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Inócua, ciberperseguição ao WikiLeaks revela ignorância do poder

A ciberperseguição a Julian Assange e seu WikiLeaks chega a ser tão perturbadora quanto reveladora ao escancarar que os governos realmente não compreenderam a internet e a completa inutilidade de tentar controlá-la.

É quase o mesmo efeito dos próprios papéis diplomáticos que o site se propôs a vazar, que apenas confirmam o que já se imaginava sobre o funcionamento da diplomacia internacional.

A disputa de gato e rato entre Assange e aqueles que querem o seu pescoço só traz à tona o que já desconfiávamos havia bastante tempo.

Quando o sociólogo espanhol Manuel Castells, provavelmente o maior pensador contemporâneo da vida em rede, afirmou que os governos têm medo da internet porque não possuem controle sobre ela, acrescentou que a tentativa de fiscalização sempre estará entre as prioridades do poder político.

Basta lembrar da China, que mais do que um poderoso (porém sempre contornável) firewall que tenta impedir o acesso a páginas específicas, tem um verdadeiro batalhão de barnabés para pescar palavras-chave e censurar, o quanto antes, manifestações indesejáveis.

Em vão: a rede é um mundo composto de múltiplas vozes e alternativas onde não há patrão ou mandachuva.

No caso do WikiLeaks, é ainda mais risível a tentativa de expulsá-lo da rede.

Ora, a partir do momento em que a ONG fez parcerias com grandes grupos da mídia tradicional para dar mais repercussão e credibilidade aos papéis que conseguiu com exclusividade, sua própria presença na internet, como um site devidamente estabelecido numa URL, deixou de ser necessária.

Além disso, como já está acontecendo, basta Assange estalar os dedos para que um número incontável de pessoas se disponha a abrigar o conteúdo que tanto desconforto tem provocado no meio político e diplomático.

Para quem acha que a internet não tem regras, eis uma delas: não mexa com comunidades conectadas, porque você irá perder.

Experimente tentar tirar do ar uma página hospedada no Uzbequistão, por exemplo. É melhor esquecer.

Sites-espelho, aqueles que meramente reproduzem conteúdo, existem desde o começo da web _e não vão acabar por um decreto de um governo poderoso qualquer.

É outra certeza que o Cablegate deu ao mundo: a ignorância do poder quando o tema é a vida em rede. Coisa que a gente já desconfiava, não é mesmo?

(O texto acima, de minha lavra, foi publicado na edição de ontem do jornal Folha de S.Paulo)

Um dos maiores momentos da ética no jornalismo

Paulo Beringhs, da TV Brasil Central, pede permissão ao senador Demóstenes Torres para denunciar censura de seus patrões ao programa que apresenta, ao mesmo tempo em que indica o colega ao lado como conivente e seu potencial substituto.

Um resumo das razões pelas quais escolhemos essa profissão.

Fiscalize a consulta pública sobre o marco regulatório da internet

Está aberta até o dia 23 a consulta pública sobre o Marco Civil Regulatório da internet no Brasil.

Importante a participação de todo mundo que usa a rede. Afinal de contas, são essas propostas que ajudarão a definir as “regras propostas para garantir direitos, determinar responsabilidades e orientar a atuação do Estado no desenvolvimento da rede mundial de computadores”, como diz o site da iniciativa.

Vem muita polêmica por aí e, como no geral esse tipo de consulta é dominada por movimentos alinhados ao atual governo, proposições absurdas de controle de conteúdo e vigilância “social” da mídia certamente entrarão de contrabando, ajudando a tornar a consulta, em princípio séria e fundamental, numa comédia pastelão.

Mais do que participar, vamos fiscalizar e denunciar a sanha de pessoas que querem limitar nossa profissão, esquecendo-se que ela já está sujeita às penas prevista pela legislação penal e cível.

Comentário de leitor vira pretexto para controle da web na Venezuela

A censura cibernética, com um batalhão de “espiões” que perscrutam a web e eliminam ou bloqueiam conteúdo indesejado (como ocorre na China e no Irã), não parece ser suficiente para ameaçar a liberdade na internet.

