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Técnicas jornalísticas nas novelas

O coleguinha Aguinaldo Silva, também novelista, contou à revista Veja como usa técnicas jornalísticas na criação de seus folhetins televisivos _até recortar notícias de jornal. Ele foi repórter policial de O Globo e trabalhou na edição pernambucana do Última Hora.

Sobre a revista, confesso que a capa me chocou.

Abaixo, trecho da entrevista de Silva.

A repórter inescrupulosa Marcela (Suzana Pires) é uma resposta aos jornalistas de que o senhor não gosta?
Não! Mas ri muito quando alguém escreveu que não existe jornalista como aquela. Ora, trabalhei 18 anos como repórter. Desde os meus tempos, existem as jornalistas periguetes nas redações. Geralmente, são as que casam com os editores.

A experiência de jornalista, então, ajuda o senhor no trabalho de novelista?
Digo que sou jornalista e estou novelista. O que faço nas novelas é jornalismo. Meus personagens têm lide: quando entram, já avisam quem são, o que são e a que vieram. Além de criar em cima do que vivi, tenho a mania de recortar notícias que podem render novelas ou tramas.

O ativismo bobagento da academia

O ativismo bobagento da academia em relação à imprensa não tem fim: eis que repasso a última edição da revista da E-Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação) e encontro o trabalho “O Programa Bolsa Família na Revista Veja: assistencialismo governamental ou ressentimento midiático?”, de Jose Luiz Aidar Prado e Moassab Andréia.

O trabalho é sóbrio, diga-se, mas tenta conectar Veja a uma corrente de pensamento que, de alguma forma, estaria “desvirtuando” a análise sobre o principal programa de redistribuição de renda do governo federal.

A academia deveria parar de usar material jornalístico como parâmetro de conceituação. É um desconhecimento sobre o nosso trabalho: os veículos não têm essa importância toda e, mais, muitas vezes os conceitos vão e vêm, a depender do espaço editorial disponível.

A academia não é lugar de Fla-Flu, gente.

http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/531/492

O que faz um editor de mídia social?

Já falei recentemente sobre o papel do curador de conteúdo na web, função que eu considero indispensável hoje ao jornalismo, e pintou agora uma boa apresentação sobre o cargo de editor de mídias sociais, outra novidade que a imprensa formal não pode mais se dar ao luxo de abrir mão.

Com a palavra, Rafael Sbarai, que desempenha o papel em Veja _o veículo do mainstream nacional que mais seguidores possui nas principais redes sociais, o que evidencia o bom trabalho desenvolvido por lá.

Tudo para se refletir, e muito, sobre os novos papéis dentro das corporações jornalísticas.

A conversação na internet evolui e, com ela, nossa capacidade de monitorar e responder a essas novas necessidades.

CALA BOCA VEJA

Estou absolutamente chocado com a capa da Veja. Tenho repetido essa frase como mantra, desde ontem, quando vi uma foto de Galvão Bueno olhando para um passarinho na primeira página da revista.

Discutir a ascensão de uma micagem de internet nesse nível de relevância, num país em que pululam dossiês e a campanha eleitoral pega fogo antes mesmo de começar (sim, ainda é proibido fazer campanha, só a partir de 6 de julho está tudo liberado), soa como disparate.

Evidente que o CALA BOCA GALVÃO que nos acostumamos a ver no topo dos trending topics do site durante este Copa tem lá a sua marca de mobilização, mas por que então movimentos semelhantes (e bem mais importantes), como o ativismo global em torno do Irã quando da suposta reeleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad, não mereceram a mesma atenção da publicação?

A própria reportagem recorre aos protestos em Teerã para reforçar o poder do microblog _só que isso aconteceu há exatamente um ano e figurou com ainda mais destaque na linha de frente dos TTs do Twitter.

A conclusão é que o jornalismo no mainstream caminha celeremente para uma total absorção pela cobertura de celebridades, mesmo quando se trata de ecos até dignos de registro pela adesão, mas jamais nesse nível (capa mais sete páginas internas?). Estamos passando a imagem errada. Não, o microblog não é relevante. Sim, as pessoas querem mais é se divertir.

Para constar, no momento em que escrevo (22h33 de sábado), CALA A BOCA GALVÃO está fora dos trending topics mundiais da página.

Mas voltará, hoje tem jogo do Brasil.

É tudo tão previsível…

PS: o amigo Flavio Gomes também desabafou sobre o assunto, e de forma categórica.

PS1: e a matéria nem para alertar que o certo é “cala A boca”.

http://colunistas.ig.com.br/copa2010flaviogomes/2010/06/19/563/

É mais fácil fazer jornalismo em zonas remotas, de conflito, catástrofe e privação?

