O jabá mostra a sua cara

Um assunto que provocou bafafá hoje na Web: a discussão sobre o jabaculê que um blog descoberto pela Ana Estela se propôs a fazer. Estarrecedora, na caixa de comentários do site, a defesa que alguns colegas fazem dessa instituição tão antiga quanto odiosa.

O propósito do blogueiro _que adotou o pseudônimo de antijabaculê_ é nobre. Afinal, o leitor tem todo o direito de saber que veículos (e jornalistas) aceitam viagens e presentes sob a condição de redigir reportagens. É um hábito arraigado, entre outras, nas editorias de turismo e veículos.

Ainda que, digamos, não haja a necessidade dessa contrapartida, é evidente que fere a ética jornalística e a neutralidade inerente e indispensável ao exercício da profissão.

Exemplo da vida real: desde o advento da Lei Piva, que determinou o repasse de 2% de toda a arrecadação das loterias brasileiras às confederações de esportes olímpicos, o caderno Esporte da Folha de S.Paulo não aceita mais convites. Claro: seu objeto de reportagens são justamentes as entidades que, agora, são financiadas com dinheiro público.

Assim como quem escreve sobre carros jamais poderia se prestar a ter as despesas pagas pelas montadoras, justamente o objeto de sua análise. Da mesma forma que um suplemento de turismo, para administrar a própria agenda e ter liberdade de criticar um destino, não pode viajar a reboque de agências, hotéis ou governos.

Isso posto, e voltando ao primeiro parágrafo: daí um cidadão se dispõe a tornar isso público e, imediatamente, vira alvo da ira. Da ira de jabazeiros, provavelmente. Eu mesmo já senti isso na pele quando conversamos sobre blogueiros que recebem para postar (e enganar seu público). Fui agredido e chamado de recalcado por gente que nem sequer merece ser chamada de gente.

A ira contra nosso personagem secreto se dá justamente por causa disso _o fato de ele blogar com um pseudônimo (o que não é a mesma coisa que anonimato). Ou seja: o cerne da questão, o absurdo de se considerar o jabá como algo corriqueiro e aceitável, ficou completamente de lado. E, pode reparar: todo jabazeiro bate no peito e garante que é independente. “Eu viajo a convite, mas falo mal”.

Não sei não, mas isso me cheira ao racista que, pilhado em flagrante delito, socorre-se do surrado e mentiroso “eu tenho vários amigos negros”.

10 Respostas para “O jabá mostra a sua cara

  1. Ué, mas os jornais não colocam a ressalva “O jornalista viajou a convite de…” sempre no final dos textos? Tem isso na Folha, no Estado, no O Globo, no Terra…

  2. Cezar,

    vc sabe se sempre colocam? eu não.

    Ainda assim, o que é elogiado aqui por mim, como consta do texto, é tornar público “que veículos (e jornalistas) aceitam viagens e presentes sob a condição de redigir reportagens”.

    E, para citar novamente o texto, ainda que não houvesse a contrapartida, “evidente que fere a ética jornalística e a neutralidade inerente e indispensável ao exercício da profissão”.

    Para ser claro, não me interessa a transparência. Interessa, como leitor, que vc pague as próprias despesas e não me desperte dúvidas sobre suas intenções.
    abs

  3. te chamaram de recalcado?? acertaram!!!

  4. Fernando Simões

    alec,

    voce esta sendo injusto ao colocar todo mundo no mesmo saco. eh possivel ser etico mesmo em viagens patrocinadas nas quais o bom reporter muda o foco de sua pauta e relata o necessario

  5. cara, nada a ver… você precisa pegar umas viagens, provavelmente você nunca foi convidado pra nada e tem inveja dos colegas

    sai dessa vidaa

  6. Fernando,

    só existem dois sacos. Eu estou num deles.

    abs

  7. Alec,

    Se a discussão é aceitar ou não jabás, concordo sobre a validade do tema. Mas, para mim, parece clara a política dos veículos de comunicação de explicitarem a aceitação do jabá. Se não me engano, há um verbete sobre o tema no Manual da Folha (que pauta a maioria dos outros veículos).

    Agora, uma dúvida que me nasceu depois da experiência de ter trabalho no suplemento de imóveis de um jornal grande de São Paulo.

    Vc acredia que algum jornal vá bancar a viagem de algum jornalista à Grécia para fazer a capa do caderno de Turismo, criado para ser um panfleto caça-níquel de anúncios de operadoras e companhias aéreas. (os cadernos de autos e imóveis estão no mesmo nível, porque as reportagens são apenas chamariz para os anúncios publicitários e classificados)

    Pior ainda… muitas matérias desses cadernos são pautadas pelo departamento comercial do jornal, e não pelo editor contratado. O cara que montou o blog contra o jabá me parece de uma ingenuidade sem tamanho, principalmente numa época em que muitas discussões são pautadas pelos próprios leitores. Foi-se a época que os jornais conseguiam enganar alguém.

  8. ariadne gattolini

    Não dá para fingir isenção quando se viaja à convite. Os suplementos de Turismo são a cara do jabaculê. Por isto, não escrevem sobre rotas alternativas e às vezes prestam desserviço quando, em sua abordagem, não tratam de lados negativos. Exs clássicos ocorreram até na Folha. Lembro-me de uma sobre a remodelação da bacia de Campos e o pólo turístico sem, claro, falar sobre a “higienização social”. Adivinhem quem estava patrocinando? Petrobras, claro.
    Ampliando a discussão, nós, jornalistas, vivemos com um outro problema sempre. Além dos jabás explícitos, convivemos com os jabás comerciais e interesses dos proprietários. Isenção fica longe da imprensa…. mas ninguém fala nada.

  9. Ariadne,

    E o povo que acha tudo isso normal? Afe, me acotovelar com esses caras na minha profissão é uma via-crúcis…

    abs

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