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Acabou a comunicação de cima para baixo

Quando Clay Shirky fala, é melhor ouvi-lo.

O jornalista e professor da Universidade de Nova York _e hoje uma das principais autoridades em vida digital e as mudanças provocadas pela tecnologia_ faz uma bela análise sobre como redes sociais construídas em torno de sites de relacionamento (como Twitter e Facebook) e mensagens de texto (os populares torpedos) estão destruindo o conceito de comunicação imposto de cima para baixo, especialmente por governos autoritários que exercem rígido controle sobre a imprensa, digamos, “formal”.

É o que estamos assistindo no Irã, onde o povo protesta, na rede e nas ruas, contra o resultado das eleições que deram mais um mandato a Mahmoud Ahmadinejad.

Engraçado que ainda há empresas jornalísticas, dentro e fora do mainstream, que agem como esses governos autoritários. E que acreditam piamente serem o filtro universal entre os acontecimentos e seus leitores. Coitadinhos.

(via Certamente!)

Como a internet mudou radicalmente a economia da notícia

O professor Paul Bradshaw, maníaco do avanço tecnológico e da comunicação on-line, descreveu, em 12 pontos, as mudanças mais significativas que a internet provocou no que ele chama de “economia da notícia”.

Recomendo a leitura integral do artigo, mas vou destacar algumas coisas que me chamaram a atenção.

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Decisão judicial impede jornalistas de entrar onde ‘público em geral’ é barrado

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Primeiro que, pícaro, Bradshaw celebra o fim dos monopólios _e também a criação de outros.

É evidente que o enterro do monopólio que menos interessava (o do jornalista como filtro universal entre os acontecimentos e o público) transformou definitivamente a profissão.

Mas o surgimento de monoculturas como Google e Facebook, para citar só duas, apenas mantiveram o status quo.

Bradshaw cita dois aspectos também importantes da revolução provocada pela tecnologia: primeiro, a explosão do consumo de notícias. Nunca se teve tanto ao alcance de tantos e por tão pouco (invariavelmente, zero). Depois, ele presume que a web deu a quem trabalha com notícias a noção exata de sua audiência (quem é, de onde vem, para onde vai).

Isso não é exatamente verdade: a internet é o meio pior auditado da história da comunicação. Basta dizer que, até hoje, não há consenso sobre a padronização a ser seguida num quesito simples como a avaliação do tamanho da audiência.

Mas tudo bem: tecnicamente, os meios existem. Os homens é que ainda não se entenderam.

A mudança mais importante, segundo ele, foi o surgimento de uma nova moeda, baseada em reputação, conhecimento e rede de conexões. Muito verdade. E tem tanto jornalista que ainda não percebeu isso…

O que mais será que mudou no jornalismo com a revolução tecnológica?

A web, a conversação e a parede de banheiro

“Aquilo que antigamente as pessoas escreviam numa parede de banheiro hoje pode ser visto por milhões”, afirma a advogada Sandra Baron, diretora-executiva do Centro de Estudos de Direitos da Mídia, de Nova York.

A frase sintetiza o que está acontecendo agora nos Estados Unidos e, como sempre, deve se espalhar pelo mundo: pessoas estão sendo processadas por calúnia, invasão de privacidade e violação de direitos autorais pelo que publicam na internet _seja nos comentários de um blog, num fórum, num chat, no microblog…

Reportagem do The Wall Street Journal (que aliás erra no título e restringe o problema legal aos “blogueiros”, esse termo detestável) mostra que o número de processos civis motivados por declarações postadas na web saltou de 12, em 2003, para 106 quatro anos depois (é o dado disponível mais recente).

Essa metáfora da parede de banheiro é muito boa. E se aplica também ao jornalismo, profissional ou amador.

Curioso que, nos EUA, alguns dos processados alegam estarem cumprindo tarefas jornalísticas para serem julgados por uma lei específica.

No Brasil, nem essa chance há mais: a queda da Lei de Imprensa aumentou sensivelmente o risco de a gente ser condenado por calúnia, injúria e difamação.

