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A câmera oculta e a ética no jornalismo

O avanço tecnológico e a consequente miniaturização de dispositivos popularizou definitivamente o uso da “câmera oculta” no jornalismo.

Assim como não é adequado um jornalista se passar por um personagem para obter informação, há quem questione a validade ética de se recorrer a um recurso que ludibria a confiança depositada em você por uma fonte.

É debate pra mais de metro, porque o ponto atual é: a câmera oculta passou a ser um fim, não um meio. Vulgarizou-se _e é muito mais fácil fazer jornalismo pegando os incautos no pulo.

É a discussão que o professor Martín Becerra levou ao jornal Pagina 12 em virtude de gravação clandestina que mostrou Luis Siri (a cara mais visível dos protestos sindicais que têm oposto trabalhadores e o diário argentino Clarín) achacando a direção do jornal.

Em português claro, pedindo dinheiro para não liderar piquetes como os que impediram a circulação do jornal há semanas.

O álbum branco do jornalismo


Imperdoável a omissão deste site com relação à situação representada acima: a edição do argentino Clarín de 28 de março, um dia depois de um protesto sindical que impediu a circulação do mais tradicional jornal argentino (e um dos melhores e mais legais do mundo, em papel e na web).

São capas para a história _longe de serem inéditas, registre-se.

O mundo merece melhores jornalistas, é verdade. Mas governantes e sindicalistas democráticos são necessários também.

Ponto pra gente: ‘os jornalistas tinham de ser atirados no meio do rio’, diz funcionário público flagrado em delito

“Nós somos a mosca na sopa” já dizíamos tantos jornalistas muito antes da campanha publicitária da Folha. Por motivos óbvios, eu parei.

Mas como é bom ver a reação dos que tiveram a sopa estragada por nossa vigilância. Hugo Jenefes, conselheiro do tribunal de contas da província argentina do Chaco, perdeu a compostura diante de matéria dando conta que permitiu, ao arrepio da lei, o funcionamento de uma creche estatal.

“Tem que fazer como dizia o general Juan Domingo Perón: ou todos os jornalistas são funcionários do estado, ou que sejam postos numa canoa e atirados no meio do rio”, disse Jenefes. Que depois contemporizou. “Venho de uma família de jornalistas e tenho vários amigos jornalistas. Jamais diria que é necessário matá-los”.

Mais uma sopa quentinha e gostosa jogada no lixo. Ponto pra gente.

O jornal de hoje e o de amanhã, ao vivo na web

O jornal de amanhã no site de hoje

Relançado no início do mês, o jornal argentino Crítica (que circulou entre 1913 e 1962 e, no auge, vendia 900 mil exemplares) está quebrando chatíssimos paradigmas da relação web-papel.

Primeiro, e dentro do que se espera no mundo virtual, disponibiliza sua edição diária completa em papel, para download em PDF, diariamente a partir das 14h.

Além disso, mostra, no rodapé do site, o andamento da definição de assuntos e diagramação das páginas da edição do dia seguinte.

Na época em que alguns jornais ainda discutem como cobrar por seu conteúdo, a resposta está aí, dada. A modernidade diz que não cobrar é o que se espera. E que outras fontes de receita, em cima de um conteúdo sólido e bacana (como o da Crítica, que se impôs como desafio dar ao menos um furo por dia _ o que vem conseguindo com êxito nestes primeiros 20 dias de vida), é que garantirão sua subsistência. 

Em tempo: o cérebro jornalístico da Crítica é Jorge Lanata, que esteve no comando de alguns dos maiores e mais ambiciosos projetos de nossa área no país vizinho.