Arquivo da categoria: Entrevistas

As antológicas entrevistas da The Paris Review

Fundada em 1953, a revista literária The Paris Review ganhou uma antologia agora traduzida para o português.

Trata-se de entrevistas célebres da publicação, que desde sua criação sempre deu mais espaço aos autores do que aos críticos.

Além da qualidade dos entrevistados, nem é preciso dizer que os textos (e os diálogos) são primorosos.

Quem dispensar o trabalho de mediação do curador que organizou o livro pode ir direto ao acervo da revista, aberto na internet.

Castells: ‘As redes sociais não são uma virtualidade em nossa vida: é nossa realidade que se fez virtual’

Encerro hoje a semana Manuel Castells, iniciada na terça-feira com a entrevista que o sociólogo espanhol concedeu a mim e que foi publicada pela Folha de S.Paulo. Foi apenas parte de conversa que, além de política, girou muito, claro, sobre internet e redes sociais.

Castells, um dos mais relevantes pesquisadores da web, está especialmente atento ao que acontece hoje nas redes sociais, um espaço ocupado por 1,6 bilhão de seres humanos _e ainda contando.

“As redes sociais começam para valer em 2002, com o Friendster. Ou seja: a pré-história tem menos de dez anos. Essa é a velocidade com a qual estamos trabalhando”, disse.

Era a resposta à minha pergunta sobre a durabilidade das redes (pouco antes, Castells já havia decretado a morte do Twitter). O sociólogo mostra ter uma certeza: que a facilidade de construção de novas redes torna as pessoas totalmente desapegadas às já existentes. “O fundamental das redes sociais é que qualquer jovem que conhece algo de tecnologia e que tem muito pouco capital pode imediatamente construir uma rede social”, afirma.

É o que lhe faz acreditar que modelos que buscam a monetização via cobrança ou controlam excessivamente os usuários estão fadados aos fracasso. “O Facebook ensaiou cobrar e em três dias mudou de ideia porque milhões de pessoas se moveram para outras redes. O dia em que ele tente controlar mais o que acontece lá dentro, as pessoas irão para o Facebook ao lado. Se todas as redes comerciais entrarem num acordo, se criarão outras redes. As possibilidades são ilimitadas.”

Para Castells, quem tentar restringir o acesso na internet ficará isolado.

“Estamos em um mundo de redes sociais. Hoje as pessoas relacionam sua vida física com sua realidade na rede. Estão integradas. Não é uma virtualidade em nossa vida, é nossa realidade que se fez virtual. Essa é uma mudança fundamental. O que a internet permitiu é a autoconstrução das redes de relação, da organização social e das redes de pensamento. É a primeira vez na história que se produz uma autoconstrução da sociedade nessa escala.”

Castells e o jornalismo: ‘ser uma gota a mais num oceano de informação não faz muita diferença’

“As redes na internet abrem o jogo das ideias para todo tipo de ideia. Desta forma, a sociedade se expressa mais abertamente”, disse o sociólogo espanhol Manuel Castells, 68 anos e um dos principais pesquisadores sobre o comportamento humano na rede, em conversa que tivemos na semana passada (e sobre a qual você já leu um pedaço aqui).

A frase introduziu a parte em que falamos sobre jornalismo e a avalanche de informação _a trajetória de mídias de massa a massas de mídia, como bem define Ramón Salaverría. Castells acredita, como a gente, que o jornalismo se beneficiou da conversação e da abundância de informação na web.

“Os jornalistas recebem mais informação e, se enfrentam alguma restrição de seus chefes para publicar, podem sempre recorrer ao argumento de que se não publicarem, alguém o fará. Então a internet também ampliou a liberdade para os jornalistas, que sempre, ou quase sempre, lutaram pela liberdade de informação mas também eram prisioneiros de interesses políticos e comerciais em suas empresas”, diz o sociólogo, lembrando a era da publicação pessoal e a possibilidade de difundir informação sem permissão de ninguém.

A outra observação de Castells vai ao encontro do que dizemos há tempos: que a credibilidade restou como o último bastião da mídia profissional desde que o cidadão tem acesso às mesmas armas tecnológicas que ela.

“A única vantagem que têm os meios de comunicação estabelecidos é a credibilidade, o profissionalismo. Nunca se sabe se uma informação na internet é correta, há milhões de informações. Para ter credibilidade, é preciso transmitir a informação correta. A política de meios de comunicação mais exitosa é aquela que afirma o profissionalismo e a independência. Senão, para ser uma gota a mais num oceano de informação, não faz muita diferença.”

Castells: ‘Se um país não quer mudar, não é a internet que irá mudá-lo’

A Folha de S.Paulo publicou hoje entrevista que fiz na sexta-feira com o sociólogo espanhol Manuel Castells, pesquisador-referência no que diz respeito à sociedade em rede.

O enfoque no caderno de Eleições, claro, são as relações entre poder político e cidadãos, que agora além do mesmo país coexistem também nas mesmas plataformas na internet.

Durante a semana, outros assuntos que abordei com Castells _como jornalismo e Twitter_ vão aparecer por aqui.

Até.

