. Não começamos por nos interrogarmos se essa pessoa terá razão. E essa seria a forma honesta de fazermos o trabalho, começarmos com uma mente aberta em relação às críticas. Estamos numa posição de fazer declarações e não damos um igual tratamento a alguém que se queixa, existe uma arrogância implícita de que a nossa opinião tem mais importância.”

A frase é de Daniel Okrent, 60 anos, ex-ombudsman do New York Times, em entrevista ao jornal português Público.

Precisa dizer mais alguma coisa?