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Livro analisa mudanças que a tecnologia impôs ao jornalismo

Numa era em que o avanço tecnológico deu uma imprensa particular para cada um, é impossível falar de jornalismo on-line sem abordar a participação do público.

O fim da fronteira entre mídia formal e a ex-plateia, como muito bem teorizou Jay Rosen (professor da Universidade de Nova York), é apenas um dos aspectos que a jornalista Magaly Prado aborda no livro “Webjornalismo”, lançado nesta semana pela Editora LTC.

Apesar de muitos jornalistas não terem percebido que seu trabalho mudou com a vida em rede, é óbvio que instâncias pessoais de manifestação (como os blogs) e a capacidade de vigilância e mobilização que a internet proporcionou às pessoas tornaram o fazer jornalístico um exercício de conversação.

Vivemos a época dos “‘produsers” _o termo é uma junção de produtor e usuário e foi cunhado em 2005 por Axel Bruns, autor de uma obra importantíssima para se compreender a transformação da profissão, “Gatewatching”, jamais traduzida para o português.

Com proposta didática e voltada para a sala de aula, Magaly discorre sobre essa nova e auspiciosa fase do jornalismo profissional, agora tocado a muitas mãos.

Mas é claro que a internet, onde a colaboração entre profissionais e amadores é muito mais evidente, também abriga práticas de jornalismo, digamos, tradicionais.

Com linguagem fácil e fragmentada (às vezes, fragmentada até demais), Magaly aponta boas práticas, mostra caminhos adotados no país e no exterior e, por meio de depoimentos de importantes profissionais da web brasileira (algumas vezes sem edição e publicados na íntegra), refaz a trajetória da plataforma desde 1995, quando desembarcou comercialmente por aqui.

Com cerca de 150 imagens, quase todas impressões de tela, o livro de Magaly também discorre sobre a chegada do iPad e sua influência na produção de conteúdo.

Ainda faltam, em português, obras que consigam abarcar toda a complexidade que a rede trouxe para o jornalismo. Mais difícil ainda é resumir, em papel, as vastas possibilidades do meio on-line nesta profissão tão antiga. O livro de Magaly é, nesse aspecto, uma boa tentativa.

WEBJORNALISMO
AUTORA Magaly Prado
EDITORA LTC
QUANTO R$ 40 (272 págs.)

(resenha que publiquei na edição de sábado da Folha de S.Paulo)

O jornalismo debatido e construído com os leitores

“A audiência também produz conteúdo e o distribui de forma muito mais eficaz e influente que qualquer outro jornalista”.

Quem fala isso é um jornalista, Jean-Francois Fogel, pioneiro do jornalão francês Le Monde na internet.

Pra gente parar de achar que é uma “bobagem” o diálogo redação-leitor via redes sociais _principalmente, mas carta e telefone ainda são válidos, apesar de mais demorados.

Felizmente estou na linha de frente de ótimos experimentos práticos neste campo (em breve, notícias aqui). E posso atestar, dia após a dia, a importância dessa relação.

Fogel lembra que o “conteúdo referenciado”, ou seja, o recomendado de amigo para amigo, tem hoje fatia importante como drive de audiência dos sites jornalísticos.

Você não sabe o que está perdendo ao ignorar esse público.

Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]“, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.

Três análises sobre comentários em notícias on-line

Coincidência ou não, saíram quase juntos do forno três análises bacanas sobre o comportamento de jornalistas e consumidores de jornalismo diante da possibilidade de comentar e administrar comentários de notícias on-line.

O mais importante, o do professor Jeff Jarvis, que exorta os jornalistas a definitivamente dividirem com o público anseios e insights, inserindo as pessoas no processo antes e durante a confecção de uma reportagem, e não depois, como costuma acontecer.

Da Espanha vem um estudo com conclusões interessantes: não há diálogo entre os internautas, pelo menos aqueles que comentam notícias nas versões on-line dos jornais impressos. É pequeno o número de usuários que intervêm mais de uma vez, assim como os que corroboram os argumentos dos outros. A presença de insultos é pequena (isso difere da realidade brasileira), mas a desqualificação _de outros leitores, do autor da notícia, dos protagonistas do fato ou do próprio meio de comunicação_ é altíssima.

Por fim, Robert Niles e uma máxima: “se você não consegue administrar os comentários, simplesmente não os ofereça”.

Previsões para 2010: esqueça o diploma de jornalismo

Uma informação a quem carrega, para 2010, esperanças no Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que restitui a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão: o governo Lula já trabalha com a informação de que o contrabando será vetado liminarmente pelo mesmo STF que já havia expurgado essa herança maldita.

A estratégia desse povo agora, e sob a luz da Confecom, aquela aberração, é conseguir uma espécie de casuísmo no Ministério do Trabalho, onde se registrariam os profissionais de jornalismo, o que possibilitaria, claro, a realização dos desejos persecutórios do grupo político que agora está no poder e que, estivesse na oposição, combateria até a morte essa espécie de ditadura mal posta e mal discutida.

O público, e o caldeirão da conversação, ainda é o melhor tribunal da mídia (formal ou social). E há ainda os códigos Civil e Penal, para punir os abusos. Não precisa mais. Tenha caráter, e isso basta.

‘As empresas não são o jornalismo’, diz correspondente veterano

Ex-correspondente do espanhol El Pais em Londres, Paris, Nova York, Washington e Roma, Enric González, 50, é um sábio.

Olha só o que ele disse ao receber um importante prêmio jornalístico das mãos do príncipe herdeiro em seu país. “Não dá mais para confiar nas grandes empresas, elas têm outros interesses. Os jornalistas é que deverão se organizar em cooperativas, sociedades, o que for, para continuar fazendo informação. As empresas não são a imprensa”.

Lapidar.

Tudo bem que, na sequência, ele protesta contra as “vozes desconexas” da web, uma insinuação ao suposto “caos informativo” advindo do uso cada vez maior da rede.

Nesse ponto, meu querido González, não vai ter jornalista que segure.

Ele diz ainda que o jornalismo do futuro será aquele que os jornalistas quiserem. Outra bobagem: será o que o público quiser. Já é assim, é inexorável. Ou não haveria editores de mídia social pululando em tantas redações, não é mesmo?

Mas a noção de que pessoas são maiores que as instituições, essa sim está corretíssima.