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A redação mais cara do mundo

Um vídeo que só pode ser publicitário mostra aparentemente dois editores comandando uma rede de correspondentes conectados e até uma editoria “sem fio” (para assuntos mobile) numa cobertura sobre caos aéreo global.

Difícil fazer uma estimativa, ainda que grosseira, de quanto custaria uma redação tão diligente e com tanto apoio alhures.

Fato é que essa redação ficcional certamente seria a mais cara do mundo. Mas que eles trabalham bem, não há dúvida.

ATUALIZAÇÃO: o Gilson Pôrto Jr. avisa nos comentários que já expandiu a informação sobre o vídeo, o que ele representa e mais: que talvez uma redação assim não seja tão cara, ou melhor, que seu trabalho seja vendido a um preço bastante alto, bancando sua onipresença.

El Pais desiste da separação de corpos e funde papel e on-line

O jornal espanhol El Pais (muito relevante globalmente, ainda mais considerando-se sua idade _faz 34 anos em 4 de maio) decidiu fazer aquilo que tinha descartado: unir suas redações em papel e on-line, ainda que numa integração física forçada, bastante comum hoje.

Claro, a integração física é a mais fácil de se fazer. Basta quebrar paredes e acomodar as pessoas perto umas das outras. Debater o que cada uma vai fazer (e com qual prioridade, eis o mais importante)… ah, deixa pra lá.

“Agora o El Pais é um só”, garante Gumersindo Lafuente, diretor adjunto do jornal com clara missão de fundir e tornar complementar os conteúdos dos dois suportes.

A fórmula inicial é batida: o “mesão”, uma central nervosa da redação, com editores e repórteres experientes alimentando o site e, ao mesmo tempo, discutindo o desdobramento que os assuntos devem merecer nas páginas do dia seguinte. É um formato que, via de regra, descamba para o burocrático (e para o inevitável burro encostado na sombra).

A favor de Lafuente conta o passado no Soitu.es, meio nativo digital que agitou o jornalismo espanhol por 22 meses, entre 2007 e 2009, e fechou as portas por falta de capitalização. O jornalista levou consigo para o El Pais outros 11 colegas que desfrutaram daquela aventura na web _ressalte-se que a crise no jornalismo, impresso ou eletrônico, é muito mais evidente em países que já se desenvolveram, caso da Espanha.

Quando dirigia outro importante periódico espanhol, o El Mundo, Lafuente era um ferrenho defensor da separação de corpos: on-line pra cá, papel pra lá. Tudo em nome da defesa da “identidade” de cada plataforma.

Ramón Salaverría e Samuel Negredo falam muito sobre isso no livro “Periodismo Integrado“, no qual analisam oito casos de integração de redações (poucos levaram à convergência, o orgasmo da fusão de suportes no jornalismo).

Mas é certo qe não existe fórmula pronta: depende da quantidade de entusiastas da internet e de características e aspectos culturais de cada empresa. Uma coisa, porém, é certa: precisa querer fazer.

Você quer?

A convivência forçada de uma integração de redações

O que acontece quando um grande jornal resolve integrar suas equipes on-line e off-line, e o povo do papel toma conta do produto?

Às vezes, coisas muito ruins, como o choque de culturas que o Washington Post vive exatamente neste momento.

Recentemente, dois dos maiores jornais do Brasil, Folha de S.Paulo e O Globo, decidiram integrar fisicamente suas redações, movimento que já havia sido feito anos antes por O Estado de S.Paulo.

Em todas, porém, aparentemente cada equipe segue trabalhando a sua maneira. Não é o ideal, mas nota-se boa vontade.

No Washington Post, a integração está sendo bem mais traumática. Papel e on-line viviam em mundos totalmente separados (inclusive em prédios distintos separados por um rio) e foram forçados a conviver juntos.

Essa história vai longe.

O jornalismo que transcende o papel

elpais_colombia_multimidia

Um veículo modesto, bem longe da badalação do homônimo rico e congêneres; Uma ideia de trazer conceitos mais vanguardistas ao surrado jornalismo nosso de cada dia. É o que basta.

O El Pais, de Cáli (terceiro maior jornal da Colômbia), inaugurou um canal para, segundo o próprio periódico, impactar a audiência “a nível gráfico, visual e jornalístico”.

