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Inspire-se com boas ideias de produtos jornalísticos

Que tal, em vez de chorar sobre o leite derramado do fim da reserva de mercado no jornalismo brasileiro, se inspirar nas boas ideias agraciadas com as bolsas polpudas da Knight Foundation, anunciadas ontem?

Entre os projetos (nove) ganhadores, nota-se claramente uma crescente preocupação com a mescla entre apuração, armazenamento e interpretação de dados (sim, dados são jornalismo).

Chamaram a minha atenção o Document Cloud (iniciativa de jornalistas do New York Times), que se propõe a ser uma base de dados pública para enriquecer reportagens investigativas, o Media Bugs (ambiente onde o público pode relatar, acompanhar, discutir e ajudar a corrigir erros em matérias jornalísticas) e o Crowdsourcing Crisis Information (um mashup que combina relatos do jornalismo tradicional e de jornalistas cidadãos).

Lembrando que é um bolsa da Knight o projeto mais inspirador atualmente em curso: o Spot.us, no qual leitores votam em pautas sugeridas e fazem doações para que ela seja concretizada.

O exercício do jornalismo, definitivamente, não depende de um diploma específico. Boas ideias e formação pessoal poderão dar à profissão a oxigenação que ela merece e necessita.

O fim do diploma e o começo de outro jornalismo

A decisão do STF, que por 8 votos a 1 optou ontem pelo fim da exigência do diploma, é histórica e abre caminho para que, enfim, o ensino de jornalismo melhore e seus profissionais passem a constituir uma categoria _o que jamais existiu, com ou sem obrigatoriedade de canudo.

Comecemos pela repercussão: que triste constatar centenas de comentários de jornalistas diplomados tratando a questão meramente como “joguei quatro anos no lixo” ou “e os R$ 60 mil que paguei pelo curso, como ficam?”.

Sintomáticas, são frases que exemplificam porque o jornalismo está tão ruim. Quer dizer que desde sempre a questão foi tratada apenas como um trâmite, uma obrigação a se cumprir, como se a formação pessoal não contasse nada.

Pois bem: é exatamente nesse aspecto (o da formação) que eu vejo um futuro auspicioso.

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Gay Talese e o orgulho de ser jornalista

Afinal de contas, agora a formação prevalece sobre a imbecil reserva de mercado. E, para ser jornalista, você terá de se preparar de verdade. Não bastará cumprir (sabe-se lá em que nível) uma quarentena obrigatória de oito semestres para, ao final dela, chegar ao pote de ouro.

A mudança atingirá a universidade justamente no momento em que uma comissão de notáveis discute mudanças no currículo da graduação. Essa reformulação precisa ser mais aprofundada agora que a formação e especialização serão a moeda corrente _sim, as empresas seguirão dando preferência a quem entende do assunto.

Não consigo enxergar a extinção e o esvaziamento dos cursos de jornalismo no Brasil. Na Argentina, como contei no ano passado, tampouco existe obrigatoriedade de diploma e as salas de aula estão cheias. É assim nos Estados Unidos e na Europa também.

A formação do profissional, que sem dúvida é muito mais rápida na prática, tendo a redação como lousa e os velhos lobos como professores, continuará existindo na academia.

A diferença é que, agora, o portador do diploma não terá um passe para exercer automaticamente a profissão. Ou seja: a faculdade só poderá lhe fornecer informação, não o passe de papel. E as que vivem acenando com o passe, estas sim, estão seriamente ameaçadas.

Com a decisão do STF, preparar-se passou a ser o fim, não um incômodo entre aluno e salvo-conduto para trabalhar.

Prevejo ainda uma enxurrada de cursos de especialização no que você puder imaginar (jornalismo esportivo, político, econômico, cultural, oficinas de reportagem, texto etc.).  Aliás, já há vários projetos sendo preparados para 2010.

No quesito categoria profissional, o fim do diploma também traz consigo a oportunidade histórica de, finalmente, reunir os jornalistas numa categoria de verdade.

Qualquer argumentação sobre o fim da obrigatoriedade precipitar contratações irregulares, jornadas extenuantes de trabalho, não pagamento de horas extras, condições precárias de trabalho e quetais não colam.

Tudo isso já existe hoje, no mundo real. E sob a égide do diploma. O que leva o patronato a tratar os jornalistas como subempregados é precisamente a ausência de um espírito coletivo.

Vejo a suposta fragilização da profissão, após a decisão do STF, por outro ângulo: o fim da reserva de mercado, e a possibilidade de ingresso no jornalismo de profissionais com outras experiências inclusive no trato com os patrões, dão a todos nós a chance imensa de estabelecer outro tipo de relação com o empregador _e, quem sabe, atingir a tão sonhada categoria que discurso nenhum de sindicato conseguiu forjar.

