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A monocultura do Facebook

Para quem trabalha com conteúdo em redes sociais, a monocultura do Facebook ainda é um problema no Brasil.

Pelo seu tamanho (são cerca de 80 milhões de brasileiros lá dentro), é natural que as marcas queiram interagir no site de Mark Zuckerberg.

Acontece que cada caso é um caso, e há redes muito mais específicas para quem atingir determinados públicos.

Afora os aspectos severos proporcionados pelo algoritmo do Facebook (o pior deles é o alcance cada vez menor das publicações, um evidente recado para que as ações lá dentro sejam pagas), há ainda tantos outros problemas no que diz respeito ao funcionamento da ferramenta que, de verdade, não dá pra entender esse furor.

O Facebook pode ser tão útil quanto qualquer outra rede, desde que esteja alinhado com a estratégia de comunicação. Não é uma escolha liminar.

Hoje, não tem sido o caso.

O jornalismo passou longe

Em fevereiro de 2009 escrevi que um hipotético fim da imprensa formal significaria que a blogosfera (ainda não eram os tempos das redes sociais bombando) acabaria logo em seguida porque, afinal, “ela reproduz e vive a reboque dos veículos tradicionais”.

Levantamento feito agora pela Folha de S.Paulo durante as eleições de 2014 dá números a essa tese.

“Na amostra coletada pelo jornal, 61% dos compartilhamentos de links por usuários vieram de conteúdo publicado na mídia profissional em jornais, portais, TVs, rádios, sites de notícias locais ou imprensa internacional”.

O que há de sobra nas redes sociais é opinião. Jornalismo, que envolve principalmente apurar informações, como todos nós sabemos, ainda passa longe dos sites de relacionamento.

A questão de fundo é: e deveriam passar? Ou estamos falando apenas de relacionamento?

O propósito da Folha ao fazer levantamentos do tipo (não é o primeiro nem será o último) é mostrar de alguma forma que a mídia formal tem relevância. Parece ser uma disputa inútil: no final das contas, as pessoas sempre irão ganhar.

Então, o negócio é se juntar a elas.

É a mensagem, estúpido!

A virulência da eleição presidencial – cujo rumo sangrento, diga-se, não foi ditado pelas pessoas mas pelas próprias campanhas – trouxe novamente à tona, especialmente entre analistas analógicos, uma certa desesperança com as redes sociais.

Ora, culpar as redes é como empastelar a Editora Abril por causa de uma capa de Veja: é a mensagem, estúpido, não o mensageiro.

Redes sociais são tocadas por pessoas. Está aí, portanto, a raiz do problema. Jamais na plataforma.

A pátria das mentiras

Quer começar uma conspiração ou distribuir mentiras? Corra para o Facebook.

#pegabem?

Disclaimer: é só um exemplo, a anos-luz de distância de querer demonizar campanhas e profissionais.

Você certamente percebeu que a operadora de telefonia Vivo, como tantas outras empresas antes e também agora, de todos os setores, apostou numa hashtag para alavancar maciça ação de comunicação.

Pouca coisa resume melhor a vida on-line do que a hashtag, etiqueta criada por usuários do Twitter sem que alguém tivesse pedido. Simplesmente assim, surgiu. E é assim o mundo em rede, onde governos, empresas e pessoas têm acesso às mesmas ferramentas – nesse cenário, o controle será sempre das pessoas.

Isso um.

Dois, e recorro aqui novamente à lapidar frase de Nizan Guanaes: “Na época da comunicação total, a verdade tornou-se a maior arma de persuasão em massa.”

Pois bem: a Vivo, unilateralmente, decidiu que #pegabem. Só que não é exatamente verdade, e quem conhece a precariedade da rede de telefonia nacional sabe bem do que estou falando. Assim, tentar impor às pessoas o uso de uma hashtag só poderia dar nisso: #pegabem, na rede, virou um mote para ironizar a empresa.

Não é apenas a Vivo. Há dois anos, numa cobertura de Carnaval, a operação jornalística das Organizações Globo na internet decidiu que as pessoas deveriam usar a hashtag #globeleza não para interagir com a emissora (como, posteriormente, corretamente a rota foi alterada), mas para bombar sua programação. Resultado: só fisgou o desavisado tenista Gustavo Kuerten.

A abundância do uso de hashtags pelo marketing e pela publicidade, um fato, é muito perigosa para quem trabalha com comunicação. Não mande as pessoas fazerem aquilo que elas não estão dispostas. Muito menos num lugar tão democrático quanto o ambiente on-line.

A Constituição do Facebook

Você já leu os termos de uso do Facebook?

Ex-editor-chefe do Washington Post e agora diretor da Faculdade de Jornalismo de Columbia (EUA), Steve Coll leu. E abandonou o serviço.

“Tudo me pareceu muito pretensioso, escrito como uma Constituição, mas de um Estado do qual eu não gostaria de ser cidadão”, contou.