Basicamente, propostas de novas narrativas jornalísticas. Um nome pomposo, que tenho usado sempre, mas que significa apenas deixar um pouco de lado a ditadura do texto e explorar outros recursos da web (todos, como vídeo, áudio, grafismos etc). A fórmula aqui é até surrada (a história de 11 personagens da noite calenha), mas isso pouco importa.

Se o El Pais daqui faz, com a estrutura que você já pode imaginar, a gente também consegue. Nem que seja pelo institucional, é obrigatório ter experiências assim em nossos veículos.

E há gente bastante importante no Brasil que, infelizmente, ainda está com o pé no freio quando a conversa vai para esse lado de fazer algo que transcenda (e ao mesmo tempo valorize mais) o papel.

Onde estão os fotógrafos, que fogem do papo da convergência?

Por que a fotografia não participa com a mesma intensidade das discussões que nós, jornalistas de texto e de infografia, há tantos anos, travamos sobre as mudanças que a tecnologia impôs ao exercício da profissão?

Mais: qual motivo leva o gestor de uma integração de equipes a não levar em conta (ou exigir) a participação do fotógrafo no processo? Quer dizer que o trabalho mudou para todo mundo, menos para ele, o “retratista” (como dizemos nós, os canetinhas)?

Digam-me o que leva a fotografia a ser a única plataforma de narrativa jornalística a não ter se preocupado com novas formas de contar uma história, a nem mesmo ter se animado a incentivar seus profissionais a fazer vídeos, tarefa cobrada do povo do texto, mas jamais discutida com quem, de fato, tem muito mais afinidade com a “nova” atribuição do profissional multimídia?

E editar slides (ou galeria de fotos, como queira) com coerência editorial e objetivo de complementar o fato descrito em texto?

Tudo que eu estou afirmando acima, é claro, tem suas exceções. Mas é notório que o engajamento das editorias de fotografia, e aqui falando exclusivamente de jornalismo, tem sido pra lá de pífia. É como se não tivesse a ver com a história, com as novas habilidades exigidas do jornalista. Virou uma função à parte, vivendo num espaço que não existe mais.

A versão francesa da revista on-line Slate notou exatamente isso. Que o fotógrafo abraçou, em causa própria, o domínio do tratamento (ou manipulação, em português sempre fica mais severo) de imagens, uma característica da era da tecnologia.

Mas abandonou todo o resto.

O fotógrafo, via de regra, não dialoga com o público e desempenha uma única função. A mesma que fazia quando a imprensa em papel possuía a monopólio da informação e ditava as regras.

Nem mesmo velhos conceitos característicos da web, como o uso de imagens em tamanho menor que as versões impressas _um convite a novos enquadramentos e edição (o famoso “corte”)_ estão claramente absorvidos.

Mas tudo isso vale só para a redação. No âmbito pessoal, estrelas do Flickr e do Facebook, eles tendem sempre a ser melhores do que no dia a dia. Parece que entendem, no âmbito pessoal, a mensagem dos novos tempos.

Com a palavra, os fotógrafos.

Correio Braziliense faz a lição de casa da convergência

Em plena quinta-feira, uma cabrita vira contracapa do caderno de cidades: a fórmula contra o hardnews do Correio Braziliense

Em plena quinta-feira, uma cabrita vira contracapa do caderno de cidades: a fórmula contra o hardnews do Correio Braziliense

O Correio Braziliense fez bastante bem a lição de casa da convergência de conteúdos de suas edições impressa e on-line em seu novo projeto gráfico, que estreou no mês passado. A análise que se segue tem como base a edição de quinta-feira (30/7/2009).

A promessa de relativizar o “aconteceu ontem”, ou seja, o que já foi divulgado no dia anterior pelo site do veículo, não é levada a ferro e fogo. A retranca “GDF recorre ao STF para ter financiamento”, segundo texto em importância na página 30, é prova cabal: foi publicado pela versão eletrônica não no dia anterior, mas em 28/7, via feed da Agência Brasil.

Aconteceu anteontem: notícia 'velha' também ganha protagonismo na edição impressa

Aconteceu anteontem: notícia 'velha' também ganha protagonismo na edição impressa

A aposta em conteúdo difenciado, promessa do diretor de redação, Josemar Gimenez, se comprova na contracapa do caderno de Cidades, a cargo do side “Drica, a cabrita que reina“, história sobre animal querido e “tratado como gente” em Ceilândia do Norte.

“O momento de mudança é agora. Temos que apresentar um diferencial para o nosso leitor. Não podemos nos limitar a reproduzir em nossas páginas o que aconteceu no dia anterior. Vamos priorizar a exclusividade do conteúdo”, diz Gimenez em texto divulgado pelo Correio na ocasião da estreia da reformulação.

A rigor, o hardnews se restringiria à seção “Deu no www.correiobraziliense.com.br”, espalhado pelo jornal impresso. Porém é conteúdo que, de fato, não mereceria mais do que simples notinhas.

Por outro lado o jornal também está produzindo, a olhos vistos, bem mais suítes do que seus concorrentes, prática que anda bastante esquecida na imprensa brasileira. A suíte é outra alternativa, além de matérias frias, para a fugir ao relato do dia anterior a que parecem condenados todos os jornais do planeta.

Há também muitas remissões no produto impresso para conteúdos multimídia no site, prática que se reconhece ineficiente mas, no âmbito institucional, é absolutamente necessária.

É difícil mesurar qual a quantidade de leitores do jornal que, incentivados por um link publicado no produto, corram à web para complementar a informação lida pouco antes. O jornal espanhol El Pais já fez uma interessante experiência ao publicar, no jornal, url que permaneceu escondida na versão eletrônica e, teoricamente, só podia ser acessada por quem tinha lido a notícia impressa. Num universo de 400 mil leitores do periódico em papel, apenas cinco (isso mesmo) tiveram a curiosidade de explorar o material suplementar na rede.

Conteúdo remissivo a dispositivos móveis: nada novo, mas ainda ousado

Conteúdo remissivo a dispositivos móveis: nada novo, mas ainda ousado

A incorporação de recursos como o QR Code, que apesar de não ser inédito provoca sempre uma boa sensação de se que está na vanguarda, é outro ponto alto do projeto.

Curioso que algo tão novo e ainda pouco explorado conviva com o velho conceito de hiperlink impresso, ou seja, palavras destacadas que, via fio, levam a mais conteúdo _diga-se, usada como solução de legenda de foto (e só), funciona muito bem.

O “uso intenso de peças gráficas e infografias”, promessa do release de lançamento da reformulação, não foi notado: havia uma única infografia em toda a edição de 30 de julho de 2009. E isso que o jornal, que sempre priorizou este item, reforçou o time da edição impressa cooptando até mesmo o único designer que tinha designado para servir à edição on-line.

Com altos e baixos, como tudo na vida costuma ser, o Correio Braziliense começa bem essa incrível aventura de repensar o jornal diário. Agora queremos saber quem serão os próximos a ousar.

Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debatem o jornalismo

A convite da CBN, Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debateram os destinos do jornal impresso (e, consequentemente, do jornalismo) no programa Notícia em Foco, que vai ao ar sempre às segundas, às 19h.

O tema foi a sustentabilidade do negócio jornal.

Bucci imagina um mundo em que as empresas jornalísticas serão sustentadas “pelo menos em parte” por seus leitores. Motivo: manter a independência do veículo (quer dizer então que até hoje ela nunca existiu de fato?). Rossi diz que uma mudança desse tipo levaria mais tempo do que os anos que ainda têm a viver _ele tem 66.

O tema nada mais é do que um desdobramento do micropagamento, a bobagem lançada nos últimos meses como um último apelo pela grande imprensa _especialmente a dos EUA e Europa, esta sim verdadeiramente ameaçada de extinção. Mais do que o micropagamento, a doação (ainda inviável, por questão cultural e burocrática, no Brasil).

Sobre a produção jornalística colaborativa on-line, o colunista e repórter especial da Folha de s.Paulo deu um exemplo bizarro. “Se um blog me recomendasse, digamos que no dia 14 de setembro do ano passado, que eu investisse em ações do Lehman Brothers, quem eu iria processar?” (a falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é apontada como um dos estopins da crise financeira global).

Não entendi, porque eu tampouco teria respaldo jurídico para processar um jornalão que fizesse o mesmo.

Ou teria?

Bucci, professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e com um vasta experiência no mainstream como jornalista, bateu muito na tecla do financiamento público do jornalismo _pelo público, não pelo poder público.

Falou-se também do polêmico blog Fatos e Dados, com a qual a Petrobras decidiu vazar conteúdo de reportagens ainda em andamento. Seu pleno direito, diga-se de passagem. A argumentação, por sinal, é excelente.

Até o microblog, quem diria, foi parar na conversa. “O meu papel não é gritar que caiu um avião. É dizer porque caiu o avião”, encerrou Rossi. “Contando calmamente, no ouvido do leitor”.

Convergência para quem precisa

A convergência de conteúdos não é uma receita que serve para todos. Assim como nem todo mundo quer/gostaria/pode desempenhar multitarefas multimídia.

É uma sensação que me acompanha há tempos. Antes de fazer, você precisa saber o que e como fazer.

O professor holandês Piet Bakker reforçou a ideia num encontro recente em Barcelona (inclui slides).

Para ele, a convergência (ou seja, pensar e entregar conteúdo planejado em conjunto, mas para várias plataformas) é apenas mais um modelo de negócio, não uma religião que deve ser seguida a qualquer custo.

“A integração de redações sem um modelo de negócio definido e uma maneira de convencer as redações certamente não é a solução ideal. Ao contrário, pode levar a mais gastos, um processo lento de tomada de decisões, descontentamento na equipe e, consequentemente, prejuízo financeiro”.

Bem por aí.

Leia também: Nós não precisamos de manchetes

Reiventar o jornalismo ou o jornalista?

Reiventar o jornalismo. Expressão que já virou clichê e sobre a qual poucos realmente se debruçam. É mesmo necessário? O termo correto é realmente “reiventar”? Só o jornalismo impresso precisa ser reiventado? O jornalismo on-line, então, já está posto, definido e bem criado?

Não é bem assim, mas muitas vezes a gente não percebe. Mas é notório que ainda existe um subtratamento (no papel e na web) às possibilidades trazidas pela tecnologia.

Londres vai discutir o tema em 10 de julho, no encontro News Innovation London. Segundo um dos organizadores, Martin Moore, é a chance de debater possibilidades concretas, não conjecturas.

Falando ainda mais claro: o que se propõe aqui é juntar jornalistas e programadores (mas pode chamar de nerds) que tenham ideias legais e úteis. Às vezes, quando jornalista e nerd são a mesma pessoa, as coisas ficam mais fáceis.

Sim, trata-se também da boa e velha reportagem assistida por computador (RAC ou CAR, na sigla em inglês). Uma série de programas e mashups que, bem alimentados, apresentam a informação em formato e perspectiva diferentes.

Curioso que, há poucos dias, a revista Time se perguntava se os nerds poderiam fazer alguma coisa pelo jornalismo. Já estão fazendo, falta aos jornalistas perceberem o quão prático e proveitoso para o leitor/usuário pode ser essa faceta da interpretação e apresentação de dados.

Mas é claro que não é só isso.

Os caminhos do jornalismo passam também pela gestão da produção colaborativa de informação. Os exemplos a serem debatidos em Londres são o projeto My Football Writer (basicamente uma rede de correspondentes amadores em pequenos clubes em East Anglia, uma região da Inglaterra) e rede investigativa “Ajude-me a apurar”, do Channel 4, bastante aberto à conversação, essa dádiva da era da publicação pessoal e da troca instantânea de informação.

Há ainda a necessária administração de mídias sociais (que é, hoje, onde o povo está na internet).

Todo o resto, os preceitos, todas as receitas que conhecemos como exemplos de bom jornalismo, estão preservados.

Falta reportagem? Sim. Falta investigação? É claro. Faltam clareza e acuidade na redação de textos? Quem acha que sim levante a mão. Tantas coisas faltam hoje ao jornalismo impresso.

Mas será que elas já não vinham faltando quando a internet nem sequer existia?

Pensar o jornalismo como um processo, não como uma plataforma, é tão difícil assim?

Leia também: O jornal vai dormir internet, e a internet acorda jornal

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

(este post teve as colaborações de @leogodoy e @rsbarai)

Quando o jornalismo é um jogo

O Online Jounalism Blog traz um post caudaloso sobre uma tendência de convergência que já vínhamos observando desde o ano passado: o uso de games on-line como complemento ao noticiário _o newsgaming.

O texto cita o pesquisador Nick Diakopoulos, da Georgia Tech, para quem os jogos ajudam o usuário a ter uma compreensão mais ampla do significado e das causas de determinados acontecimentos.

É um mercado que, não duvide, crescerá _e muito_ nos próximos meses. Um investimento se as redações on-line quiserem estar sintonizadas com as mudanças impostas pela tecnologia.