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Wikipedia debate oficialização da censura

A Wikipedia está considerando seriamente a possibilidade de ampliar os poderes de seus “admins” e, definitivamente, pôr fim à falácia da “enciclopédia livre”.

A idéia é introduzir a moderação, impedindo que qualquer edição (para verbetes novos ou já existentes) vá ao ar antes que um dos cães de guarda do produto de Jimmy Wales aperte o botão e dê seu ok. A justificativa é o vandalismo, um problema grave do site.

O assunto foi deliberado em Alexandria (Egito), onde rolou mais uma edição da Wikimania _espécie de desconferência que reúne fanáticos e obreiros da Wikipedia de todo o mundo. A novidade já está sendo testada na Alemanha e, diz o “The New York Times”, elimina a espontaneidade e a sensação de ausência de hierarquia que tornaram o site um paradigma da Web 2.0.

Na prática, a decisão vai apenas oficializar a censura já praticada corriqueiramente pelos “admins”, que na média são despreparados, desconhecedores do vernáculo, intolerantes, limitados e inviáveis para qualquer tipo de debate.

A diferença entre o que ocorre hoje e o que deverá passar a ocorrer é que alterações nos verbetes nem sequer chegarão ao site se os cães de guarda não concordarem com elas. Hoje, os “admins” são obrigados a correr atrás e eliminar edições que consideram impróprias.

Reportagem de 2007 da revista “Carta Capital” já alertava sobre a péssima qualidade do conteúdo publicado na Wikipedia _mérito, em boa medida, dos próprios administradores, que não têm estofo nem mesmo para editar uma redação escolar infantil.

Agora, com poderes ainda mais amplos, a coisa deve degringolar de vez.

A Wiki virou Pedia

Olha só o que vai rolar em Alexandria, no Egito, entre 15 e 17 de julho: mais uma convenção de colaboradores-contribuintes dos projetos da Wikimedia Foundation.

O cenário é nobre: a biblioteca da cidade, presumivelmente fundada três séculos antes do nascimento de Jesus Cristo. Hoje, ela possui 400 mil publicações _entre eles papiros de valor inestimável.

As coisas Wiki (a Wikipedia é a mais notória delas) estão sempre tentando freqüentar o ambiente dos textos em papel. No início, a briga era para saber quem era a mais completa e confiável, a Enciclopédia Britannica ou a Wikipedia?

Jimmy Wales concluiu que um levantamento que levava em conta apenas assuntos científicos (os mais cascudos e passíveis de deslizes e polêmicas, é verdade) servia como resposta.

Daí a Wikipedia se achou a dona do mundo. E seus administradores (que zelam por 7 milhões de verbetes) se acharam no direito de conceder privilégios e serem ativistas, censores, intolerantes, soldados e, uma parcela expressiva, pouco afeitos ao idioma (qualquer um dos 201 em que o produto é confeccionado hoje).

A Wikipedia terá até uma edição em papel (sepultando o conceito wiki, que significa rapidez de atualização e, mais importante, por várias pessoas ao mesmo tempo e em todos os lugares). Ou seja: a Wiki se encaminha para ser só Pedia.

Como me demoro com aquele artigo sobre o lado B dos projetos da Wiki Foundation, comecem se deleitando com a interessante polêmica entre um site católico e a enciplopédia “livre”.

A Wikipedia, quem diria, será impressa

Repito: a Wikipedia, quem diria, será impressa.

O projeto que popularizou a plataforma wiki ganhará, na Alemanha, uma versão em papel. Quem está por trás disso é a gigante Bertelsmann (dona, por exemplo, da gravadora Sony BMG).

Problema número um: os 740 mil artigos que hoje a Wikipedia alemã abriga caberiam não em uma, mas em centenas de versões em papel. “Não seria um projeto adequado levando-se em conta o mercado do livro na Alemanha”, reconheceu Beate Varnhorn, editora-chefe da Bertelsmann.

A opção foi por uma espécie de “livro do ano” com os 50 mil verbetes mais acessados on-line _mesmo assim, consumiu 992 páginas.

Problema número dois: isso significou a inclusão de termos como “Carla Bruni” e “Nintendo Wii“, entre outras irrelevâncias (por sorte, num limite de 10 linhas).

Todo mundo sabe que Jimmy Wales toca sua Wikipedia com base em crowdsourcing e doações, muito mais o primeiro. O acordo com a editora alemã lhe renderá US$ 1,59 por cópia vendida (a US$ 31,80 cada).

Problemas número três, quatro, cinco, seis…: ao ser congelada numa edição em papel, a Wikipedia deixa de ser wiki. Wiki é mais do que o produto de Wales, é um conceito de colaboração cuja plataforma permite a edição constante de textos, e por várias pessoas, e por todo o sempre.

Sim, existem termos congelados já na web, mas são casos específicos como os de George W. Bush (note o cadeado no canto superior direito), vítima preferencial de ativistas, vândalos ou desocupados _já incluíram em seu verbete na enciclopédia on-line até uma foto do Cramulhão.

Andrew Keen, o defensor-mor das grandes corporações (“da excelência das grandes corporações”, certamente me corrigiria ele), viu vantagens no acordo: entregaram um produto amador _em breve falarei sobre episódios de analfabetismo, censura e privilégios perpetrados pelos voluntários que administram as Wikipedia pelo mundo_ nas mãos de profissionais.

Sim, os verbetes escritos pela “ex-audiência“, por mais desimportantes que sejam, passarão pelo crivo de editores da Bertelsmann (vernáculo e veracidade das informações são checados e corrigidos).

Daí que a participação da “ex-audiência” será lembrada apenas como responsável por ter colocado Carla Bruni numa enciclopédia em papel.