Arquivo do mês: maio 2008

Spam também é cultura

Não, a Polícia Federal não possui um sistema de “monitoramento virtual” tão apurado a ponto de detectar que você acessou um site de “conteúdo ilegal” (na verdade, legalmente essa definição não existe _a Constituição brasileira, promulgada em 1988, nem sequer foi redigida sob a égide da Internet).

Trata-se de um e-mail falso cujo único objetivo é fazer você clicar no arquivo “FORMULÁRIO.ZIP”. É ali que se esconde um programa que, provavelmente, roubará seus dados e os enviará aos piratas que cunharam essa belíssima peça de spam malicioso.

É o lado B da Internet. Fique atento, não clique em tudo que lhe aparece pela frente…

Cidadãos amestrados

Depois do Ohmynews, que criou uma escolinha para ensinar os cidadãos a serem jornalistas, agora é a vez da Society of Professional Journalists, que faz, no dia 7, um workshop com a mesma motivação.

Entre os temas que serão tratados no evento estão noções éticas da profissão, bases da legislação de imprensa, ferramentas e novas mídias, orientações para pesquisa e apuração e técnicas de reportagem.

Ok, iniciativa bacana e tal, mas sou contra. O jornalismo cidadão está aí justamente para que fujamos dos vícios e modus operandi da mídia tradicional. Quando nos propomos a amestrar o cidadão, creio, fujimos também da oxigenação que ele pode trazer para a profissão com a adoção de métodos que não fazem parte do dia-a-dia das redações.

O Terra corrigiu, sim, seu erro; corrijo agora o meu

Sim, o Terra embarcou na barriga histórica do avião que não houve, mas eu cometi um erro grave _e uma injustiça_ ao afirmar categoricamente que não existiu correção do deslize.

Sim, ela houve.

Agradeço à Cuca Fromer, gerente editorial do portal, que me alertou atenciosamente sobre a lamentável omissão que cometi.

O dia em que a imprensa apurou a imprensa

Não bastasse o papelão na cobertura do falso acidente de avião ontem em São Paulo, algumas redações insistiram na mentira nas horas que se seguiram à tragédia que vitimou o bom jornalismo. Algumas (caso do Terra) nem sequer publicaram correção (veja errata).

Disse a redação do IG que a notícia sobre a queda do avião da Pantanal tinha partido da assessoria de comunicação da Infraero _é exatamente a justificativa da Globonews, origem do erro crasso copiado em série sem checagem pelos portais.

Nos bastidores, porém, conta-se que ninguém, em nenhum portal que embarcou na barriga, tirou o telefone do gancho e fez qualquer ligação. A informação categórica da rede de TV fechada bastou. Conhecendo a “apuração-cópia” como a que vi por dentro de um portal, não duvido.

Mário Vítor Santos, ombudsman do portal, ouviu Léa Cavallero, responsável pela assessoria da Infraero. Seu depoimento é destruidor. Fala em despreparo e conclui com um brilhante “foi um caso da imprensa apurando a imprensa”.

Santos termina apontando diretamente para a redação do próprio portal. “A apuração foi precária, a confirmação foi mambembe, os critérios para que a notícia chegue ao leitor foram frouxos. O iG precisa submetê-los a uma completa revisão para garantir que entrega aos internautas notícias dignas do nome.”

Construtivo, o Comunique-se bolou uma matéria com dicas para a cobertura de supostos acidentes aéreos (incluindo os contatos telefônicos das assessorias das principais autoridades aeroportuárias). Esperemos que ela seja lida e seguida à risca da próxima vez.

Repetindo: enquanto os portais de Internet se preocuparem mais com a concorrência do que com seu público, esse tipo de absurdo irá se repetir.

A barriga repercute

“A prática de cozinhar e assumir informações (certas ou erradas) da TV e rádio é comum em portais da Internet, mas não deveria ser adotada pelo UOL.”

A barriga sobre o avião que não houve segue repercutindo. A frase acima é da ombudskvinna (sim, é esse o feminino de ombudsman) do UOL, Tereza Rangel.

Deixei claro, no post anterior, que discordo dessa visão. Não vejo como “cozinhar”, mas como atribuir. Foi isso até que fez o portal se salvar em parte, na minha opinião, da catastrófica terça-feira do avião inexistente.

Mário Vitor Santos, ombudsman do IG, comentou a derrapada.

O Comunique-se também discute o tema (exige senha) .

Falamos mais nesta quarta.

O avião não era avião, e o jornalismo on-line coleciona mais um papelão

O jornalismo on-line protagonizou mais um papelão nesta terça-feira no episódio do avião que teria caído em Moema, na zona sul de São Paulo. No início das contas, era apenas um incêndio que nem sequer feridos graves deixou.

Coube aos portais Terra e IG, especialistas neste tipo de precipitação, o novo avanço de sinal ao cravarem, sem citar fonte alguma, que uma aeronave tinha despencado sobre prédios na maior cidade do país (veja as duas reproduções de tela que acompanham este post).

Tudo bem que a barriga de verdade partiu da Globonews, que anunciou o suposto acidente (e o registrou em gerador de caracteres, com todas as letras) usando a Infraero como fonte noticiosa _o que a empresa negou com veemência, conforme mostra ótima linha do tempo editada pelo site da Revista Imprensa.

Por que o jornalismo on-line, então, embarcou na barriga dos outros?

É característica desta mídia (com a qual concordo), inspirada no padrão médio de acesso de seus usuários (a maior parte deles em horário de expediente), ver TV, ouvir rádio e ler jornais e revistas para seu público, refletindo este conteúdo na rede. São, sim, tarefas importantes e necessárias.

