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Comentário sobre os comentários

“As pessoas precisam ser detidas”, me disseram certo dia. E eu, conversando informalmente com um amigo que toca blog corporativo, aparentei estupor pelo fato de no site dele os comentários serem publicados sem moderação. Como assim, sem moderação?

As pessoas precisam ser detidas, sim. E o comentário é livre até onde vai a compreensão de liberdade do dono espaço.

Ótimo debate capitaneado por António Granado _lembrando que, como sempre, é na caixa comentários que a discussão ocorre de verdade.

Falta um gerenciador de discussão

Praticamente seis meses depois que constatamos o despreparo (e o desinteresse) dos sites jornalísticos brasileiros em abrigar a opinião de seus usuários, a discussão sobre os comentários segue viva no jornalismo on-line.

Desta vez foi o jornal argentino La Capital, de Rosario, que decidiu suprimir a caixa de comentários que tinha sido disponibilizada em todas as notícias. O motivo, segundo nota publicada no próprio site, é que “amparados no anonimato, [usuários] utilizaram esta valiosa ferramenta de participação para a ofensa gratuita, o insulto e a falta de respeito”.

Ou seja, o jornal jogou o sofá fora.

No Brasil, vimos que não há a opção de comentar toda e qualquer matéria porque os portais simplesmente não têm gente suficiente para moderar as opiniões de seu público e excluir os insultos que tanto incomodaram o periódico argentino. Neste caso, optaram por interditar o sofá: ele está lá, mas nunca 100% disponível.

Não precisamos ir muito longe para decretar que, pelo que se vê nos sites de todo o mundo, a palavra do leitor está longe de ser uma “valiosa ferramenta de participação”. Sheila McClear chegou a defender abertamente, no Gawker, que os jornais não devem permitir interferência dos leitores. “Jornal não é blog”, decreta ela, para quem o produto não é lugar de conversação.

Polêmico, para não dizer anacrônico.

A argumentação gira em torno de bobagens que leitores perpetraram jornais afora e toca num ponto em que é difícil discordar: em sua maioria, as pessoas simplesmente não têm o que dizer (isso vai ao encontro do que prega o enfant terrible Andrew Keen em seu Cult of the Amateur).

“Moderar comentários não é uma solução, é perda de tempo”, afirma Sheila.

Minimalista, Mike Masnich dá aquela que eu considero a palavra definitiva sobre o tema num brevíssimo post do Techdirt: “Não existe nenhum indicativo de que alguém, nor jornais, lê os comentários. Os próprios autores dos textos raramente, se o fazem, respondem aos leitores. Não há engajamento algum nas discussões”.

Talvez o ponto seguinte, diante desse impasse, é pensar a figura do moderador no jornalismo on-line não apenas como um filtro para deletar imbecilidades, mas como um gerenciador de discussão, mobilizando a conversa para um, para outro ou para todos os lados.

A função eliminaria essa incômoda sensação de que a opinião do público não é levada em consideração, além de, efetivamente, estabelecer o diálogo tão necessário entre veículo e seu leitor.

Comentários sobre os comentários

A caixa de comentários, canal fundamental de diálogo na Web2, está na berlinda. Artigo da revista Time aborda o problema de forma frontal: vítimas de sua audiências, blogueiros e sites perderam o controle sobre o que dizem as pessoas que visitam suas páginas.

O texto de Lev Grossman dá exemplos de idiotices comentadas em redes sociais como Flickr e You Tube, cita o problema do anonimato na rede (já abordado neste Webmanário) e fala, com todas as letras, o que ninguém gostaria de ouvir: que hoje os comentários existem apenas porque significam tráfego (ou seja, audiência), não necessariamente para estabelecer uma via de conversação.

Ao mesmo tempo, o portal do “Estado de S.Paulo” anunciou uma correção de rota em sua política para ceitação de comentários (que demonstramos, em sala de aula, ser inexistente). Agora, todos deverão passar pelo crivo de um editor antes de ir ao ar.

Daí, é o tal círculo vicioso: quanto mais participação dos usuários, menos tempo hábil para habilitar as opiniões. É por essas e por outras que praticamente todos os portais noticiosos restringem a participação de seu público: por falta de tempo e pessoal para apertar o botão.

Comentários sem moderação e moderação nos comentários

Vimos na aula de hoje que em sites como G1 e Folha Online a opção “comente esta notícia” não está disponível de forma clara e em todo o noticiário simplesmente porque os sites NÃO TÊM GENTE suficiente para ler os comentários e aprová-los.
No Estadão, em que a opção aparece em TODAS as notícias, descobrimos hoje que não há qualquer tipo de moderação. Curiosamente, apesar de alguns comentários terem demorado a ir para o ar, mesmo palavras chulas ou referências desairosas ao próprio site acabaram publicadas. É o que nos revela a caixa de comentários da notícia PF prende líder de esquema de venda de diplomas pela internet.É o eterno desequilíbrio. Enquanto uns têm cuidado demais e impedem o acesso e a participação do leitor, outros têm cuidado de menos _sob a aparente capa de uma democrática participação da audiência. Portanto, cuidado com o que escrevemos num fórum público…
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