Arquivo da tag: jornalismo cidadão

Leituras de domingo

#ficaadica: A revista Fronteiras-Estudos Midiáticos, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos (RS).

Coisas bacanas e boas discussões.

Esporte ainda é o calcanhar de Aquiles do jornalismo cidadão

Pode perceber: o esporte (digo o de alto nível, ou seja, aquele cujos direitos são loteados pelas emissoras de televisão) ainda é um setor em que o jornalismo cidadão não deu as caras. Em Copas do Mundo e Olimpíadas, por exemplo, é proibido aos espectadores inclusive tirar fotos do eventos ou fazer registros em vídeo.

Bem por isso a pobreza participativa do público em eventos dessa natureza _até grandes portais, quando planejam blogs de pessoas envolvidas na competição, são obrigados a recorrer a fotos frias para não morrer na praia.

Na África do Sul não deverá ser diferente. Participação, mesmo, só bem longe de onde estiverem sendo realizadas as partidas (e, mesmo assim, há vários locais “protegidos”, como hotéis e centros de treinamento).

O Global Voices, o projeto mais sério de jornalismo colaborativo, está tocando uma convocação paralela de cidadãos para o Mundial que começa no dia 11. Mas nada de bola: o que o site quer saber de seus colaboradores é qual o significado da Copa do Mundo para os sul-africanos que vivem em estado de pobreza e também para todo o continente.

O bug do cidadão-jornalista em eventos esportivos tem tudo para continuar intacto.

Enganado por agência de notícias, fotógrafo ainda é processado por difamação


Estava na cara que um dia isso acontecer: um fotógrafo está processando a AFP (Agence France Presse) porque a empresa se apropriou de uma imagem postada por ele no Twitter.

A foto em questão foi tirada por Daniel Morel (ele próprio ex-empregado da agência de notícias francesa) durante o terremoto do Haiti.

Redistribuída posteriormente pela AFP, perdeu o crédito de seu autor original _uma constante em colaborações do jornalismo participativo, repare como as agências rapidamente incorporam seus créditos e tiram o cidadão da frente  o quanto antes.

Morel, que tinha acesso a um mailing de assinantes da AFP, disparou um e-mail protestando contra a tungada que levou. Extraordinariamente, o feitiço virou contra o feiticeiro: agora a agência também o está processando, por difamação e danos morais.

Na defesa da companhia francesa, letrinhas miúdas do Twitter que eu reproduzo, na íntegra e em inglês, abaixo.

“(…) submitting, posting or displaying Content on or through the Services, you grant us a worldwide, non-exclusive, royalty-free license (with the right to sublicense) to use, copy, reproduce, process, adapt, modify, publish, transmit, display and distribute such Content in any and all media or distribution methods (now known or later developed)”.

Você já tinha lido isso em seu contrato com o Twitter? Pois é, basicamente o trecho diz que, publicado, um post não mais o pertence: você dá ao mundo o direito de usar aquilo do jeito que bem entender.

Só agora entendi porque Morel limpou seu Twitter poucas horas depois de divulgar essa imagem. Estava se desenhando uma história bizarra de apropriação indevida que, aparentemente, tem o suporte da plataforma tecnológica.

Mas nada que a boa e velha justiça analógica não resolva.

‘A invenção da internet é muito mais importante que a da imprensa’

Quando Arcadi Espada e Juan Varela se reúnem, claro que vêm reflexões boas sobre o trabalho jornalístico na internet.

Espada é taxativo: “Antes [do avanço tecnológico] se fazia um jornalismo pior”.

Sou bem partidário dessa tese, mas aplicada a tudo. Hoje é muito melhor do que ontem em qualquer aspecto.

Espada esculacha arroubos de nariz-de-cera em jornais impressos e critica a intenção de vários deles ao abordarem de maneira filosofal os temas do dia a dia. “A invenção da internet é muito mais importante que a da imprensa”, sentencia.

Varela também fez convites à reflexão. Primeiro: o jornalismo cidadão não existe. “Chega de confundir informação e jornalismo. Quem não se dedica profissionalmente ao jornalismo relata fatos na qualidade de fonte ou testemunha. Nunca como jornalista. A mediação jornalística é fundamental para esclarecer os fatos”. Para ele, nunca houve tanta desinformação sem reação do jornalismo formal”.

Leia mais sobre esse encontro que reuniu outros feras.

Uma imagem para resumir como nossa profissão mudou


Eu gosto muito dessa foto. Para mim, representa como poucas como mudou, para nós jornalistas, essa profissão maravilhosa.

Hoje temos a companhia de pessoas _de todas as pessoas, a rigor_ que estão lá, como a gente, testemunhando e difundindo fatos. Isso é muito saudável, oxigenou nosso ofício.

O lado ruim dessa história: não tenho informação alguma sobre a imagem acima, que suponho ter sido tirada em 11 de setembro de 2001.

Alguém tem?