Há mais bobagens do que a observação “Você não deve usar o Facebook se for um criminoso sexual condenado” na tal “Constituição” do serviço de Mark Zuckerberg. O besteirol grassa em termos de uso de forma generalizada, como os do Twitter, por exemplo.

A grande questão é que as cláusulas leoninas escondidas entre as estultices acabam sempre passando batidas. E, depois, dá-lhe polêmica porque uma foto de passista foi excluída da página de um veículo jornalístico que fazia a cobertura do Carnaval.

Mas eu nem deveria estar falando disso, já que certamente você não leu nem lerá as regras. Tá. Apenas não reclame depois. O ambiente ali não é nosso, é deles (dos donos).

A arte de notabilizar imbecis

O holofote e a plateia das ferramentas de redes sociais estão colaborando para a constituição de um verdadeiro exército cujo objetivo é usar os nós conectados para dar lições de moral “ao Brasil que relincha” – no caso, aquela parcela da população que manifesta qualquer posição contrária ao consenso dessa multidão.

Sua metodologia consiste na psicografia. Dos pobres, dos ricos, de quem quer que seja. Eles sabem o que as pessoas pensam, como agem, suas motivações. Roteirizam seu passado e o de seus antecedentes, constróem teses, decretam fatwas. Enfim, se acham de alguma maneira melhores do que outros e, mais, precisam publicizar isso para receber os louros.

O comportamento em si já seria grave levando-se em conta que, até pelos ideais que defende essa armada, e por democrática que se intitula, ela deveria ser tolerante ao contraditório e à diversidade, como bem cabe numa democracia. Mas essa reflexão eu deixo para vocês, porque o meu ponto não é esse.

Preocupa-me mais esse modus operandi da ofensa pela palavra pelos que estão na linha de frente dele não perceberem que, ao se digladiar com apresentadores de telejornais que ninguém vê ou com irrelevantes colunistas imberbes socados na cold zone de um site qualquer, tratam de jogar luz sobre suas sandices – aí sim cavando espaço para eles em latifúndios mais nobres da mídia tradicional, sempre antenada em quem possa atrair polêmica (e audiência).

Desta forma, o pensamento dito reacionário é amplificado, distribuído e retroalimentado por quem discorda dele. Não é um paradoxo?

Há ainda um fator que me deixa triste: como tanta gente boa consegue jogar fora parte considerável de sua produtividade diária dedicando-se a redigir tratados, um atrás do outro, para escorraçar ideias que não mereceriam mais do que desprezo e, quem sabe, até a lata de lixo da história? Haja hora vaga para colocar a produção em dia…

É essa inexplicável indignação com a opinião alheia (e a busca por aplausos acalorados) que colabora, dia após dia, com a notabilização de conceitos que, gostaríamos se fosse possível, não existissem em nossa sociedade.

Mas eles existem. E minha tolerância e espírito democrático com relação a opiniões que repudio é o desprezo. Façam o exercício de ignorar o tal “Brasil que relincha”. A saúde de vocês certamente vai agradecer, e menos idiotas ganharão notoriedade no mundo.

Engajamento artificial e conteúdo refém

Eu diria que estamos diante do texto definitivo sobre engajamento artificial e conteúdo refém da audiência. Daniel Sollero analisa com bastante propriedade o que estamos fazendo na rede – e o que deveríamos fazer.

Imperdível.

A força dos RPs (e do e-mail)

Como os jornalistas veem e usam as redes sociais?

É o que aborda o levantamento “Social Journalism Study 2013“.

Entre as descobertas, o predomínio dos RPs como fonte de confirmação de notícias e o uso ainda bastante robusto do e-mail.

Facebook perde moral entre os adolescentes

Os indícios já vêm pipocando lá e acolá, e isso há um bom par de anos. Mas 2013 termina com uma nova rodada de hábitos de consumo de redes sociais que apontam o decréscimo de usuários no Facebook entre 16 e 18 anos.

Estudos etnográficos em nove países (e que já levam 15 meses) deixam clara a tendência de os jovens fugirem da rede social preferida dos pais. Aliás, se antes eles se preocupavam com o fato de os filhos se exibirem no site de Mark Zuckerberg, hoje é o oposto, estimulam as crias a cobrir a própria vida em tempo real.

Afinal, nada mais seguro do que um lugar em que se sabe o tempo todo o que estamos fazendo e com quem.

Mas esse tempo está passando. Plataformas como o Snapchat, no qual as mensagens se ‘autodestróem’ ao gosto do freguês, ou o Twitter, caótico para quem não frequenta o ambiente e mais simples de usar, continuam de braços abertos para esse público.

A constatação (mais uma, repito) não significa o fim para o Facebook. Afinal de contas, um produto multiusuário, para todas as faixas etárias, é um Santo Graal. Que tenha sido eterno enquanto durou.