É mais fácil fazer jornalismo em zonas remotas e/ou de conflito, catástrofe e privação?

O trabalho do videojornalista holandês Ruud Elmendorp sugere que sim, assim como o de centenas de frilas e enviados especiais ao Haiti após o terremoto. É o ouro na mão: para onde você focaliza, há uma boa história a contar.

Elmendorp está na África abordando vários aspectos da vida no continente. E com uma visão de vídeo na web que eu defendo há tempos: nada de parecer TV. Ele apura, escreve roteiros, e cobre tudo com imagens e som ambiente (incluindo entrevistas informais). Não aparece fazendo passagens, essa instituição tipicamente televisiva da qual a rede precisa se libertar _ela é válida quando fazemos TV na web, não quando fazemos vídeos para a internet.

O holandês talvez esqueça o conceito ao ditar offs empolados, no estilo documentário _eu acho que nem off deveria haver, ou seja, que o bom vídeo na internet precisa prioritariamente de corte rápido, som ambiente e imagens incidentais. Imagens mais som ambiente têm de ser capazes de contar uma história. No caso de um produto associado a um jornal, por exemplo, é imperativo: é óbvio que há um texto complementar ao vídeo, o que dispensa a redundância. Não é o caso de Elmendorp, mas registre-se.

Enquanto isso, vi um vídeo em Veja que explora outro aspecto: o da “importância” de mostrar que realmente temos um enviado especial. A presença do repórter é totalmente dispensável nas imagens, rouba atenção dos enquadramentos mais importantes e _grave_ não acrescenta nada ao que certamente seu registro textual trará no final de semana.

Especificamente sobre o enviado de Veja (e minha observação acima é genérica, foi repetida por outros), no microblog sua presença é louvável, solícita e aberta à conversação. Uma aula de como fazer.

Mas que é mais fácil conseguir boas histórias em zonas remotas, de conflito, catástrofe natural e privação, isso é. Batata.

Somos todos dependentes das grifes da web

Rafael Sbarai, 23 anos, é um prodígio. Poucas pessoas analisam tão bem os meandros da web (e sua implicação no jornalismo), em português, como ele. E faltam textos em português sobre o assunto. Pessoas, escrevam mais!

Rafael não tem esse problema. Ele e três colegas têm dado, no blog De Repente,  excelentes pistas de quem somos e para onde vamos _e, claro, aquela pitada pessoal do ‘para onde deveríamos ir’.

Conversei com ele numa brecha da rotina corrida de quem é repórter e editor de mídia social no site da maior revista brasileira, Veja. O assunto: monocultura do Google, jornalismo participativo, grandes grifes da web. E, sobre elas, a constatação: temos dados pessoais demais abrigados sob o guarda-chuva dessas empresas poderosas. Leia a seguir a íntegra da conversa, via mail.

O Google é eficiente, talvez sua característica mais admirável, mas qual o risco de ficarmos todos dependentes dele? Somos usuários de serviços que foram, estão sendo ou serão anexados pela companhia de Brin e Page (e agregados).A monocultura me incomoda, mas lutar contra ela exige mover montanhas. A web reproduz exatamente as disputas de poder fora dela…

A questão de dependência na web transcende o Google. Hoje, somos dependentes de Twitter, Facebook e Google. Muitas das nossas informações pessoais estão armazenadas em um grande banco de dados. E isso me preocupa muito. A exposição não divulgada em rede, porém centralizada em um único ambiente. Risco todos nós temos. O lado positivo desta história é a possibilidade de personalização de serviços e recursos, um dos princípios que a internet sempre teve.

Sobre indexação de conteúdos, acho isso o máximo. Indo para nosso lado jornalístico, você percebe qual executivo de jornal sabe o que é uma distribuição de informação. O Murdoch levantou uma bandeira em 2009, de apropriação de conteúdo, e mostrou sua força. Mas quem sai perdendo é ele, por ter um jornal mais centralizado e menos distribuído. Ponto para o NYT, que adota parcerias com o Google, como o Living Stories.

É duro falar sobre isso, mas ainda é maioria o conteúdo ruim produzido pelo público. Já foi pior, verdade, mas ainda é ruim. A ex-plateia ainda está muito preocupada em replicar conteúdo do mainstream? Que parcela dessa audiência colaborativa percebeu que na verdade é capaz de pautar os meios se usar as novas plataformas para se mobilizar?

Infelizmente vivemos já uma época da bolha da colaboração e do que se considera web 2.0. Não sou adepto deste termo (Nota do Webmanario: eu tampouco, é um rótulo marketeiro) e ele é reflexo do processo de mkt que envolveu a colaboração e o jornalismo. A plateia – ex-consumidora de informação – é extensa e está sob diversos formatos. E isso depende muito do contexto cultural.