Na Venezuela, país há muito afastado dos princípios democráticos, um comentário de leitor num portal de notícias foi usado como pretexto para a criação de uma comissão para controlar a web.

“Os meios de comunicação devem contribuir para a formação do cidadão e paz pública” é o trecho da Constituição citado pela Câmara para justificar a decisão.

O pepino foi a publicação da (falsa) informação da morte do ministro de Obras Públicas e Habitação, Diosdado Cabello, e do apresentador de TV Mario Silva. Tudo numa caixa de comentários que, algum tempo depois, foi moderada _a mensagem foi excluída, e seu autor suspenso permanentemente.

Subjetiva, a decisão do Parlamento fala em “punir quem não cumpra a lei”, e pede que se investigue os sites que usem de forma “indevida e antiética” a web.

Mais um passo para ameaçar a liberdade de expressão.

Briefing do Google em Davos: um pouco de tudo

Passei batido pelo briefing que o Google fez na semana passada em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, com alguns poucos que cobrem mídia e tecnologia. Jeff Jarvis, professor da Universidade de Nova York e que escreveu um livro sobre a empresa, estava lá.

Pela companhia, foram o CEO, Eric Schmidt, o presidente de vendas, Nikesh Arora, a gerente de busca, Marissa Mayer, o fundador do YouTube Chad Hurley e o consultor David Drummond.

Eles revelaram coisas bacanas sobre os planos da empresa para dar maior transparência ao AdSense, China (nada assertivo, mas indicativo de que caminha-se para o fim da operação local), reputação, inovação, dispostivos móveis e a economia (“A recessão já ficou bem para trás”, disse Schmidt).

Isso você lê lá no relato do Jarvis (ou no de Alan Rusbridger, do Guardian).

Eu fiquei especialmente interessado no trecho da conversa que tratou da relação com os jornais. E o Google verdadeiramente parece muito disposto a ajudá-los a sobreviver na crise e ganhar dinheiro, mas com uma condição: “Nós dependemos de conteúdo de alta qualidade”, disse o CEO.

A ideia é meio óbvia: aumentar o interesse por notícias e, com mais gente mais tempo on-line, ampliar os ingressos de publicidade. Para isso, os publishers “precisam levar as notícias à soleira digital da porta da casa dos usuários”, nas palavras de Marissa.

Com muitos jornais ainda enxergando o Google como um predador, esses planos parecem utopia.

Palavra de filósofo: transgressão presumida é notícia e deve ser publicada

Artigo publicado ontem pelo filósofo José Arthur Gianotti no Estadão responde, em parte, ao estupor que eu e demais colegas sentimos quando, numa aula de direito da comunicação, o professor praticamente sugeriu que a imprensa só devesse entrar numa história após toda a etapa de investigação policial concluída.

“Mas seria o fim do jornalismo, nunca mais publicaremos nada”, pensamos e dissemos.

Gianotti concorda. Ao discorrer sobre a absurda censura ao Estado de S.Paulo atrelada ao caso Sarney, ele dá uma opinião definitiva sobre o tema.

“[A mídia] não existiria se apenas informasse casos constatados e julgados. Um jornal não se confunde com um boletim científico ou um jornal oficial. Obtida uma informação interessante, cabe ao jornal publicá-la; obviamente assumindo os riscos se ela for exagerada, se informar além do intervalo aceito pelos costumes e pela jurisprudência.”

Mais, e especificamente sobre o caso da censura ao jornal: “Suponhamos que a Justiça decida e mantenha a proibição. Permanece a informação sobre transgressões presumidas. Ora, essa presunção ainda é notícia e deve ser publicada pelo jornal. Não como um fato ocorrido – isto o Estado está proibido de dizer -, mas como presunção, como um caso a ser verificado.”

Pronto, é isso. Gianotti falou e disse. Ou então faço minhas as palavras de um amigo: “olha, eu publico o que eu achar adequado. O departamento jurídico fica em outro andar, não é aqui na redação não”.

Pois é…

Clarín vai à Justiça contra blog que o criticava

Maior jornal impresso da Argentina (e uma referência mundial, ao menos gráfica, de página na web), o Clarín foi à Justiça para encerrar as atividades do blog jornalístico Que te Pasa, Clarín?, que analisava as edições diárias do veículo sob um ponto de vista bastante crítico.

