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Estadão fatura mais um prêmio – merecido – de fotojornalismo

Depois de ganhar o Prêmio Esso, o jornal O Estado de S. Paulo faturou mais um concurso de fotografia (o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha) com a sensacional imagem de Wilton de Sousa Junior que mostra a presidente Dilma Rousseff descendo a rampa do Palácio do Planalto – e isso em agosto, quando denúncias de corrupção e superfaturamento atingiam mais um ministro de sua equipe (Wagner Rossi, ex-titular da pasta da Agricultura).

Essa é daquelas que a gente chama de fotaça.

África do Sul torna crime jornalismo investigativo

Reproduzo matéria publicada ontem pelo jornal “O Estado de S. Paulo”.

Preocupante, mas distante do tal “controle social da mídia” que, sabiamente, a presidente Dilma Rousseff engavetou em nosso país.

“O Parlamento da África do Sul deixou de lado objeções de líderes históricos da luta contra o apartheid e aprovou ontem, com maioria esmagadora, uma nova lei de sigilo que, segundo críticos, foi elaborada para proteger a elite corrupta do país do jornalismo investigativo. A nova legislação determina, por exemplo, pena de até 25 anos de prisão aos responsáveis pela publicação de informações de Estado consideradas sigilosas.

O partido governista Congresso Nacional Africano (CNA) usou sua maioria para garantir a aprovação por 229 votos a favor e 107 contra. Opositores da Lei de Proteção da Informação afirmaram que tentarão derrubá-la na Corte Constitucional, assim que o presidente Jacob Zuma sancionar o texto, como é esperado.

O críticos da nova lei, entre eles Nelson Mandela e o arcebispo Desmond Tutu, batizaram a sessão parlamentar de ontem de “terça-feira das trevas”, em alusão a uma lei similar contra a liberdade de imprensa aprovada nos anos 70, sob o apartheid.

Tutu, que recebeu o Nobel da Paz em 1984 por seu papel decisivo na luta contra a segregação racial, afirmou que, para os sul-africanos, “é vergonhoso pedir que aceitem uma lei que pode ser usada para tornar ilegais as denúncias e o jornalismo investigativo”.

Autorregulamentação, uma saída para melhorar os jornais

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) aprovou a adoção, por seus filiados, de uma série de medidas que ajudarão _e muito_ os veículos a se aproximarem mais de sua audiência (e, principalmente, se tornarem mais transparentes).

Medidas como a instituição do cargo de ombudsman (só Folha de S.Paulo e O Povo possuem essa figura importante para criar atalhos entre redação e leitores, além de importante filtro de controle de qualidade dos jornais).

A ANJ estabeleceu um prazo para que essas recomendações (entre elas, a criação de um espaço fixo com correções de reportagens, coisa que incrivelmente, entre os grandes, só a Folha possui) sejam adotadas.

Apesar de ter sido uma reação à ameaça do “controle social da mídia”, balela introduzida na agenda no governo Lula e que Dilma Rousseff deixou adormecer, se cumpridas, as medidas ajudarão a melhorar bastante a combalida qualidade de nossas publicações.

Eleição no Brasil reabilitou o e-mail, diz empresa americana

O relato do trabalho da Blue State Digital na campanha de Dilma Rousseff, revelado por Fernando Rodrigues, tem um ponto que é sensacional _e que, se verdadeiro, derruba um paradigma recente de uso de ferramentas digitais.

Lá pelas tantas, a empresa que ajudou Barack Obama a se eleger em 2008 conta que, nessa incursão em eleições brasileiras, “ao se conectar a mais de 1 milhão de pessoas, o programa de e-mail produziu mais tráfego [audiência] do que o Twitter, Facebook e Orkut [da campanha] combinados”.

É uma informação que vai de encontro a tudo o que se anda escrevendo, analisando e levantando sobre o uso do correio eletrônico.

Ora, se numa ação específica durante seis meses foi possível atrair mais gente a um site usando o velho conceito de newsletter do que agregando pessoas em redes sociais, está seriamente em xeque a afirmação de que caiu assustadoramente o uso do e-mail, objeto de pensatas ponderando que a ferramenta foi abandonada pelo público jovem em detrimento, justamente, da vida conectada em tempo real nas mídias sociais.

Cabe observar esse fenômeno com muito mais atenção a partir de agora.

Se for isso mesmo, não só o mail, como a newsletter, estão plenamente reabilitados.

2011, o ano pela liberdade de expressão

Não sabia, mas 2011 é o Ano pela Liberdade de Expressão, de acordo com a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa).

Venício Lima discorre, no Observatório da Imprensa, sobre os documentos que dão base a essa ideia.

Levando-se em conta que 2011 pode ser também o ano em que controlaremos o conteúdo de rádio e TV (é o que pretende o novo governo), essa discussão promete.