Fico admirado com a política colaborativa de produção de conteúdo dos norte-americanos, chilenos e sul-coreanos, por exemplo. Totalmente diferente do Brasil. Enquanto aqui sinônimo de jornalismo colaborativo era estar em uma página principal de um portal com notícias requentadas pelo mainstream, lá fora o “cidadão-repórter” pensa em um contexto local e de grande caráter de prestação de serviço. É só ver alguns bons casos do iReport, apesar de que ele recebe maior destaque quando há uma notícia falsa. A questão deste formato é como saber filtrar isso. No iReport, não há este filtro, mas há uma hierarquização de notícias. Quem faz isso com maestria é o bom e velho OhmyNews.

Muito se fala hoje no Spot.us, um outro modelo que é bem discutido nos nossos blogs. Mas ainda o vejo com certo cuidado. Um “jornalismo financiado”, antes de tudo, é intencional.

YouTube, Twitter e Wikipedia: conte-me seus amores e seus horrores por essas três marcas (e ferramentas) que estão eternizadas na história da internet.

Nunca parei para fazer uma reflexão sobre os três modelos. Dos três, o que menos uso é o Youtube. Isso é fato. Nunca gostei de compartilhar conteúdos áudiovisuais. Me considero muito amador neste segmento. Apesar de muita coisa boa em seu “acervo”, aprecio mais Videolog e Vimeo. São formatos com cara mais profissional e com um menor filtro de coisas nonsense.

A Wikipedia é um mecanismo poderosíssimo, discutível e uma das fontes preciosas que conseguem acompanhar diariamente a evolução da sociedade com os usos tecnológicos.

O Twitter é o símbolo da economia da informação e o peso que o conhecimento e “estar ligado” provoca em uma sociedade interconectada. Muito se fala em sua busca em tempo real (já estamos no 2º período da busca em tempo real – a primeira aconteceu com o crescimento dos blogs e a indexação do Technorati), mas o que mais aprecio na ferramenta é a criação de uma linguagem totalmente distinta e que permita colocar muitas pessoas em uma conversa a partir do @. Sem você saber, você foi citado por uma ou outra produção (digo no nosso caso: jornalistas e/ou blogueiros). Esse retorno é o mais fantástico.

Gosto também dos termos que usam para desempenhar funções: saem de cena os falsos “amigos”; entram os ‘seguidores’ e ‘seguidos’. A palavra seguir pressupõe escutar, acompanhar e, acima de tudo, respeitar, o que falta e muito na web em geral.

Outra movimentação destacável é que o Twitter comprovou a tese da queda da audiência de uma página principal de portal/site. É o percurso de tornar-se menos centralizado e mais distribuído. O que mostra a eficiência e a premissa de Paul Baran com seus nodos distribuídos, centralizados e descentralizados. Muito da história do jornalismo on-line está em três imagens que mais parecem astrofísica ou química, mas delimita um belo universo jornalístico. O que dá pra deixar de conclusão sobre esses três formatos é como a tecnologia e internet SEMPRE conectou pessoas e não computadores.

Algumas considerações sobre o Enade

Questão 38 – Discursiva

Considere as linhas editoriais a seguir:
I. Jornal popular, geralmente criticado por ser sensacionalista, inventar e/ou omitir fatos e preocupar-se apenas em faturar, aumentar a tiragem, publicar notícias irresponsáveis, atrair e agradar certo público-leitor.
II. Jornal de grande porte, considerado mais responsável, por vezes esquece o verdadeiro interesse pela informação, manipulando a notícia em favor de outros interesses empresariais, financeiros, comerciais, etc. E, assim, poder incorrer em muitos erros.
Compare as linhas editorais, aponte as principais inconsistências desses veículos e proponha uma inovação que signifique avanço na relação mídia e sociedade.

Esta questão do Enade específica para o curso de Jornalismo desatou a loucura em meios acadêmicos e profissionais. Colegas, como o professor Nilson Lage, viram manipulação ideológica no teste.

“Cada uma das afirmações dadas como corretas representa uma posição da esquerda reacionária que pretende dominar a consciência das pessoas reproduzindo métodos nazistas e stalinistas: punir quem não concorda, até que o sujeito aceite para não ser punido e termine aderindo”, afirmou Lage.

Bem, a primeira conclusão que se pode tirar da prova é que ela ruim. Como quase todas, escrita num português que não é corrente. Os enunciados são oblíquos, vertiginosos, esfumaçados.

