Ninguém é forçado a falar bobagem

Assim como a Copa do Mundo de futebol, a Olimpíada suscita, no jornalismo, uma incontrolável vontade de dar opinião. Mesmo quem não precisa se expor, caso de todos os profissionais que não militam no esporte, acaba sendo contagiado pela overdose e _é irresistível_ dá os seus pitacos.

Não bastassem as bobagens nossas de cada dia do jornalismo esportivo, me deparei com dois ótimos exemplos de opinionismo que não fazem o menor sentido _e que não precisariam ser expressados, já que eles foram publicados no site Comunique-se, especializado precisamente nas coisas da nossa profissão.

Uma matéria na página, com ares de denúncia, “informava” aos leitores que a imprensa americana, diante da avassaladora vantagem de ouros da China no quadro de medalhas, tinha “decidido mudar” a disposição dos países, adotando como critério o número total de comendas ganhas.

Em outra, o (bom) colunista de novas mídias Bruno Rodrigues lamenta a falta de interesse de portais brasileiros e globais em transmitir a cerimônia dos Jogos Olímpicos (ocorrida na sexta retrasada) ao vivo.

Ambos pisaram mais na bola do que a seleção de Dunga diante da Argentina.

Os fatos: desde 1896, quando foram disputados os primeiros Jogos Olímpicos da era Moderna, a imprensa americana utiliza como regra a quantidade de medalhas para ordenar os países no quadro dos Jogos. Não foi uma decisão tomada agora em virtude do ataque especulativo chinês.

No Brasil, assim como na Europa, o que prevalece é o total de ouros _lembrando que o Comitê Olímpico Internacional não conta medalhas nem divulga rankings dos Jogos.

Portanto, não há um critério que possa ser definido como certo ou errado. Mas muito menos uma “manipulação”, como denuncia o Comunique-se.

No caso de transmissões pela Internet, pela primeira vez o comitê aceitou vender os direitos, mas seguindo a mesma lógica da TV. Ou seja, só quem adquiriu a condição de divulgar imagens do evento esportivo na Web (no caso do Brasil, o portal Terra) pode fazê-lo, e mesmo assim apenas dentro de seu próprio país _o bloqueio, por meio do IP, é simples e infalível.

Por isso Bruno, que não se lembrou de acessar o Terra, protestou por não encontrar cenas da abertura em outros portais brasileiros ou estrangeiros _porque elas simplesmente estão bloqueadas para quem não mora lá.

Outra informação antiga e sabida de antemão (a compra dos direitos de transmissão dos Jogos foi fechada pelos interessados há três anos).

Sim, o grande evento incentiva todo mundo a tirar uma casquinha. Mas deixe isso para o boteco. No jornalismo, sempre que não nos mobilizarmos em torno de um assunto que desconhecemos, nossa chance de não ser surpreendido é maior.

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