Arquivos da Categoria: Vida de jornalista

O jornalismo fora da redação

A redação não é mais o habitat do jornalista. Um dado que corrobora essa impressionante realidade é a demissão, só em 2013 e só em São Paulo e Rio de Janeiro, de 300 jornalistas.

Outro dia mesmo comentei sobre a valorização que ofícios como marketing e publicidade estão dispostos a nos oferecer.

Ambientes corporativos estão interessadíssimos no nosso trabalho, como Jeremy Porter explora muito bem em artigo no Journalistics.

Por sinal, hoje, na Folha de S.Paulo, o publicitário Nizan Guanaes dá uma pista definitiva para entendermos o que está acontecendo. “Não deixa de ser irônico para a propaganda. Na época da comunicação total, a verdade tornou-se a maior arma de persuasão em massa.”

Até prova em contrário, os especialistas em verdade somos os jornalistas.

A pior censura de todas: a nossa

Apresentado pela revista Veja como modelo a ser seguido em reportagem que mencionava o termo “narcotráfico” uma única vez, e “liberdade de expressão”, nenhuma, o México já tem pelo menos uma triste mazela reproduzida aqui – a autocensura jornalística.

O assassinato de dois jornalistas que cobriam as ações de um grupo de extermínio em Ipatinga (MG) obrigou jornais da região a deixar a pauta de lado – exatamente como acontece no México com quem ousa reportar as atividades do tráfico de drogas.

O país da América do Norte, ressalte-se, é o mais perigoso para o desempenho de funções ligadas ao jornalismo, segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas. De 1992 para cá, foram 28 mortes.

Pouco adianta, no meu entender, o registro de marcas econômicas de alguma expressão, como realçou Veja, se não existe liberdade de expressão, caso do México.

Temos, todos, muito a aprender.

Babado forte na redação do NYT

Babado forte na redação do The New York Times, aquele jornal que figura numa categoria com um único integrante, o The New York Times.

Segundo o site Politico, a editora-chefe Jill Abramson (que ocupa o cargo há 18 meses) teria perdido o equilíbrio nas cobranças à sua equipe e, com isso, o próprio suporte do time.

A coisa saiu do controle a ponto de o editor-chefe, Dean Baquet, ter dado um piti após deixar a sala da chefe e abandonar a redação pelo resto do dia – inclusive a sagrada reunião de primeira página, às 16h. Dean é o único “on” da reportagem (além da assessoria de imprensa).

Pois bem, as revelações do Politico agora são alvo de dezenas de críticas. Como a de que reclamar do chefe é normal e a matéria jamais teria ido ao ar se Abramson fosse homem. Ou o excesso de fontes sigilosas. E ainda que esse tipo de entrevero é a coisa mais comum do mundo nas redações.

O fato é que jornalista adora uma fofoca.

‘Jornalistas postergam a felicidade’

O Unidade, jornal interno distribuído aos sócios do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, entrevista nesta semana o professor Roberto Heloani, que já esteve no Webmanario por ser o responsável pelo mais completo estudo sobre a saúde física e mental dos coleguinhas.

“O jornalista perdeu o prazer da profissão?”, pergunta o periódico. “A questão é de  identidade”, responde Heloani.

“Continua sendo uma profissão glamourizada. E isso cria uma relação ambígua de amor e ódio. Ao mesmo tempo em que se veem como Dom Quixotes, se veem lá embaixo. Isso é muito esquizofrênico e produz um sofrimento muito grande. Jornalistas postergam a felicidade.”

É isso, não?

Ah, o Unidade é editado pelo meu grande amigo Simão Zygband.

Os 50 anos da notícia ao vivo

Em 2013 completam-se 50 anos do assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy, um momento difícil para o jornalismo diante da quantidade de teorias da conspiração, afora o estupor natural provocado por esse tipo de meganotícia.