O argumento de que o blog violava direitos autorais (Clarín é uma marca registrada e não pode ser usada por terceiros) convenceu o juiz de primeira instância, mas é evidente que intenção aqui foi fazer cessar o quanto antes a incômoda oposição.

O Que te Pasa, Clarín? (referência a uma famosa frase do ex-presidente Nestor Kirchner), que funcionou por pouco mais de três meses, foi condenado a uma multa diária caso continuasse no ar. O resultado é um aviso na home do site contando a agrura jurídica _e mais nenhum conteúdo (com o cache do Google, é possível navegar pelo que foi o site um dia). Vale lembrar que o povo por trás do blog argentino inclui vários jornalistas veteranos com passagem pelo próprio Clarín.

Isso me fez lembrar o Brasil e o recente fechamento do coletivo Nova Corja. E pelo mesmo motivo: incapacidade de se defender, nos tribunais, de processos judiciais.

A conclusão lógica: a diferença entre mainstream e jornalismo independente é o departamento jurídico.

Jornal fechado, jornalistas presos. E tudo sob a égide da lei

A charge da discórdia: trabalho de Muharraqi mostra o governo tentando impedir o trabalho da imprensa independente que teria sido o pretexto para o súbito fechamento do jornal

A charge da discórdia: trabalho de Muharraqi mostra o governo tentando impedir o trabalho da imprensa independente que teria sido o pretexto para o súbito fechamento do jornal

O Bahrein fechou, sem justificativa plausível, o jornal Akhbar Al Khaleej _publicação combativa e ligada à oposição do país.

Justo quando a ebulição política no Irã já teve como consequência a prisão de pelo menos 24 jornalistas.

Os dois países, por sinal, têm lei de imprensa e exigência de diploma específico para o exercício da profissão.

Um novo ângulo da história, 20 anos depois

O homem que deteve tanques na praça da Paz Celestial é visto ao fundo, à esquerda; à direita, o impressionante comboio bélico do exército chinês

O homem que deteve tanques na praça da Paz Celestial é visto ao fundo, à esquerda; à direita, o impressionante comboio bélico do exército chinês

No aniversário de 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial, o New York Times revela uma imagem jamais vista (e, ao mesmo tempo, da cena mais vista) do confronto.

Num ângulo, digamos, térreo, o fotógrafo Terril Jones captou o momento em que um desconhecido manifestante se posta no meio da rua para impedir o avanço de tanques que adentravam Tiananmen para pôr fim à manifestação que mudaria a forma como o planeta enxerga a China (repare: é o cidadão em pé no canto esquerdo da imagem).

Bacana que uma imagem tão representativa _e que passou décadas repousada num arquivo acessado apenas pelos amigos de Jones_ tenha chegada à tona exatamente hoje.

Por mais que a China tente apagá-lo, é um momento eterno.

Leia também: jornalista brasileira desafia bloqueio chinês à internet

Decisão judicial impede jornalistas de entrar onde ‘público em geral’ é barrado

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Juiz decide que imprensa não pode entrar onde o público em geral é barrado

Na linha do cerceamento ao trabalho de jornalistas que tem permeado as discussões aqui no Webmanario nos últimos três dias, não dá para deixar passar a decisão de um juiz federal nos Estados Unidos.

Julgando a demanda de um fotógrafo que disse ter sido impedido pela polícia de fotografar um acidente numa estrada (e que alegou ter a proteção da Primeira Emenda), Charles Breyer decidiu que a mídia não tem o direito de estar numa cena de crime ou acidente se o público em geral é excluída dela.

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A dura vida do jornalismo sob censura

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

“Não há, na legislação, nenhuma evidência de que o público em geral tem o direito de sair de seus carros numa rodovia e, nela, começar a tirar fotos. Mais: reza o bom senso que o público não pode abandonar seus carros no meio de uma rodovia para ver um acidente”, escreveu o juiz.

É uma decisão e tanto, que poderá impor uma série de dificuldades futuras para o exercício da já combalida profissão, que resguardava como um de seus últimos bastiões a legitimidade para penetrar onde o “público em geral” não tem o direito.

E agora, nem isso?