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O que fazer com os trolls

Uma das coisas mais velhas da internet – e contra a qual conseguimos evoluir pouco ou nada para combater – é a praga dos trolls.

Dolores Vela discorre um pouco sobre a motivação destas pessoas em estragar de caixas de comentários e perfis em redes sociais com intervenções impróprias.

A triste conclusão: a adesão de trolls é uma admissão de sucesso. Eles não aparecem em sites que estão às moscas.

A terceirização dos comentários em sites

António Granado alerta para texto do Nieman Lab sobre uma novidade: a mídia tradicional começa a experimentar a terceirização da moderação de comentários em seus sites, essa praga quase impossível de administrar e, ao mesmo tempo, fundamental para aprimorar a conversação e participação do público.

Uma empresa canadense já faz o serviço, que garante ser “personalizado”.

Ainda sobre a pobreza da participação do público no jornalismo formal

Cresce a manifestação da imprensa formal sobre a participação do público no noticiário, notadamente por meio de comentários (como observei outro dia).

E vai se estabelecendo o consenso de que ela (a participação do público) é muito ruim.

Agora foi a vez do decano Clóvis Rossi, repórter especial e colunista da Folha de S.Paulo, se referir ao “lado lixo da internet” em coluna publicada esta semana pela versão on-line do jornal.

A grande questão dos comentários é que eles não servem para absolutamente nada se não forem lidos e triados pela redação.

A opinião dos leitores não deveria apenas ajudar a melhorar as notícias escritas por profissionais, mas também trazer informações importantes sobre seus anseios e avaliação do material que o próprio veículo publica.

Para isso, seria necessário um pelotão. Só a Folha recebe 150 mil comentários mensais, número que saltou para 400 mil no período eleitoral.

É impossível e, na maioria dos casos, inútil tentar estabelecer qualquer diálogo.

Infelizmente.

‘A internet é o penico do mundo’

Ao responder esta semana a comentários de seus espectadores num programa ao vivo, José Trajano, diretor de jornalismo dos canais ESPN (um dos primeiros veículos a entender e abraçar a necessidade do diálogo com o público), reclamou da intolerância diante do contraditório.

“As pessoas não sabem mais conviver com a opinião contrária”, afirmou.

Trajano (íntegro e relevante em nossa profissão, registre-se) falava de futebol, ambiente apaixonado que o remeteu à  campanha eleitoral recém encerrada, para ele “aquela guerra na internet, acusações desenfreadas”.

Concordo, mas o problema é anterior à vida em rede. Pessoas são precipitadas, não analisam o conjunto do discurso e, abrigadas numa trincheira tecnológica qualquer, se tornam ainda mais destemidas.

Há um desequilíbrio no diálogo público em que estamos metidos.

No mesmo programa Trajano também disse que “a internet é o penico do mundo”, como antes fizeram Fausto Silva e muitos outros colegas _a opinião é recorrente no meio, e quero deixar claro que a subscrevo.

Os jornalistas ainda achamos que a participação dos consumidores de notícias também precisa melhorar.

Jornal cobra para leitores comentarem em site

É bizarro, mas um bom teste: o jornal Sun Chronicle, de Attleboro (EUA), passou a cobrar a taxa única de US$ 0,99 para leitores que quiserem comentar as notícias de seu site.

O pagamento tem obrigatoriamente de ser feito em cartão de crédito, o que garante a identificação de 100% dos comentaristas. Certamente um ambiente mais seguro, mas menos parecido com a internet.

Rafael Sbarai vê autoritarismo e precipitação na estranha medida.

De tão estranha, aliás, acho mais prudente observar a adesão a ela _e o resultado prático na excelência do conteúdo da caixa de comentários, reconhecidamente baixo na maioria dos veículos que trabalham com notícias e interagem com seu público.

O passo pode sugerir um sinal, também, de que comentários são tão relevantes que é possivel vendê-los como se fossem classificados.

Por sinal, há quem use (e com bastante frequência) o espaço para promover links. Pagaria por isso?

O manual de redação do Estadão para seus leitores-comentaristas

No instante em que o jornalismo on-line rediscute o que fazer com os comentários dos leitores (e há quem sugira simplesmente limar toda opinião que não seja identificada por nome completo e RG), reparo nas regras do Estadão on-line para admitir a participação dos leitores no noticiário.

Mais que regras rígidas, constituem verdadeiro seguro contra comentaristas aloprados que, por motivos óbvios, sejam moderados ou mesmo excluídos das instâncias de discussão num site _nessas ocasiões, os delinquentes da palavra costumam recorrer a bandeiras como ‘liberdade de expressão’ para denunciar o que consideram ‘censura’.

Com regras claras, essa bobagem não cola.

Os 20 Mandamentos do jornal para seus leitores-articulistas:

Será considerada infração, a publicação de conteúdo:

1. Ilegal

2. Abusivo

3. Ameaçador

4. Nocivo

5. Obsceno

6. Profano

7. Difamatório de qualquer pessoa ou instituição

8. Discriminatório de credo, raça, condição social ou orientação sexual

9. De Incitação a atos ilícitos

10. De Incitação à violência e/ou ao crime contra pessoas, instituições, países ou a patrimônio público e privado

11. Capaz de ferir a reputação de pessoas ou organizações

12. Que configure Plágio

13. Produzido por terceiros, sem a reprodução autorizada

14. Considerado Spam ou correntes de mensagens

15. Transmissão de ou que leve a locais com material de potencial destrutivo como vírus, worms, cavalos de tróia

16. Propaganda de produto ou serviço

17. Campanha política

18. Falso ou fraudulento

19. Violação do direito de propriedade de uma pessoa ou empresa

20. Que fingem ser de autoria de outra pessoa, famosa ou não

Três análises sobre comentários em notícias on-line

Coincidência ou não, saíram quase juntos do forno três análises bacanas sobre o comportamento de jornalistas e consumidores de jornalismo diante da possibilidade de comentar e administrar comentários de notícias on-line.

O mais importante, o do professor Jeff Jarvis, que exorta os jornalistas a definitivamente dividirem com o público anseios e insights, inserindo as pessoas no processo antes e durante a confecção de uma reportagem, e não depois, como costuma acontecer.

Da Espanha vem um estudo com conclusões interessantes: não há diálogo entre os internautas, pelo menos aqueles que comentam notícias nas versões on-line dos jornais impressos. É pequeno o número de usuários que intervêm mais de uma vez, assim como os que corroboram os argumentos dos outros. A presença de insultos é pequena (isso difere da realidade brasileira), mas a desqualificação _de outros leitores, do autor da notícia, dos protagonistas do fato ou do próprio meio de comunicação_ é altíssima.

Por fim, Robert Niles e uma máxima: “se você não consegue administrar os comentários, simplesmente não os ofereça”.

A insanidade dos trolls ativistas políticos

A polêmica atuação do delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz no Caso Satiagraha deu mais uma demonstração exemplar de que um estudante francês, Nicolas Kayser-Bril, foi muito lúcido ao cunhar o texto “A economia dos comentários“. Neste caso me refiro às reações desproporcionais a postagem de Fernando Rodrigues sobre o tema.

Em resumo, para Kayser-Bril, quanto maior o número de respostas a determinado artigo na Internet, maior a chance de haver ruído, mediocridade e a nefasta aparição de trolls, esse personagem estúpido da Web que veio ao mundo apenas para ofender e desestabilizar qualquer tentativa de conversação.

Neste caso específico, é o ativismo político que está por trás dessa proliferação de trolls. Mesmo ativismo, por sinal, que vitimou outro jornalista, Vinicius Torres Freire, quando ele “ousou” tecer críticas a Lula. Nessa hora, um pelotão de maria-vai-com-as-outras emerge na caixa de comentários com a ofensa como único, digamos, argumento. São eles que dão embasamento a teses como a espiral do silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, pela qual os detentores de opiniões minoritárias se calam por receio de represálias da horda dominante.

Por isso tenho demonstrado aqui tanta preocupação com a necessidade de um gerenciamento de discussão nos portais noticiosos para, além de encaminhar e manter o debate dentro do limite do racional, poder filtrar e eliminar do convívio on-line os intoleráveis inimigos da liberdade de expressão. Essa gente guia o pensamento de quem vem em seguida, e o resultado é este aí que está posto: estrume em forma de comentário.

Faz muito tempo que a popularidade e relevância de um site (ou blog, ainda que seja blog apenas na nomenclatura _os blogueiros de botique são inúmeros, inclusive o próprio Protógenes) deixaram de ser medidos pelo número de comentários na página. Afinal, como pontuou corretamente nosso estudante francês, tudo o que essa avalanche de palavras produz é ruído e mais ruído, com direito a um lugar automático na lata de lixo do ciberespaço.

A incapacidade dos trolls ativistas de fazer sinapses é latente. Para eles, quando um repórter negocia com suas fontes a publicação de reportagens, é sinal de que ele está comprado (para citar dois exemplos, fiquemos com as repórteres Andréia Michael e Lilian Christofoletti, da Folha de S.Paulo, outras vítimas de toda sorte de insanidade verborrágica dos comentaristas profissionais da Internet).

São esses mesmos trolls políticos (supostamente politizados) que notabilizam outros trolls, estes ainda mais perigosos, pois são os que tomam a iniciativa de tornar públicas suas opiniões destrutivas e via de regra forjadas apenas para fomentar mais ódio e debate vazio.

Comentário sobre os comentários

“As pessoas precisam ser detidas”, me disseram certo dia. E eu, conversando informalmente com um amigo que toca blog corporativo, aparentei estupor pelo fato de no site dele os comentários serem publicados sem moderação. Como assim, sem moderação?

As pessoas precisam ser detidas, sim. E o comentário é livre até onde vai a compreensão de liberdade do dono espaço.

Ótimo debate capitaneado por António Granado _lembrando que, como sempre, é na caixa comentários que a discussão ocorre de verdade.