A primeira indefinição do novo presidente

Algumas coisas já podem ser ditas sobre o plano da gestão Barack Obama para o diálogo e a convergência de pessoas on-line _tática que se mostrou decisiva no pleito que conduziu o democrata ao cargo de presidente dos Estados Unidos, mas que por ora pareceu ser só isso: uma estratégia de campanha, não de governo . A posse, aliás, é nesta terça.

Este miniartigo atualiza e complementa o que eu escrevi há dez dias.

Falta de padrão, deslizes na condução de redes sociais consolidadas e bem-sucedidas e, o pior de tudo, um discurso vazio sobre como serão financiados, administrados, hierarquizados e priorizados os canais de conectividade na Web que transformaram a campanha de Obama num exemplo de multiplicação em tempos de altíssima tecnologia _e acesso à ela.

Vamos à falta de padrão: há um canal no Flickr que trata do gabinete de transição. Desatualizado, por sinal. Enquanto isso, surgiu outro, apenas sobre as cerimônias de posse. Eles não se falam, não se linkam. Claro desvio de condução de grupo em mídia social.

E o microblog? Depois que registrei que a última atualização ocorreu em 5 de novembro (um dia após a votação), eis que surgiu outra ontem, mas tirando as pessoas do canal ao sugerir que acompanhem a página oficial da posse. Onde, logicamente, há um grande destaque para o botão “doe dinheiro agora“.

Há, ainda um canal de microblog atualizado desde 28 de dezembro sem nenhuma publicidade nas outras palataformas on-line por onde o democrata desfila.

A pá de cal foi o último discurso de Obama postado no You Tube (hábito hebdomadário do futuro mandatário). Ele choveu no molhado ao ressaltar a importância da participação das pessoas. Foi um discurso quase religioso que, é evidente, recebeu crítica muito bem fundamentada.

Afinal, quais são as propostas concretas para o uso da tecnologia no 44º mandato presidencial dos Estados Unidos?

A primeira foto, na verdade, era a segunda…

A aeronave pousada no Hudson, antes da chegada de balsas que ajudaram no resgate _de onde jornalista cidadão fez a segunda foto do incidente em Nova York

A aeronave pousada no Hudson, antes da chegada de balsas que ajudaram no resgate _de onde jornalista cidadão fez a segunda foto do incidente em Nova York

Nada como um incidente urbano (ou seja, com várias testemunhas) para recolocar o jornalismo cidadão e a comunicação em rede sob os holofotes. Desta vez, foi por muito pouco: o pouso forçado do avião em Nova York teve, talvez, uma única incidência registrada por uma pessoa comum antes da chegada, em peso, da grande mídia.

Registrada não, corrijo: publicada on-line (no caso, numa página do Flickr). Parece-me óbvio que outras tantas pessoas focalizaram a cena, ocorrida em pleno rio Hudson, só na frente da Ilha de Manhattam, diante de centenas de prédios de escritórios e janelas forradas de curiosos munidos de celulares e câmeras digitais.

A maioria destes flagrantes, porém, não chegam à Web porque seus autores fracassam ao compartilhar o conteúdo. Sua colaboração para em obstáculos pessoais, técnicos e circunstanciais.

Quando surgiu a segunda foto pública do acidente (confundida por gente muito experiente na Web como a primeira), já existiam imagens de agências de notícias (a Associated Press capitaneando) e câmeras de TV a vivo transmitindo o resgate dos 150 passageiros, todos com vida _essa sim a grande notícia do quase desastre.

Claramente esse pouso bem-sucedido esteve no limiar de derrubar o paradigma que minha amiga Mindy McAdams tão bem decretou, com minha total concordância: o breaking news (a notícia de última hora) estará on-line, sempre, antes do rádio e da TV e será sempre coberto, inicialmente, por jornalistas não-profissionais.

Quase que essa afirmação cai. Por minutos (normalmente leva dezenas, e bota dezenas, deles).