Dois dias depois da morte, que apesar de registrada em vídeo não foi transmitida ao vivo, outro assassinato (esse diante dos olhos de milhões de telespectadores) chocaria ainda mais o público: Lee Harvey Oswald, apresentado como o assassino de Kennedy, foi abatido a tiros quando era conduzido a um presídio.

Se não foi a primeira morte mostrada ao vivo, certamente foi um dos primeiros momentos em que a TV, que ainda engatinhava, conseguiu levar ao ar um acontecimento noticioso inesperado ao mesmo tempo em que ele acontecia.

A reviravolta nas transmissões de TV e rádio, como você pode conferir nos vídeos acima, foi incrível. Afinal, no mesmo momento o corpo do presidente morto deixava pela última vez o Capitólio, em Washington. Jack Ruby, um escroque com problemas mentais, resolveu roubar a cena.

Houve outros momentos em que o jornalismo capturou a notícia ao vivo, caso do assassinato do presidente egípcio Anwar Sadatt e da tentativa de assassinato contra o Papa João Paulo II.

A morte do premiê israelense Ytzak Rabin foi registrada por uma câmera de segurança e posteriormente exibido pelas TVs, mas houve ainda o inesquecível e mortífero balé aéreo dos aviões usados como mísseis no 11 de setembro de 2001.

Nesses momentos, o jornalismo profissional é insuperável.

Redação ou hospital?

“O jornalismo mudou muito. Hoje, quando vou a uma redação me sinto num hospital”.

A definição é do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que trabalhou como jornalista nos anos de chumbo em seu país (foi editor do diario Época, censurado pela ditadura civil-militar nos anos 70).

Prisioneiros do ecrã

Ficou cada vez mais evidente, agora que a integração física entre os que se dedicam à operação papel e à operação on-line é uma realidade no jornalismo brasileiro, que o segundo grupo tem de oferecer muito mais horas de trabalho – ganhando, via de regra, bem menos.

“On-line days” que promovi em alguns veículos com o objetivo de mostrar as agruras do tempo real àqueles que tinham exclusivamente tarefas para o produto impresso foram pedagógicas e escancararam esse abismo trabalhista.

Agruras como o risco, numa reles ida ao banheiro, de ser pego de calças curtas (ou, no caso, arriadas) por um fato relevante que exige publicação imediata.

Agathe Muller e Benjamin Rieth fizeram um pequeno texto e uma coleção de vídeos que abordam essa disputa de classes no jornalismo global.

A liberdade de expressão na Argentina

Muito se fala de como a presidente argentina, Cristina Kirchner, é um entrave para a liberdade de expressão e o exercício do jornalismo no país, mas relatório da Fopea (Foro de Periodismo Argentino) aponta problemas nas esferas municipal e estadual em 2012.

Redação, o melhor lugar para acompanhar uma grande notícia

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É um relato sobre a escolha do Papa Francisco, mas poderia servir para qualquer outro grande evento: só quem acompanhou uma grande notícia na redação, no meio do burburinho dos colegas, sabe do que Carlos Roberts está falando.

Ele reconstitui, num belo texto, como os coleguinhas do La Nación acompanharam o desfecho do conclave que elegeu o primeiro líder latino-americano da Igreja Católica – ainda por cima, um argentino.

“¿Es Bergoglio?” Estamos como paralizados. “Por Dios, ¿es realmente Bergoglio? ¿Puede ser Bergoglio?” ¡Es!

Sensacional.

 

Conheça os robôs-repórteres

Existe uma previsão, sombria, de que algoritmos e robôs serão responsáveis por mais da metade dos textos hardnews do jornalismo on-line em dois ou três anos. Parece uma loucura, mas não é.

Texto de Sarah Marshall desmistifica essa realidade futurística com pinta de filme de ficção científica. Para os robôs brilharem, é evidente, antes um humano precisa dar as coordenadas.

Quem viu essa história primeiro, como de hábito, foi o colega António Granado.