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Desde quando jornalista pode torcer?

Hoje ouvi o jogo do Palmeiras (contra o LDU, pela Libertadores) na rádio Bandeirantes. Há anos não escutava José Silvério, a maior voz do rádio esportivo, Milton Neves (chato porém competente comandante de jornadas esportivas) e Mauro Beting, o responsável por minha introdução no jornalismo ao me convidar para trabalhar na Folha da Tarde em 1990.

Durante a transmissão, por várias vezes eles e outros membros da equipe fizeram referência ao time pelo qual torciam _o que não deve ser mais nenhuma novidade para quem ouve a rádio com frequência. Mas daí me lembrei que estava devendo um texto justamente sobre isso. Um jornalista pode torcer?

Antes de mais nada, e no caso específico de jornalismo esportivo, seriam bom que estudantes e profissionais fossem mais jornalistas e menos esportivos. Só isso já seria capaz de melhorar consideravelmente a qualidade do que é praticado hoje no Brasil _para dizer a verdade, abaixo da crítica.

É aquela coisa que repito tanto: se você gosta de esportes, não de jornalismo, é melhor não prosseguir. É por causa desse tipo de pessoa (as redações estão forradas delas) que a crônica esportiva vive uma crise técnica que parece interminável.

Dito isso, agora vamos à torcida em si. Um jornalista de política pode torcer? Neste caso, ter preferências políticas pessoais? E um editor de primeira página? O repórter da cidades que, no fundo da alma, faz oposição ao prefeito do município, é capaz de cumprir com eficiência o seu trabalho?

A resposta para essas perguntas é, evidentemente, sim, embora o jornalista devesse desenvolver uma espécie de proteção emocional que o impedisse de se envolver pessoalmente nos assuntos que cobre. O bom e velho distanciamento (emocional, repita-se) sempre foi uma das chaves para o bom desenvolvimento das tarefas jornalísticas.

Eu gostaria que não fosse assim, mas o clima nas editorias de esportes é o mesmo de uma cooperativa de motoboys ou coisa que o valha: gozações, piadas, muita torcida (mais contra do que a favor, claro). O pior, no caso do jornalismo, é que esse passionalismo transborda para o trabalho.

É o caso de repórteres que só sugerem pautas favoráveis ao seu clube (ou destrutivas aos adversários) e editores que “carregam nas tintas” quando de um triunfo de suas cores (ou um insucesso dos times rivais).

Este assunto é delicado porque exige uma pesquisa bem ampla para se afirmar com convicção que torcer prejudica o fazer jornalístico. As coisas que disse são fruto de 20 anos de observação em redações.

E aqui fala um cara que não tem um, mas dois times (Corinthians e Grêmio).

Mais diálogos sobre a era da conversação

Participei na noite desta terça-feira da 13º Semana da Comunicação da UNG, a Universidade de Guarulhos.

Foi mais um diálogo sobre a conversação e outras modificações que a tecnologia impôs ao jornalismo. Como você pode ver pelos slides, não muito diferente do papo que mantive em outras faculdades (e mesmo dentro da Folha de S.Paulo) recentemente.

Hoje foi um pouco diferente porque havia a necessidade de dar ênfase ao jornalismo esportivo _que, afinal de contas, é o que desempenho no dia a dia. Daí eu sempre dou um jeito de cutucar quem gosta de esportes, mas não de jornalismo, e tentar afastá-lo o quanto antes da profissão. “Façam educação física, gestão em marketing esportivo, sei lá, tantas carreiras…”, digo.

Exibi ainda uns títulos ruins (eles estão por toda parte, é só procurar) e tive de tempo de discursar contra a obrigatoriedade do diploma para se trabalhar na profissão.

Muita gente não gostou do que ouviu.