Nosso velho conhecido, o jornalista português Alex Gamela montou uma linha do tempo do incidente do ponto de vista do Twitter, o site de microblog mais acessado do mundo. Ali, 140 caracteres bastam quando se preenche o espaço com links úteis. É a expansão da informação, algo que nossos sites noticiosos desconhecem por medo de levar o usuário alhures e nunca mais recuperá-lo _sendo que é exatamente a prestação desse serviço um dos mais potenciais agregadores de público.

Minha curiosidade, desta vez, foi notar amadores (nota: gente que não é jornalista) disputarem ombro a ombro um furo. A agilidade das pessoas está cada vez mais impressionante.

E quem deu a informação primeiro (ao menos em imagem publicada on-line, vamos especificar bem)? Esta foto, tirada antes que a chegasse a balsa de onde este aqui registrou o resgate dos passageiros.

Aliás, a própria linha do tempo de Gamela registra a aparição desta foto primeiro (por acaso, transmitida por mim).

O público que publica, mais uma vez, mostrou-se útil para a imprensa tradicional. Cabe a ela colocar essa gente de vez para dentro do noticiário.

Discussões para dar e vender

Tem duas discussões bacanas correndo soltas na rede e eu, que gosto de sempre meter a colher, não perdi a oportunidade.

No Novo em Folha, a Ana Estela relembra o caso da frila de O Globo, agora cobrindo o conflito no Oriente Médio, que postou barbaridades (eram suas opiniões pessoais) num blog próprio. Olha só que loucura.

Eu sempre falo uma coisa: tome cuidado com sua vida pregressa on-line. O jornalismo é uma atividade pública. Usar um site pessoal para tomar posições políticas, religiosas e até sobre futebol (sobre futebol, aliás, evite, sua vida pode virar um inferno) exige ter a consciência de que certamente haverá um ônus.

O meu, quando critico veículos jornalísticos aqui, pode significar entrar na lista negra deles, não?

Pelos comentários lá no Novo em Folha, o povo acha que tudo bem, que seria uma invasão tomar uma publicação pessoal como algo público. Eu acho ótimo ter opinião. Mas lembre-se: é provável que a sua fique eternizada na rede e crie, no mínimo, algum tipo de obstáculo ou reparo ao seu desempenho profissional.

Em outra frente, estamos debatendo no Libellus, da Ana Brambilla, o discurso no microblog.

O ponto de partida foi um post da Ana _quem mais conhece sobre jornalismo colaborativo no Brasil_ comentando o levantamento de que 35% dos usuários do Twitter (o site de microblog mais acessado) tem até dez “seguidores”.

A minha posição (por ora, a discussão prossegue): eu tendo a relacionar a baixa conectividade a outros usuários como reflexo da qualidade da micropostagem _ou à ausência dela.

Na medida em que o que vc posta é útil (isso em primeiro lugar), interessante (do ponto de vista intelectual) ou divertido (sim, há espaço para humor no microblog), a teia tende a crescer.

E você, o que é que acha?

Matando a mensagem

As novas mídias, especialmente as redes sociais, nos impuseram aos jornalistas uma série de novos obstáculos na comunicação e interação com a “ex-audiência“.

Nesta quarta deu pra sentir a extensão de alguns deles ao observar o ataque de BBB9 pelo qual passou o serviço em microblog da Abril.com. Por horas, tudo o que atualizou-se no canal do portal no Twitter dizia respeito à nova edição do reality show da TV Globo _relevante, sem dúvida, mas só para um grupo específico.

É claro, isso desagradou a alguns.

Neste caso faltou segmentar a própria audiência. A criação de um canal “abrilcom_BBB9″, promovido eventualmente no endereço-mãe, teria resolvido o problema e evitado o desgaste.

Ainda dá tempo.

O público heterogêneo de um portal supõe, à produção de conteúdo e concepção de produtos, comprometimento com os interesses de todo um leque de indivíduos. Como eles podem agrupados exaustivamente (até chegar à unidade indivisível, que é você), a segmentação da mensagem é premissa.

Para isso, é preciso conhecer a ex-audiência. O microblog _que já é uma segmentação em si_ dá boas pistas.