A internet e seu peso nas eleições 2010

Há autoelogio, incompreensão, incorreção e, pior, indigência científica nas belas palavras de Caio Tulio Costa na newsletter  Jornalistas&Cia sobre a qual falei na semana passada.

Caio Tulio dispensa apresentações: é um dos pioneiros do jornalismo on-line no Brasil e, antes disso, foi um dos pilares do projeto que levou a Folha de S.Paulo ao posto de principal diário impresso brasileiro, tudo nos anos 90.

Em 2010, coordenou a campanha de Marina Silva (PV) à Presidência, da qual ela saiu eliminada no primeiro turno com mais de 19 milhões de votos.

Desde então, Caio preparou uma apresentação em que sustenta que seu trabalho e o de sua equipe levaram o pleito para o segundo turno, num cenário em que Dilma Rousseff, enfim eleita na rodada final, beirou 47% dos sufrágios no momento do primeiro voto.

Nem as pessoas que trabalharam para eleger Barack Obama se sentem à vontade em dizer que “A internet fez Obama ganhar”, embora o sociólogo espanhol Manuel Castells defenda que, sem a rede, o presidente americano não ganharia.

Lembre-se que o SMS, o torpedo que por aqui é caríssimo e foi pouco utilizado por motivos óbvios, jogou um papel importante na disputa nos EUA.

Logo, ao se refletir sobre o caso brasileiro, sugiro considerar vários ingredientes. O prato principal depende da soma deles e da existência de um bom candidato, claro.

Daí a se ter uma percepção alentada do que houve depende de levantamento científico criterioso.

Caio Tulio, por exemplo, ignora o “jornalismo tradicional”, que flagrou a principal assessora de Dilma (furo de Veja, depois complementado pela Folha), matérias que propiciaram a queda de Erenice Guerra e da própria presidente eleita na reta final da campanha, como mostra uma animação bacana que fizemos relacionando pesquisas e notícias.

“Muito pouca coisa vinda da mídia clássica surpreendeu leitores, telespectadores, ouvintes ou internautas, levando-os a ter de fato uma visão mais consistente de tudo o que estava acontecendo no País, nesse campo, no período eleitoral”, escreve ele.

Ainda que “pouca”, a contribuição do jornalismo impresso foi definitiva. Uma ministra caiu, e o jogo eleitoral se modificou.

Não que a internet não tenha tido sua parcela de contribuição para uma votação que parecia decidida: o debate sobre o aborto _o momento mais torpe em anos nos processos eleitorais brasileiros_ revelou o lado B da rede, quando se disseminaram boatos e mentiras (em áudio, comento esta prática existente desde o princípio da humanidade).

“De um modo geral, os principais veículos, mesmo sem ficar necessariamente a favor do candidato José Serra, foram muito críticos em relação à candidata Dilma Roussef. E o resultado foi que Dilma se elegeu, a despeito dessa cobertura crítica”, argumenta Caio.

Claro, mas houve o segundo turno, exatamente o fator creditado à internet por ele. E, como vimos, mídia tradicional e publicação pessoal, mais engajamento na rede, tiveram participação nisso.

Dissociá-los dependeria de uma pesquisa muito bem conduzida, não apenas da opinião de um ou de outro.

O coordenador de Marina diz que se a mídia estivesse “atenta, antenada, teria percebido com nitidez os sinais emanados das redes sociais”, coisa que se sabia desde o princípio, no caso de Marina, e que concretamente tinha provocado um Plinio de Arruda de impacto _o candidato do PSOL causou buzz na web ao aparecer na TV, mas foi apenas isso.

Uma dúvida que não tenho sobre processo é que a internet, aproveitando um slogan eleitoral famoso, pode mais.

PS – Propositadamente dou links a vários textos e áudios de minha autoria durante 2010 para que possamos confrontar, afinal de contas, o que eu opinava na época

Análises sobre 2010

A edição especial da newsletter Jornalistas&Cia, que perscruta todas as semanas as coisas da nossa profissão, traz um balanço do ano que se pretende uma avaliação do desempenho da imprensa brasileira em 2010.

Muito do que deveria ser dito está lá.

É ótimo quando o decano Audálio Dantas, diretor de redação da revista Negócios da Comunicação, joga uma perspectiva diferente a respeito da discussão sobre o novo marco regulatório das comunicações, que Lula deixou claro ser uma missão primordial de Dilma Rousseff e seu partido, o PT, no próximo governo.

“Por que, em vez de tentar abater o projeto antes mesmo que ele possa levantar voo, não propor um amplo debate sobre seu conteúdo?”, convida Dantas, coberto de razão.

Carlos Chaparro, também nosso velho conhecido, destaca uma revolução na prática da profissão que vimos reforçada no ano que está terminando: a das fontes.

Claro, num tempo em que somos furados por nossos entrevistados, que têm acesso a ferramentas instantâneas de difusão de conteúdo (como a gente), naturalmente a atenção do jornalismo se voltou para instâncias pessoais de publicação.