Citar estes veículos como “fonte”, portanto, é altamente legítimo e, ao final das contas, uma prestação de serviço ao consumidor _o UOL, por exemplo, manchetou com “Avião da Pantanal cai na zona sul de SP, diz TV”, cuidado que seus concorrentes não tiveram.

Posso falar com conhecimento de causa sobre o Terra, onde trabalhei por quase três anos em três funções diferentes. A direção editorial da empresa construiu o site em cima de uma agilidade que não corresponde à necessidade ou expectativa do internauta. Ninguém fica atualizando portais para ver quem deu primeiro determinada notícia.

Esse fenômeno é comentado por Paulo Pinheiro (outro ex-Terra, aliás) no texto “A ditadura do ctrl c + ctrl v“, em que toca na ferida ao constatar, com absoluta correção, que os portais da Web se preocupam muito mais com a concorrência do que com seu público leitor.

No Terra, isso chega a níveis absurdos. Profissionais são pressionados a atualizarem capas mesmo sem disporem de material suficiente _a boa e velha apuração_ recorrendo, para isso, a simplesmente copiar outros veículos. Essa política já culminou com demissões sumárias e até abandono de emprego (sim, um jornalista se levantou e foi embora ao receber uma ordem absurda do gênero).

Não existisse essa urgência criada por uma velocidade em que as pessoas não estão (nem jamais estarão), neste momento trataríamos aqui apenas da gravíssima barriga da Globonews _essa sim notável por se tratar de um produto tão cuidadoso (e ao mesmo tempo ágil) na divulgação de notícias.

Em tempo: Folha Online e G1, ao chamarem por “Incêndio atinge prédio na zona sul de SP”, sem mais esclarecimentos, escaparam incólumes do papelão.

Em tempo II: o blog do Gjol conta que até no exterior a barriga dos sites brasileiros provocou estragos.

Youtube lança canal de jornalismo cidadão

O Youtube _criado à imagem e semelhança do brasileiro Videolog, que apesar de vindo ao mundo nove meses antes não teve nem de perto o mesmo sucesso_ lançou um canal específico de jornalismo cidadão.

A idéia não é apenas incentivar os usuários a produzir os próprios vídeos noticiosos, mas também fazê-los avisar os administradores do canal se há bom material “perdido” em outros cantos do site de compartilhamento de vídeos.

O discurso de apresentação da coisa é bonito, fala em “entrevistas com líderes comunitários” e tal, mas aposto que imagens de “meu cachorro fazendo pipi no poste” serão as mais abundantes.

O cidadão, quando se trata de jornalismo, se atrapalha todo. Não sabe que um cachorro mordendo um homem não é notícia, mas o oposto sim.

Obama dá entrevista a blogueiros. E daí?

Pré-candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama concedeu no sábado uma entrevista em vídeo para a blogueira Erin Kotecki-Vest, que desde 2005 comanda um condomínio de blogs exclusivamente tocados por mulheres.

Saudada como a redenção do establishment à ascensão do amador nos meios de comunicação, a iniciativa não foi inédita. Por sinal, uma semana antes, foi o candidato Republicano, John MCain, quem deu uma coletiva a um grupo de blogueiros.

Muito antes, em dezembro de 2005, o francês Nicolas Sarkozy _então ministro do Interior de seu país_ recebeu Loïc Le Meur, também para uma entrevista em vídeo. Le Meur é um dos mais prolíficos jornalistas amadores da blogosfera francesa e, na época, Sarkozy estava no olho do furacão ao tratar jovens dos subúrbios franceses que protestavam contra a falta de empregos como “escória”.

O mérito de Kotechi-Vest, esse sim, foi usar princípios básicos do jornalismo cidadão em sua entrevista, ou seja, reunir uma série de questionamentos provenientes das próprias blogueiras, e tratar dos assuntos diretamente na entrevista com Obama. Foi o mesmo processo que barrou, no final do ano passado, entrevistas com as mulheres dos candidatos, oferecidas pelas campanhas.

Quando teve a chance, Le Meur posou de gostosão e desfrutou seus minutos de fama _o oposto de nossas amigas blogueiras dos EUA. É o fenômeno “quero ser famoso” que tanto incomoda e atravanca a evolução do processo colaborativo.

Ótimo para o jornalismo, péssimo para o jornalista

É a percepção de Joshua Micah Marshall (o cérebro por trás do Talking Points Memo, um dos primeiros blogs jornalísticos feitos por não-jornalistas) sobre a influência do avanço tecnológico no exercício da profissão.

Ele diz que os jornalistões da grande mídia estão “apavorados” com os desafios profissionais impostos pela nova ordem, e mesclam “negação e fatalismo” ao falar sobre o futuro de suas funções.

Marshall pescou esses detalhes num recente processo de seleção de repórteres para seu site. Recebeu vários currículos de veteranos da mídia impressa, em especial, mas também de TV e rádio.

O blogueiro, formado em História, também foi um dos precursores do crowdsourcing jornalístico _percebeu que o diálogo com seu público poderia avançar a um patamar colaborativo no qual os usuários/leitores, incitados a complementar pautas e corrigir textos, têm tanta responsabilidade na apuração de dados quanto o próprio autor da reportagem.

A conversa com o cliente ainda é tabu no jornalismo em papel. Enquanto isso, na vida on-line, as pessoas escrevem, fotografam, filmam e publicam, numa velocidade a cada dia maior.

Você chegou ao fim da Internet

Vi primeiro no ligado Na Web, daí fui ao original.

É pícaro brincar com o caráter infinito da rede.

Por via das dúvidas, apague a luz…