A gestão de Barack Obama on-line

Foto do Flickr do gabinete de transição de Barack Obama

Foto do Flickr do gabinete de transição de Barack Obama

Saudada (corretamente) como um ícone do bom uso das novas ferramentas on-line de mídia social _eu me arrisco até a dizer que se estabeleceu um novo padrão_, a equipe de Barack Obama vai mostrando, em alguns aspectos, que a premência da eleição sobrevalorizou, em boa medida, esse suposto talento internético e propenso à interação.

O site do governo de transição parece manter firme o propósito de interagir com as pessoas. Um imenso quadro vermelho em posição de destaque na página o recepciona com um convidativo “Conte-nos a sua história“, habilitando funções de texto, foto e vídeo.

Esse material (certamente valioso) ainda não foi tornado público _e esse é o primeiro problema. É princípio da gestão de uma comunidade o compartilhamento imediato do material produzido por ela. Assim é o jogo na Internet. Eu colaboro, mas tenho direito à colaboração de meus pares.

O blog do Change.com tropeça em dois aspectos: desconhece o link para outras coisas bacanas da rede e esconde ou não-habilita temporariamente a caixa de comentários. Pode ser um método para tornar a moderação viável, mas não é transparente. Só o blog exibe a galeria de fotos de Obama e seu vice, Joe Biden, no Flickr (por sinal, atualizadíssimas, mereciam melhor destaque na home).

A sala de imprensa virtual é modesta, mas funciona. E, melhor, não é restrita a “pros”. O público adora acessar seções do tipo e se sentir proprietário de notícias em primeira mão (apesar de todo mundo saber que não são).

A promessa de usar o You Tube também foi cumprida: há um canal bastante ruidoso e bem-cuidado. O que levava o nome de Obama (não de uma campanha eleitoral, notem) foi abandonado. E sem contar para onde se mudou…

No Twitter, de novo há a mesma sensação de que só queriam o seu voto: o último scrap é de 5 de novembro, dia seguinte à eleição, quando a vitória de Obama Barack foi confirmada.

Déjà vu no Facebook: uma mensagem de agradecimento e, aparentemente, última atualização em 10 de novembro. Ah, claro: há uma postagem de anteontem convidando os fãs a doar ao menos US$ 5 para a festa de posse, que está sendo vendida pela equipe de Obama como a primeira na história dos EUA que não é patrocinada por lobistas. Detalhe: ainda não existe a página Changedotgov, nova morada das coisas on-line do futuro mandatário dos EUA.

No Twitter, o “domínio” já foi registrado, mas jamais divulgado ou atualizado.

Por enquanto, ainda fica difícil saber se a destreza no poluído mar da mídia social era uma estratégia de governo ou simplesmente de campanha. No mínimo, falta padronização e gentileza na condução dos fiéis seguidores.

Enxurrada de redes sociais

A Telefónica inaugurou, na Espanha (ainda sem previsão de chegada ao Brasil), a era das redes sociais corporativas. Com o Keteke, a empresa pretende reunir usuários do sistema de telefonia celular que estejam dispostos a se juntar em comunidades e trocar fotos, vídeos e informações.

Isso vai além do conceito de oferecer serviços e cobrar por eles, como já abordamos aqui. E tem bastante a ver com jornalismo, se pensarmos em antecipar tendências.

Veja, 70% dos espanhóis acessa ou já acessou uma rede social. É a quinta nação com mais usuários deste tipo de plataforma. O Brasil é o segundo, quase empatado com o líder, Canadá.

Isso significa que deveremos assistir, nos próximos meses, a uma enxurrada de novas redes sociais, várias delas postas no ar por grandes grupos de comunicação e tecnologia.

Reunir pessoas em torno de interesses comuns (e eles podem, por que não, ser notícias) é mais do que um negócio para vender acesso móvel ou na Web. É o caminho mais rápido para comunicar e mobilizar. Quem já percebeu isso, caso de Barack Obama, sabe muito bem do que estamos falando.