ATUALIZAÇÃO: O Thiago Araújo resolveu o mistério, trata-se da cobertura cidadão da explosão de um gasoduto em Manhattan, em 2007

Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]“, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.

Jornalismo cidadão, colaborativo e participativo são diferentes?

Qual a diferença entre os jornalismos ditos cidadão, colaborativo e participativo?

Há tempos a tendência é jogá-los todos numa mesma cumbuca, como se fossem sinônimos. Ainda que, em 2005, Axel Bruns já tenha ensaiado uma diferenciação em seu instigante Gatewatching.

Numa classificação própria dos termos _que, em breve, será ampliada num trabalho em formato acadêmico (como se as ideias não bastassem…) _, modestamente sugiro debater o assunto.

O que é a participação ou a colaboração senão a inserção num processo já existente? Bem por isso considero que o jornalismo participativo e o jornalismo colaborativo são, realmente, sinônimos.

É quando o público, seja numa ação independente de crowdsourcing ou num site do mainstream que solicita envio de material específico, interfere claramente num processo que está de pé, atualizado e editado sob as regras da edição jornalística, não importa de onde venha o conteúdo, para construir uma narrativa lógica a descrever ou analisar um acontecimento.

O jornalismo cidadão não tem essa ordenação: caótico, representa o que pessoas publicam, seja em que instância on-line for (blog, Flickr, Twitter, Facebook etc), num movimento absolutamente disperso e dissociado pela rede, sem a preocupação de cooperar com uma cobertura formal _ainda que ela se aproveite desse despojamento.

A ideia é essa, em resumo.

Gostaria de debater mais sobre o tema com vocês.

Nova York credencia jornalistas ‘eventuais’

A decisão do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, de credenciar jornalistas independentes para ingressar em repartições e eventos promovidos sob a tutela do município é excelente do ponto de vista de democratização da informação.

Abrir portas para iniciativas individuais é reconhecer que o ato de apurar/analisar/difundir informação é direito fundamental da pessoa, um velho mantra deste site.

A credencial de NY tem uma condição: o postulante precisa provar que cobriu, nos últimos dois anos, ao menos seis eventos. Ou seja, tem de ter a partir de 730 dias de sanha jornalística nas veia (apesar de, na média, a exigência corresponder a três por coberturas por ano _um luxo para quem camela nas redações).

No meio acadêmico brasileiro, já houve quem levantasse a voz questionando o porquê de blogueiros receberem o “status de profissionais diplomados”.

Eu sigo questionando por que motivo um diplomado em jornalismo é, necessariamente, melhor do que uma pessoa qualquer relatando/analisando/apurando um acontecimento.

Não há embate entre blog e jornalismo, entre on-line e jornalismo, entre cidadão e jornalismo. Jornalismo todos nós fazemos todos os dias, e desde sempre. As facilidades trazidas pela tecnologia é que evidenciaram esse processo.

Magnum vende acervo para sobreviver (mas com a cabeça que a levou à ruína)

Aula de história: o desembarque das tropas aliadas na Normandia, no Dia D, numa tomada de Robert Capa

A Magnum, durante anos meca do fotojornalismo e que abrigou, em suas fileiras, nomes como Henri Cartier-Bresson e Robert Capa, vendeu seu arquivo para um bilionário americano que pretende vê-lo exposto na Universidade do Texas. São 200 mil positivos que custaram, estima-se, pelo menos US$ 100 milhões.

Pouco se falou sobre a motivação da negociação de tão valioso conjunto de fotos: a revolução digital quebrou a Magnum. Nascida e criada num mundo onde competia-se para ver quem gastava mais dinheiro numa pauta, a Magnum sucumbiu à oferta abundante de registros jornalísticos nos lugares mais remotos. Perdeu seu nicho para a colaboração em rede.

Com o capital extra, a Magnum enxergou uma chance de sobreviver. E eu pergunto como, se ainda acha que jornalismo é uma disputa pelo maior orçamento.

Eles não sabem o que dizem: jornalismo é uma disputa pelo seu quarteirão.

Vamos denegrir a mídia?

Bom saber que existem ONGs como o Instituto Mídia Étnica, dedicada, segundo ela própria, a realizar “projetos para assegurar o direito humano à comunicação e ao uso das ferramentas tecnológicas, especialmente para a comunidade afrobrasileira”.

No jornalismo, como de resto em toda atividade humana, a diversidade é fundamental para garantir o objetivo ainda maior, que é a pluralidade.

“Vamos denegrir a mídia”, diz o slogan do instituto, que promete “advocacy para diversidade na mídia, assessoria para organizações afro-brasileiras e media training para lideranças de movimentos sociais”.

Há também iniciativas semelhantes que tentam incluir indígenas, mas como somos uma coleção de raças, falta muito pra chegar nessa tão sonhada mídia étnica.

Aliás, diversidade na mídia se garante com inclusão digital. Hoje, todos somos a mídia. Basta ter acesso às plataformas adequadas, cada um tem a sua imprensa pessoal.

Visto por esse ângulo, o caminho é bem menos árduo.