Outra conclusão bem objetiva sobre o teste é que ele foi bem abrangente. Falou de dispositivos móveis, blogs corporativos, assessoria de imprensa, Código de Ética, rádio e TV, direito na internet…

Não enxerguei ideologia no questionário exclusivo aos alunos de Jornalismo. Houve uma citação desairosa a Veja, é verdade (o delicioso caso Boimate), mas apenas para dar combustível às teorias da conspiração.

Mas… e a questão 38?

Pra mim ela é uma obra de ficção. Um exemplo inventado, digo.

Porém todos os jornais, em algum momento, passam pelas situações descritas. Mas isso jamais seria uma diretriz editorial.

Reclamar dessa questão é, claramente, assumir uma carapuça (aliás, apontar esse viés em qualquer aspecto da prova é assumir um fracasso, ainda que intelectual e pessoal).

Mas voltando ao assunto: um veículo jornalístico com essas premissas não sobreviveria à primeira esquina.

É essa a resposta correta, diga-se.

Tudo por um furo: de novo, a ficção vira realidade

A dica é do ótimo blog Sans Serif: no romance “The Almighty” (que eu traduziria simplesmente por “Deus”), de Irving Wallace, o protagonista, Edward Armstead, herdará um jornal com a condição de que, por um período determinado, o veículo bata o New York Times em tiragem.

Para conseguir a façanha, Armstead contrata uma gangue que passa a apavorar a cidade e seus arredores. Seus crimes e atos de vandalismo, claro, eram cobertos em primeira mão pelo New York Record, o jornalzinho que, enfim, supera o NYT.

Leia também: Pesada, ruidosa e lerda, era assim que se transmitiam fotos na pedra lascada do jornalismo

Wallace Souza, apresentador de um programa policial na TV e deputado no Amazonas, é acusado de fazer exatamente o mesmo _excetuando-se a questão do jornal e da herança.

O caso nem é inédito: no ano passado falei sobre um jornalista que, ele próprio, assassinava mulheres e depois escrevia reportagens sobre os crimes _com exatidão tal que acabaram levando a polícia a enquadrá-lo.

É tão clichê dizer que a vida imita a arte, mas não me ocorre nada melhor agora.

Talvez, apenas o adendo de que a vida supera, e muito, a ficção.

Um golpe no jornalismo cidadão?

Essa é muito boa para a pequena coleção de argumentos dos que costumam desvalorizar o jornalismo cidadão por uma suposta falta de credibilidade: no domingo, o iReport, espaço colaborativo da CNN, deixou passar uma história sobre Randall Stephenson, CEO da AT&T, que teria sido encontrado morto em sua “mansão multimilionária”.

Era mentira, um trote, mas o mais curioso é que a AT&T (provedor de acesso à web mais utilizado nos Estados Unidos) tomou suas próprias providências e bloqueou um dos fóruns mais movimentados da web americana na qual a informação já bombava e era debatida com fervor (do iReport a “notícia” foi excluída rapidamente).

Não foi a primeira vez que o iReport foi ludibriado por, digamos, engraçadinhos.

Evidente que a possibilidade de trotes não é uma exclusividade da era da conversação e altíssima tecnologia _eu vou voltar no tempo só até 1983, quando internet era um termo usado apenas por militares e alguns acadêmicos, para citar o caso Boimate, no qual a revista Veja foi enganada por uma brincadeira de 1º de abril.

São inúmeros esses “descuidos” editorais que remontam, certamente, à própria época de Gutemberg.

Não têm a ver, portanto, com a produção colaborativa de notícias. Mas é sempre bom repetir e reforçar, porque senão vai aparecer gente dizendo “tá vendo? eu sabia!”.

Isso não exclui a possibilidade de se fazer uma reflexão sobre qual o melhor processo de inserção do público dentro do noticiário.

O iReport, como se sabe, não possui moderação nem edição posterior, ou seja, as notícias ali publicadas (salvo se são mentirosas _mas de fácil checagem, convenhamos, senão jamais serão descobertas) não passam por qualquer jornalista profissional antes de ir ao ar.

Algumas, de tão boas, vão parar no site da CNN em pessoa (a empresa afirma que, até hoje, de quase 321 mil textos postados, 699 chegaram ao mainstream).

Pessoalmente, eu prefiro a mediação e a convivência pro-am, quer dizer, entre profissionais e amadores, o que dá origem ao jornalismo que conceituo como participativo _ou seja, o público efetivamente está participando de um processo. Falamos mais disso em breve.

Meu santo nome em vão

O conselheiro sentimental Alec mereceu um titulão forte na Veja

O conselheiro sentimental Alec mereceu um titulão forte na Veja

Totalmente offtopic, meio domingão: não curto ver meu nome assim, num titulão forte. E deu justo na Veja, pô…

Meu filho, que também se chama Alec, queria saber o que estavam falando dele.

Quem tem nome esquisito é assim, estranha mesmo…