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Espanha discute ‘tornar normal’ o horário de trabalho dos jornalistas

Não sabia que a Espanha tinha uma “Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários”, aliás, que eu saiba nenhum país tem uma repartição pública dessas.

Ignacio Buqueras y Bach, presidente do órgão, diz que sua tarefa é “sensibilizar a sociedade espanhola sobre a necessidade de usar melhor o tempo e racionalizar a agenda diária de maneira que sejam mais flexíveis e humanos e favoreçam a conciliação da vida pessoal, familiar e profissional”.

Buqueras assina texto em que inclui os jornalistas como beneficiários dos objetivos de sua pasta.

Diz que marcar entrevistas coletivas para depois das 18h implica “esforço adicional” para as Redações, cita casos de profissionais que foram rechaçados pelos filhos em detrimento das babás (quem, afinal, fica com eles) e replica citações de coleguinhas sobre a insalubridade de se jantar às 23h todos os dias, entre outras barbaridades incompatíveis com o exercício da profissão.

E a gente aqui, se perguntando por que o jornalismo parece ter piorado de uns tempos pra cá.

Santa burocra, Batman.

Os trambolhos das redações em 1996

Dá só uma olhada nesse vídeo de 1996 (muito comum na época, quando os jornais mostravam na TV os destaques de suas edições impressas do dia seguinte) feito no Diário Catarinense, de Florianópolis.

Ou melhor: dá uma olhada nos terminais da redação. Trabalhei com alguns trambolhos pouco menos robustos que os exibidos ali. E não dá saudade nenhuma, confesso.

Fora que, em 1996, quem tinha acesso à web dentro de um jornal?

O manual de redação do Estadão para seus leitores-comentaristas

No instante em que o jornalismo on-line rediscute o que fazer com os comentários dos leitores (e há quem sugira simplesmente limar toda opinião que não seja identificada por nome completo e RG), reparo nas regras do Estadão on-line para admitir a participação dos leitores no noticiário.

Mais que regras rígidas, constituem verdadeiro seguro contra comentaristas aloprados que, por motivos óbvios, sejam moderados ou mesmo excluídos das instâncias de discussão num site _nessas ocasiões, os delinquentes da palavra costumam recorrer a bandeiras como ‘liberdade de expressão’ para denunciar o que consideram ‘censura’.

Com regras claras, essa bobagem não cola.

Os 20 Mandamentos do jornal para seus leitores-articulistas:

Será considerada infração, a publicação de conteúdo:

1. Ilegal

2. Abusivo

3. Ameaçador

4. Nocivo

5. Obsceno

6. Profano

7. Difamatório de qualquer pessoa ou instituição

8. Discriminatório de credo, raça, condição social ou orientação sexual

9. De Incitação a atos ilícitos

10. De Incitação à violência e/ou ao crime contra pessoas, instituições, países ou a patrimônio público e privado

11. Capaz de ferir a reputação de pessoas ou organizações

12. Que configure Plágio

13. Produzido por terceiros, sem a reprodução autorizada

14. Considerado Spam ou correntes de mensagens

15. Transmissão de ou que leve a locais com material de potencial destrutivo como vírus, worms, cavalos de tróia

16. Propaganda de produto ou serviço

17. Campanha política

18. Falso ou fraudulento

19. Violação do direito de propriedade de uma pessoa ou empresa

20. Que fingem ser de autoria de outra pessoa, famosa ou não

El Pais desiste da separação de corpos e funde papel e on-line

O jornal espanhol El Pais (muito relevante globalmente, ainda mais considerando-se sua idade _faz 34 anos em 4 de maio) decidiu fazer aquilo que tinha descartado: unir suas redações em papel e on-line, ainda que numa integração física forçada, bastante comum hoje.

Claro, a integração física é a mais fácil de se fazer. Basta quebrar paredes e acomodar as pessoas perto umas das outras. Debater o que cada uma vai fazer (e com qual prioridade, eis o mais importante)… ah, deixa pra lá.

“Agora o El Pais é um só”, garante Gumersindo Lafuente, diretor adjunto do jornal com clara missão de fundir e tornar complementar os conteúdos dos dois suportes.

A fórmula inicial é batida: o “mesão”, uma central nervosa da redação, com editores e repórteres experientes alimentando o site e, ao mesmo tempo, discutindo o desdobramento que os assuntos devem merecer nas páginas do dia seguinte. É um formato que, via de regra, descamba para o burocrático (e para o inevitável burro encostado na sombra).

A favor de Lafuente conta o passado no Soitu.es, meio nativo digital que agitou o jornalismo espanhol por 22 meses, entre 2007 e 2009, e fechou as portas por falta de capitalização. O jornalista levou consigo para o El Pais outros 11 colegas que desfrutaram daquela aventura na web _ressalte-se que a crise no jornalismo, impresso ou eletrônico, é muito mais evidente em países que já se desenvolveram, caso da Espanha.

Quando dirigia outro importante periódico espanhol, o El Mundo, Lafuente era um ferrenho defensor da separação de corpos: on-line pra cá, papel pra lá. Tudo em nome da defesa da “identidade” de cada plataforma.

Ramón Salaverría e Samuel Negredo falam muito sobre isso no livro “Periodismo Integrado“, no qual analisam oito casos de integração de redações (poucos levaram à convergência, o orgasmo da fusão de suportes no jornalismo).

Mas é certo qe não existe fórmula pronta: depende da quantidade de entusiastas da internet e de características e aspectos culturais de cada empresa. Uma coisa, porém, é certa: precisa querer fazer.

Você quer?

Faz sentido existirem redações ainda?

O fim do jornal impresso em papel já é uma discussão real na profissão. Mas e o fim da Redação (enquanto um espaço físico que reúne jornalistas e equipamentos)?

Será que o avanço tecnológico já não tornou possível o trabalho dos “mojos” (mobile journalists, ou “jornalistas móveis”) longe de um escritório? Afinal, o repórter cobre sua história, escreve, fotografa, faz vídeos e envia ou publica tudo isso por meio do celular ou de uma simples rede wifi.

Logo, o papel da Redação como um centro integrado de informações e também de tecnologia de publicação deixou de existir.

O Editor’s Weblog diz que, para cortar custos, o “The Record in Hackensack“, jornal de New Jersey (EUA), já usa a Redação apenas para o indispensável. Stephen Borg, seu editor, se enxerga num mundo em que os repórteres trabalham todo o tempo fora do escritório.

A conta da economia é o maior ingrediente de convencimento: o “The Record in Hackensack” estima que deixará de gastar, por ano, US$ 2,4 milhões em conta de luz e equipe terceirizada de limpeza, por exemplo.

Aqueles que precisam da Redação como um escritório, para receber uma fonte, por exemplo, fazem uma reserva de mesa, como num restaurante.

Eu, e já faz tempo, acho totalmente desnecessário (ainda mais em cidades-monstro como São Paulo) obrigar as pessoas a se deslocar para usar um computador ou um telefone, coisas que todos possuímos em casa.

Antigamente, você só estava informado se fosse à Redação. O mundo mudou, mas muita gente ainda acha que jornal se faz socando as pessoas dentro de um ambiente insalubre. Tsc tsc tsc…