‘É preciso humildade para entender a importância do discurso do público’, diz editor de Época

Conheci Sérgio Lüdtke, 49 anos, hoje editor da revista Época, numa viagem em que pretendia entender a interação e integração de redações no Grupo RBS, que sempre trabalhou com o conceito de rede _jornal, rádio, jornal e web mesclados, em boa medida com os mesmos jornalistas-grife passeando por todos.

Lüdtke é um dos defensores do conceito de “perseguir a audiência” (diferente de Paco Sánchez, aqui também entrevistado, que teoriza que a originalidade do conteúdo fará seu público o encontrar).

Perseguir a audiência significa, muitas vezes, dialogar com “gente que dá um carteiraço ao contrário, você quase nunca sabe com quem está falando”, como diz Lüdtke. Mas ele não desiste nunca. “É preciso humildade para entender a importância do discurso do público”, afirma. Leia a entrevista completa abaixo.

Às vezes eu acho que somos jornalistas diferentes. Entendemos a importância do discurso do público, damos valor a ele, buscamos nossa audiência… Estamos errados?
Estou convicto de que estamos certos, mas é preciso admitir que temos a facilidade histórica de contar com a internet. Como ela é o primeiro meio a possibilitar a interação com o público pelo próprio meio, é uma via em dois sentidos, a percepção da audiência que conseguimos no jornalismo online não era possível aos profissionais de jornal, rádio e TV. A experimentação de um diálogo franco e intenso com o público nos permite entendê-lo melhor, conhecer suas opiniões, mas também suas deficiências, suas incompreensões. Creio que é essa possibilidade de leitura da realidade, reforçada pela enorme capacidade de mensuração dos meios digitais, que nos diferencia. Não quer dizer que sejamos diferentes, mas temos tudo para ser.

Há uma distância, no entanto, entre a possibilidade e a efetividade. Para entender a importância do discurso do público é preciso também uma dose de humildade. Não é fácil, em meio a tantas atividades, parar para dar atenção – e às vezes até razão – a sujeitos cuja identidade não é revelada, autenticada ou reconhecida. Gente que dá um carteiraço ao contrário, você quase nunca sabe com quem está falando. Mas esses sujeitos anônimos são aqueles para quem sempre trabalhamos, desde o surgimento do primeiro jornal, e que agora também podem – e querem – ter um nome. Eles podem ser a extensão dos nossos olhos e nossos ouvidos, ser a nossa quase onipresença. Nosso trabalho é editar.

Você pode, melhor do que ninguém, falar sobre a importância do clique. Temos nossos mantras, mas vários deles ainda engatinham no quesito consumo de massa. Na maior parte das vezes funciona mesmo o que todo mundo quer ver, ou melhor, o que todos os portais estão publicando, numa mimetização impressionante. Até que ponto essa imitação dos sites noticiosos ajuda quem prega colaboração e participação no processo de construção das notícias?
A internet pode se estabelecer como um meio de massa, mas a quase totalidade de seu conteúdo não. Os portais, principalmente aqueles que têm na origem grupos de comunicação que já operavam outras mídias, levam para a internet a reprodução de seu modelo offline. E ao apostar editorial e publicitariamente em volume de audiência, deixam de lado aquilo que é a melhor possibilidade da internet: a de, independente do volume de pessoas conectadas, falar de um para um. Acredito que isso vá mudar muito nos próximos anos. A fragmentação é irresistível, mesmo numa área aparentemente muito concentrada como a das redes sociais. Não que não haja espaço para o mainstream, para o blockbuster, para a celebridade, mas esse é um terreno em que todos fazem mais do mesmo. Todos se repetem. É onde ainda faz diferença a idéia de Home de portal: tem mais cliques quem tem mais audiência e faz as escolhas mais adequadas a seu público. Mas isso só gera volume e uma posição no Ibope. O que, reconheço, não é pouco. Até por que a publicidade, que igualmente herdou o modelo, também vende volume. Não acredito que esse modelo vá prevalecer.

Os portais, por outro lado, podem usar inteligentemente a força de suas urls para promover o conteúdo gerado pela audiência, principalmente de usuários pouco experientes. Lembro que há alguns anos tínhamos que pedir à audiência para mandar fotos da mãe, do cachorro ou até da sogra. Era uma futilidade necessária para gerar a experimentação necessária, testar a usabilidade das ações. Hoje isso já é uma rotina, mas está na hora do editor-chefe do portal pensar nisso além da rotina e de uma forma menos burocrática.

O jornalismo colaborativo é apenas uma moda? Essa coisa de aplaudir o ‘meu-cachorro-fez-xixi-no-poste’, às vezes louvado como colaboração, faz algum sentido? Não temos nós, os ‘profissionais’, que sermos confrontados por eles, os ‘amadores’, e não nos colocarmos numa eterna posição de mediador?
Não acho que seja moda, mas devemos evoluir numa relação que preserve a responsabilidade com o conteúdo que oferecemos a nossa audiência. Seria impossível competir – se essa fosse a intenção – com a capacidade de captação de uma legião de olhos e ouvidos atentos e equipada com celulares, câmeras e gravadores. