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O desafio do 1º jornal brasileiro só para iPad

Com noticiário basicamente colhido em outros veículos, pela internet, e agências de notícias que pululam na própria rede, que diferencial poderia ter o jornal Brasil 247 (os números significam as 24 horas do dia, sete dias por semana), o primeiro veículo brasileiro exclusivo para iPad?

Comandada pelos jornalistas Leonardo Attuch e Joaquim Castanheira e a reboque de um investimento de R$ 4 milhões, a publicação terá um árduo trabalho em busca de uma identidade única que a faça ser desejada (e baixada) pelos leitores.

É, diga-se de passagem, o grande desafio do jornalismo atual em meio ao oceano de informação.

2011, o ano pela liberdade de expressão

Não sabia, mas 2011 é o Ano pela Liberdade de Expressão, de acordo com a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa).

Venício Lima discorre, no Observatório da Imprensa, sobre os documentos que dão base a essa ideia.

Levando-se em conta que 2011 pode ser também o ano em que controlaremos o conteúdo de rádio e TV (é o que pretende o novo governo), essa discussão promete.

Há vida fora da redação

Eu costumo dizer que se no meu tempo houvesse as armas tecnológicas de hoje, que nos deram uma capacidade de difusão de informação praticamente no mesmo patamar das corporações jornalísticas pré-estabelecidas, jamais teria ido parar numa redação.

Paul Bradshaw cristaliza isso ao sugerir que os novos jornalistas não devem esperar uma oportunidade, mas criar as suas.

Submeter-se a um grupo crítico e de confiança (seus nós numa rede social, por exemplo) colabora bastante com o progresso profissional.

Hoje a imprensa somos nós, qualquer um publica.

Mas somos o que opinamos e divulgamos.

Resumo: o conteúdo ainda é o que vale.

Dentro ou fora do mainstream.

A socialização de conteúdo

Muito (praticamente tudo) do que consta nesta apresentação de Sérgio Lüdtke eu chancelo.

“A importância das mídias sociais para o jornalismo, otimização dos sites para facilitar o compartilhamento de conteúdos e o que está mudando na forma como acessamos informações”, é o resumo da conversa do editor da revista Época.

Mesmo sem sua presença (indispensável, aliás), pelos slides dá para ter uma boa ideia do que ele (e eu) estamos pregando há um bom tempo.

Finalmente um golpe de mestre dos jornais

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) anunciou sexta-feira no Rio, no encerramento de seu congresso anual, que está negociando com agregadores estímulos para que os internautas busquem notícias diretamente nos sites que os hospedam.

“Nossa meta é buscar formas adequadas de remuneração de nossos conteúdos, para que o jornalismo de qualidade continue a desempenhar o papel que tem e sempre teve em sociedades democráticas”, disse Judith Brito, presidente da entidade.

Como seriam essas “formas adequadas”? Ainda não sabemos ao certo, mas discute-se a redução dos textos exibidos em agregadores (como o Google News) e critérios de indexação que consigam distinguir entre o que pode ou não ser exibido por meio do Protocolo de Acesso Automático a Conteúdo.

Toda essa discussão, direitos autorais à frente, sempre teve como pano de fundo a sobrevivência dos jornais. A novidade, agora, é que os agregadores aceitaram negociar.

Se os jornais conseguirem ganhar dinheiro com algo que claramente ajuda a promover seu conteúdo, terá sido um golpe de mestre.

Nenhum estímulo para alcançar a fonte original de uma notícia pode ser maior do que o agregador (que, com frequência, possui audiência várias vezes superior aos veículos que se incomodam em aparecer neles).

Quem paga a conta no mundo do conteúdo grátis?

No mundo do grátis, quem paga a conta do conteúdo, pergunta Michel Lent.

Veja apresentação e pense no assunto. É um debate complexo e bem interessante.

Voltamos logo ao assunto.

A web morreu, sentencia a Wired

Aplicativos móveis e redes sociais são a nova world wide web, sentencia a revista Wired.

É uma discussão pertinente sobre as maneiras que acessamos conteúdo agora.

A navegação direta na rede pode ser substituída pelo uso de aplicativos que têm como base a recomendação social e a qualidade do acesso direto a várias funcionalidades _sem passar pelo revolucionário invento de Tim Berners-Lee.

O conteúdo continua na internet, mas está cada vez menos na web.

Juan Varela, que sabe bem mais do que eu, explica direitinho.

Agregadores na berlinda: de novo, o medo dos grupos de mídia

Afinal de contas, o que é um agregador de notícias senão uma forma de promover e facilitar o acesso a conteúdo jornalístico?

As empresas de comunicação, sempre atrasadas, insistem na tese que de ferramentas como o Google News estão usurpando seus produtos _quando a verdade é que a excelência de um buscador como o desenvolvido pelo Google está justamente criando mais oportunidades para que esse mesmo conteúdo seja visto em sua fonte original.

Não que o Google seja um santo, claro. O simplismo de um diretor da empresa ao comentar a polêmica é reveladora. Afinal, a companhia também se beneficia _no mínimo com pageviews_ da função de agregar conteúdo alheio.

“O Google News não é uma fonte de negócios e, portanto, não há faturamento para dividir com os meios de comunicação. O grande benefício não é apenas para os usuários, mas também para a mídia, que consegue muito mais audiência graças ao trabalho de nosso buscador”, diz Luis Collado, big head do Google na Espanha (onde a companhia realiza 90% das operações de busca _no mundo, essa taxa cai para 66%).

É discussão pra mais de metro, mas nessa, com todos poréns, novamente estou contra os grupos de mídia, que se desesperam ao ver oportunidades criadas totalmente a sua revelia. E, pior, combatem ideias que podem ajudar seus negócios.

‘O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ter algo a dizer, e com estilo único’

Paco Sánchez é um das poucas pessoas que realmente dá para chamar de mestre. E não apenas porque ele é professor de jornalismo (tive o prazer de ser seu aluno no Master em Jornalismo Digital Multimídia, no ano passado _sua disciplina, Planejamento de Conteúdos, valeria um semestre inteiro).

Paco também é diretor editorial do jornal espanhol La Voz de Galicia e tem bastante a dizer sobre a espécie de “crise de conteúdos” que estamos assistindo no jornalismo, em geral, e no on-line, especificamente, num momento em que todos os sites se parecem bastante entre si.

O diagnóstico de Paco é preciso. “O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único”. E como encontrar esse estilo? Leia a conversa que tivemos recentemente.

Paco, você defende que os portais de internet tiveram uma má influência sobre o menu dos sites jornalísticos em geral. Explicando isso melhor: você acredita que a competição por audiência leva sites menores ou “independentes” a, em alguma medida, apenas replicar o conteúdo alheio para não parecer desatualizado?
Eu acho que alguns jornais perderam, na internet, a identidade que têm no papel. Isto é grave. Claro que afeta principalmente os jornais com menos recursos, mas também alguns grandes. Se você se guiar apenas pelas páginas mais vistas, por estratégias de SEO, pode cometer erros absurdos. Por exemplo, é possível que as dez matérias mais acessadas de um jornal sejam superficiais, frequentemente frívolas, replicadas de agências internacionais ou capturadas em outro lugar.

Se quem gerencia o conteúdo se deixa levar por esses resultados e programa mais matérias parecidas, está cometendo dois erros simultâneos de percepção: seu público não chegou ao jornal por causa daquele conteúdo e o usa apenas como passagem (“vejo o noticiário do time de futebol local e aproveito para clicar nessa matéria da Britney Spears”). O que atrai o leitor é informação diferenciada. Se seu objetivo era ler sobre Britney Spears, provavelmente ele entraria em outro site, mais específico, com o qual não poderíamos competir. Se, apesar de tudo, o objetivo do usuário era Britney Spears, provavelmente caiu em nosso site através de um motor de busca. É, portanto, um leitor puramente aleatório, com o qual dificilmente podemos construir uma audiência estável. Então,se nós seguirmos este tipo de estratégia, só conseguiremos visitas hoje, e fome amanhã. E o pior: alguns periódicos de papel começaram a permitir que os resultados de acesso de sua edição on-line passassem a influenciar a agenda de conteúdos na edição impressa. A última gota.

Outro de seus mantras é que nós, jornalistas, não devemos procurar a audiência, mas ao contrário: pela qualidade e originalidade de nossos conteúdos, as pessoas virão até nós. Primeiro que eu adoraria tê-lo como chefe (risos). Sério, como se equilibra isso? Eu não posso manter um site que ninguém acessa. Isso significa que é importante saber o que os usuários querem, certo? Ou não, o jornalismo profissional deve saber quais são as notícias mais relevantes e não pode viver ao sabor da preferência do público?
Estava me referindo mais ao meio, como corporação, dos que aos jornalistas individualmente, ainda que de certa forma seja possível aplicar o conceito também. Em geral, a grande mídia nasceu de uma pessoa ou um grupo de pessoas que tinham algo a dizer e ecoou em uma audiência grande ou importante. Se o processo for ao contrário, raramente funciona.

Sempre lembro que Roberto Civita dizia que, primeiro, imaginava a revista que queria fazer, a que agradava a ele, e só depois começava a fazer pesquisas. O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único. O sucesso da The Economist é muito bem explicado a partir dessa perspectiva.

Há também exemplos no sentido oposto: no final do ano passado, houve alguma celeuma entre o público do jornal diário espanhol El Pais porque o diário criticou fortemente o governo socialista. Não era o que esperavam muitos leitores, embora o veículo estivesse certo, e alguns até mesmo chegaram a expressar o descontentamento emmento

público de uma forma muito significativa: “Este não é o meu ‘País’”. Com a identidade não se brinca.

Se estamos aguardando apenas o parecer volúvel que nos chega através de pesquisas de marketing, o destino mais provável é uma identidade confusa ou diluída e os termos se invertem: já não somos alguém que tem algo a dizer, e a audiência deixa de precisar da gente. A crise de tantas revistas noticiosas tradicionais tem a ver, em parte, com um processo dessa natureza.

Palavras suas: um jornal impresso tem valor por cerca de quatro horas. O que pode ser feito nas outras 20h para manter o público interessado? Você se lembra de exemplos de jornais que estão otimizando suas operações em grande parte através de intervenções nas suas edições digitais (editorial e produto)?
Com essas palavras o que eu quis dizer é que quase 100% dos exemplares diários impressos são vendidos quatro horas depois de publicados. O resto da venda é marginal. Isso não significa que as informações contidas no jornal expirem. Na verdade, minha proposta é encontrar maneiras de continuar lucrando com todo o volume de informação que continua a ser válida e útil em sua grande maioria.

A indústria do audiovisual entendeu isso muito bem desde o início, com alguma frequência amortiza investimento ou até mesmo começa a gerar lucros quando o filme estreia nos cinemas, mas ela passará anos tirando partido do produto, seja na TV paga, na TV aberta, no pay-per-view, no mercado de DVD etc.

Já existem muitos veículos que utilizam seu conteúdo impresso, aparentemente defasado, para agregar valor à edição eletrônica ou revendê-lo de outras maneiras: não só o The New York Times ou CNN, mas também meios pequenos já são capazes, por exemplo, de converter seu cartunista em uma marca ou vender as fotos do dia.

Cobrar por conteúdo pode fazer vender mais jornal?

O NYTPicker, blog crítico à cobertura e aos procedimentos do The New York Times (que eu recomendo, é insider total), formulou uma tese interessante sobre a decisão do jornal de cobrar por conteúdo on-line a partir de 2011.

A medida exclui, você sabe, os assinantes da edição impressa (inclusive os de final de semana), que terão acesso full à versão na web.

Na versão do Picker, aparentemente o NYT pretende ampliar a carteira de assinantes da edição impressa. O site pergunta: “Por que não assinar e receber o jornal em casa, ganhando de bônus o acesso ilimitado ao on-line?”

Tem um buraco nessa estratégia _se é que se trata de uma estratégia. Os atalhos, também citados pelo Picker, para suavizar o paredão que o jornal norte-americano está construindo. O acesso é livre quando o link provém de mecanismos de busca e sites de redes sociais.

O Picker conclui dizendo que a cobrança por conteúdo on-line não passa de tentativa de vender mais papel. E faz uma constatação: apesar de toda a excelência de seu conteúdo on-line, o jornal ainda conta com o poder da versão impressa para sua subsistência.