Quem se habituou a ser tratado como gado, como os jornalistas diplomados, ganha uma ótima perspectiva com a companhia, agora oficializada, de gente que não está acostumada a essas relações de trabalho tão podres que foram construídas com a conivência de quem (eu, inclusive) deveria ter protegido o exercício da profissão.

Restringir o acesso a ela, como já sabemos, não funcionou.

ATUALIZAÇÃO: Já li dois excelentes textos nesta manhã sobre o fim da obrigatoriedade do diploma: o de Marcelo Soares “Se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas” e o de Rogério Christofoletti “Estudar não faz mal a ninguém” (as aspas foram escolhas minhas). Durante o dia, atualizo aqui com mais coisa legal.

Mais textos sobre a decisão do STF: “Não tenho medo de perder meu emprego para um sem-diploma” (Márcio Leijoto), “Existem duas visões que podemos adotar, a otimista e a pessimista” (César Valente) e “Muito barulho por nada” (Carlos Brickman).

Mais considerações sobre o diploma

Uma questão tem passado despercebida na discussão sobre a obrigatoriedade de um diploma em jornalismo para exercer a profissão: o fato de que as principais empresas jornalísticas do país (cito as Organizações Globo e os veículos do Grupo Estado, entre os quais o jornal O Estado de S.Paulo) exigem o pedaço de papel para contratar seus profissionais de redação.

Assim como não houve qualquer sinalização de mudança nessa postura, não haverá (garantem minhas fontes) alteração dessa exigência mesmo que o STF, seja lá quando for, pregue o caixão deste entulho autoritário que erroneamente é defendido como se fosse uma conquista _quando, na verdade, é uma prisão, uma masmorra.

Sim, para efeito do empregador, existir ou não obrigatoriedade é um mero detalhe. As empresas continuarão com o direito de exigir a formação que seja de seus jornalistas. Até mesmo de jornalismo, um curso (hoje, mas isso é passível de mudança) com bem menos profundidade intelectual do que vários outros.

Mesmo nas companhias menores, onde (dizem) se contrata a torto e a direito sem registro como jornalista (como se nos grandes portais de internet não ocorresse a mesma coisa).

Vou repetir que essa discussão deixou de ser importante a partir do momento em que a tecnologia deu uma imprensa pessoal para cada um. Quem quiser, faz jornalismo, não precisa nem ter ligação com a mídia dita formal.

Para encerrar com humor, então, uno-me à campanha do André Forastieri, que ironicamente pede a exigência de diploma de jornalista profissional para blogueiros. Aliás, o sindicato de jornalistas do Rio Grande do Sul já tinha levado essa proposta, como se fosse séria, a público.

Meu deus, que vergonha desses meus “colegas” de diploma…

ATUALIZAÇÃO: Ana Estela, no Novo em Folha, discorre claramente sobre a importância da formação do candidato a jornalista, não do tipo de papel que ele porta ao se apresentar numa redação.

Por que tanta gente quer ser jornalista?

Ricardo Kotscho comenta porque tanta gente quer ser jornalista. Pudera, é muito legal, adiciono. Durante anos, uma frase de Ziraldo foi meu mantra: “Eu não entendo como as pessoas podem ser felizes se não forem jornalistas”.

Legal que, logo de cara, Kotscho já se sai com “Claro, eu sei que com o crescimento das novas mídias eletrônicas ninguém mais precisa ter diploma nem emprego para ser jornalista, pois cada um pode fazer seu próprio jornal na internet.”

Essa é uma das sentenças com as quais mais concordo hoje em dia. Eu mesmo já disse, algumas vezes, que se tivesse essas oportunidades na minha época, provavelmente eu teria desenvolvido minha veia jornalística de cueca e em casa, sem jamais ter passado por uma redação ou faculdade do ramo.

Kotscho ainda fala de sua crença na sobrevivência do produto jornalístico impresso (eu também acredito nisso).

Enfim, é um texto de fôlego (na verdade, a transcrição de uma palestra) reproduzido pelo Comunique-se. E que num feriado pode cair bem como leitura incidental.

“Por causa do diploma, fui obrigado a cursar Jornalismo”

Brinquedo da Playmobil lançado em 1980, estúdio de TV tinha peças avulsas que permitiam a reprodução de situações jornalísticas, como microfones de mão

Brinquedo da Playmobil lançado em 1980, estúdio de TV tinha peças avulsas que permitiam a reprodução de situações jornalísticas, como microfones de mão

Dando uma olhada nos arquivos do Webmanario (aliás, alguém aí notou que caiu o acento do nome  do blog?), descobri que em pouco mais de um ano escrevendo neste espaço dediquei nada menos do que 12 textos à obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão.

Num deles, inclusive, fui bem explícito sobre o que penso disso.

Nos últimos dias, muito em função da iminente votação do mérito no Superior Tribunal Federal (STF), o assunto voltou à tona _e os mesmos e surrados argumentos também. E quem ousa defender veemente posição contra o diploma acaba virando vítima de comentários sarcásticos, tolos e infantis.

Muito bem. Então hoje eu vou contar a história de um garoto que desde que se conhece por gente queria ser jornalista. E que foi obrigado a cursar a faculdade de jornalismo por causa de uma imposição imbecil, perdendo tempo precioso que poderia ter sido aplicado em outra graduação, mais útil.

O contato com o noticiário na casa de seus pais era frequente e quase uma obrigação: rádio havia uns seis (um deles, fixo, no banheiro); revistas semanais, duas, assim como dois jornais impressos diariamente. A TV, constantemente sintonizada em telejornais.

Enfim, uma casa que sempre respirou notícia (apesar de, até então, não possuir um único representante familiar no jornalismo), que debatia em família os acontecimentos.

À medida em que ia crescendo, o garoto colocava em prática outros experimentos. Com um gravador (gigantesco) e um microfone de lapela (bem menor, mas ridículo comparado aos de hoje em dia), gravava entrevistas com vizinhos e parentes, narrava partidas de futebol (imaginárias e de botão) e criava programas de rádio que só existiam em suas fitas cassete, mas que pareciam chegar ao mundo.

Encantou-se com o Playmobil estúdio de TV, com peças avulsas que incluiam cameraman, minicamera, repórter e microfone (com pedestal ou na mão _ambos curiosamente wireless já naquele tempo ;) ).

Um pacote bem mais caro (e cobiçado) incluía um caminhão azul e branco que supunha ser o link móvel da emissora, o que comandava intervenções ao vivo.

Rapidamente os bonecos se reconfiguraram, e  palhaço com corneta que se vê na foto lá acima ficou desempregado. Só se fazia jornalismo naquela emissora.

No éter, havia ainda as ondas curtas (e, com elas, a possibilidade de desvendar como era o jornalismo em emissoras de rádio planeta afora). Foram madrugadas e madrugadas em busca da emissão de rádio, seja em qual língua fosse, mais distante possível. Falo do dexismo. Só quem sabe o que é o World Radio TV Handbook entende exatamente do que se trata.

Simultaneamente, o cidadão lá batucava _primeiro numa Olivetti verde, depois numa Remington bege emprestada da irmã, mais velha_ textos que, depois de devidamente recortados e “diagramados”, viravam jornais sobre eventos familiares e escolares. Com fotos (sim, o garoto também já tinha noção de que era preciso ilustar as suas matérias).

No colégio, foi editor, redator e repórter da gloriosa revista de cultura Ignobilis, cuja circulação sem periodicidade definida e de cinco exemplares passava de mão em mão no Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes.

Quando chegou o vestibular, já sabia o que fazer. História teria de esperar. Claro, para se trabalhar em jornalismo (uma atividade intelectual que exige basicamente observação e contato com o noticiário, além de conhecimentos específicos que um curso técnico de curta duração dá a qualquer um) era necessário ter o malfadado diploma.

Nosso personagem começou a trabalhar numa redação de jornal ainda no primeiro ano da faculdade. Ali entendeu, de verdade, os significados de termos como “descer”, “lide”, “cortar pelo pé”, entre centenas de outros.

Acumulou experiência. Terminou a faculdade. Trabalha há duas décadas na profissão que escolheu praticamente ao sair do berço. Virou até professor universitário de jornalismo.

Sim, esse moleque era eu.

Agora imagine essa história sem uma faculdade de jornalismo no meio. As coisas teriam sido muito diferentes? Mais: fosse hoje, na era da publicação pessoal, seria necessário começar num redação de jornal diário?

Não foi hoje…

A demora nas deliberações sobre a inscontitucionalidade de vários pontos da Lei de Imprensa (que não foi encerrada e também ficou para depois) fez o STF tirar da pauta de votações de hoje a deliberação sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.

A Fenaj tem mais informações, enquanto o Comunique-se cita que o controverso tema pode voltar à pauta amanhã.

Leia mais notícias sobre o assunto

É hoje: STF julga obrigatoriedade do diploma e Lei de Imprensa

Hoje, a partir das 14h, o (STF) Supremo Tribunal Federal julga duas matérias que têm tudo a ver conosco: a inconstitucionalidade de vários dispositivos da Lei de Imprensa e a obrigatoriedade de um diploma em jornalismo para exercer a profissão.