Daí a explosão das redes sociais e de sua influência na pauta jornalística em 2010.

Uma opinião importante vem de Eugenio Bucci, agora claramente falando sobre a cobertura da eleição presidencial. “A sociedade não é, como nunca foi, manipulada pelos humores de editores de dois ou três jornais ou de duas ou três emissoras de tevê”

Acrescento: tem de parar esse patrulhamento insuportável sobre as mídias. Os mesmos que patrulham, aliás, são aqueles que dizem que várias delas perderam a relevância. Perderam, é? Então por que patrulham? Perderam, reitero. E que deixem de patrulhar.

Em breve falo mais sobre o capítulo eleições do último J&Cia.

Jornalismo investigativo e internet provocam mudança real

Na semana passada escrevi que a “onda verde” e o crescimento de Marina Silva, associado à campanha sobre o aborto (e contra Dilma Rousseff), tinham passado a sensação de que a internet, enfim, provocara algum tipo de ruído eleitoral com resultado concreto nas urnas.

Faltava, para isso, a realização de uma pesquisa que apontasse o que os indícios mostravam, comentei.

Pois a pesquisa foi feita, pelo Datafolha, e detectou que não apenas a internet triunfou na reta final da campanha presidencial, mas também o jornalismo investigativo _este, aliás, em maior grau.

Convenhamos, o jornalismo investigativo também chega ao eleitorado via web, o que significa um bônus para a rede.

Um dos recortes do levantamento dá conta de que os fatos que levaram à queda da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra (sucessora de Dilma), e também o escândalo do acesso a dados sigilosos na Receita Federal tiveram mais impacto na mudança de votos do que os temas religiosos.

O Datafolha também perguntou aos eleitores (mais de 3,5 mil em todo o país) se eles haviam recebido algum tipo de mensagem eletrônica que desabonasse algum candidato.

Num universo de 56% do eleitorado brasileiro que acessam a internet, 14% disseram ter recebido correntes com boatos de toda espécie.

Porém foi a investigação jornalística quem teve papel mais importante na mudança do voto, ou seja, na alteração concreta de uma situação real.

As duas informações são auspiciosas, de toda forma.

Na reta decisiva, internet parece ter produzido ruído eleitoral

Se não foi capaz de amenizar totalmente a sensação de irrelevância da internet no processo eleitoral brasileiro, a última semana de campanha exibiu ao mesmo tempo o lado bom e o mais baixo da rede que conecta pessoas.

Ainda que restrito a redes sociais específicas (como Twitter e Facebook), é impossível não notar que o movimento a favor de Marina Silva (a “onda verde”) se acentuou na web precisamente no momento em que a candidatura da verde, enfim, decolou e saiu da estabilidade.

Simultaneamente, ressurgia a velha tática terrorista-cristã, agora espalhada via e-mail e Orkut, principalmente, associando a candidata petista Dilma Rousseff a uma suposta disposição de relaxar os dispositivos legais que coibem o aborto no país, assunto que provoca urticária no eleitorado religioso.

Nos dois casos, os movimentos nascidos na internet parecem ter promovido algum resultado concreto nas urnas _só um levantamento entre os dois grupos de eleitores (os de Marina e os religiosos) é capaz de assegurar o que os indícios mostram.

Ações do gênero, que mudam o rumo de eleições, sempre houve, e isso muito antes da internet. Lembro de 1985, quando FHC titubeou ao responder num debate na TV se acreditava em Deus.

Dias depois, São Paulo amanheceu forrada de cartazetes com os dizeres “Cristão vota em Jânio”, que acabou sendo eleito prefeito, virando uma eleição quase perdida.

A diferença daquela época para hoje é que as campanhas não tinham as mesmas armas de contrainformação que dispõem hoje, quando a facilidade de publicação na rede praticamente deu uma imprensa para cada cidadão.

Marcelo Branco e sua “guerrilha virtual”, contratados pela campanha petista para fazer esse trabalho na internet, nem se deram conta.

(versão revisada de texto meu publicado na edição de ontem da Folha de S.Paulo)

Quando dois concorrentes se complementam

Aconteceu na sexta-feira: tema de editorial da Folha de S.Paulo foi simultaneamente matéria em seu principal concorrente, O Estado de S.Paulo.

A Folha criticou a proibição de acesso público aos processos nos quais Dilma Rousseff foi ré durante a ditadura.

Exemplificou com o caso americano, onde candidatos (seja a qual cargo for) estão expostos a todo tipo de escrutínio e muitas vezes abrem espontaneamente seus arquivos pessoais. É cultural e considerado normal.

Ao mesmo tempo, Patricia Campos Mello, no Estadão, detalhou como funciona essa devassa consentida nas vidas dos postulantes a cargos públicos.

Uma feliz complementação.