Reitero o que sempre disse: numa era em que qualquer cidadão desempenha a função, parece anacrônico ainda debater o tema. Afinal, apurar/analisar/difundir notícias é direito fundamental da pessoa.

As mídias do judiciário (TV e rádio) transmitirão a sessão. No microblog, a agência Radioweb anuncia a twitagem em tempo real. Mas vamos ver que bicho dá.

Enquanto isso, fique com Sérgio Lüdtke, um dos pioneiros da web no Brasil, que fala sobre ambas as coisas em texto muito lúcido na comunidade Interatores, que reúne o povo de mídias digitais.

O jornalismo sem jornalistas. E sem diploma.

Hoje apresentei no Unifai a palestra “O Jornalismo sem Jornalistas – Perspectivas para a Difusão da Informação do Brasil“. Um resumo dos passos que o jornalismo cidadão deu de 11 de setembro de 2001 até agora _a constatação, infelizmente, é que foram poucos.

Quando a gente fala de colaboração no Brasil, então, o cenário fica ainda mais trágico. A moderação, justificada pelo mainstream como indispensável, falhou todas as vezes que precisava agir. Ao mesmo tempo, a noção de notícia do público dito comum, pífia, não ajuda a relação a amadurecer.

Mais marcante ainda, porém, é a postura do jornalismo profissional, que segrega o colaborador-cidadão, o desconsidera, se nega a dialogar. Oferece pitadas de interação apenas para o caso de ser cobrado por isso.

Falamos ainda de diploma. E que o STF deve derrubar a exigência. Mas o jornalismo é uma função que tem um aspecto técnico (e litúrgico) muito forte. A queda da obrigatoriedade de se fazer um curso específico não exclui as especificidades da profissão. E o diferencial que a formação pessoal, aliada ao ensino acadêmico, podem fazer por ela.

A questão do diploma e os jornalistas militantes

A discussão sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo segue rendendo pano pra manga. O STF está na iminência (a quantos meses tenho escrito isso, meu deus?) de julgar a matéria.

A primeira coisa que me chama a atenção hoje, anos após o início da pendenga, é que a maioria das vozes que se levantam para discutir o tema _sejam elas de sindicalistas ou de acadêmicos_ partem seguramente de pessoas com minúscula atuação prática na área.

Alguns, mesmo com pequeníssima passagem por algo que se assemelharia a uma redação, batem no peito, posam de especialistas, dão sugestões e conselhos ao debatores. Coitadinhos.

Também concordo que a Fenaj, por pior que seja constituída sua diretoria (uma cambada de barnabés que mamam nas “assessorias” de órgãos públicos), deveria capitanear o processo de regulamentação e fiscalização da profissão.

Afinal, foi o desinteresse dos jornalistas militantes (não os de meia-pataca, de biblioteca ou de repartição pública) que propiciou o estabelecimento desta desordem vergonhosa que hoje representa os jornalistas brasileiros.

Talvez, com uma missão de verdade à vista, os processos eleitorais e de gestão dentro da Fenaj sejam encarados com seriedade por quem dedica seu dia ao trabalho jornalístico de verdade _os que metem a mão na massa, não os que vêem a massa em cima da mesa e, de barriga vazia, desandam a criticá-la sem propriedade alguma). Eu me incluo na crítica: sempre, em 18 anos de profissão, me recusei a participar dos pleitos da entidade nacional, mesmo tendo mais de uma década como profissional sindicalizado e em dia com suas obrigações financeiras _que é o que, no fundo, importa a estas instituições.

Pior é a própria Fenaj, que nesta segunda distribuiu nota aos professores de jornalismo brasileiros com o título cafona “Aos mestres, com carinho”, no qual insinua que sempre esteve por trás de projetos que visam melhorar a qualificação do ensino da disciplina. Outra mentira.

Repito aqui: o ensino de jornalismo nada tem a ver com a exigência ou não de um diploma para exercê-lo. Eu, assim como muitos de vocês, quero uma faculdade melhor, preocupada com a discussão acadêmica sim, mas dona de recursos humanos capaz de gerir as necessidades técnicas do ensinamento deste trabalho.

Senac também “ensina” jornalismo agora

No meio da discussão sobre a exigência ou não de um diploma específico na área para se trabalhar em jornalismo (que o STF está na iminência de julgar), agora é o Senac quem oferece o curso de graduação na área, a ser cumprido em quatro anos.

Segundo a instituição, seus formandos serão aptos a trabalhar em “jornais, revistas, editoras, portais e sites de jornalismo e entretenimento, redes de televisão, departamentos de comunicação de empresas, assessorias de imprensa, redator autônomo”.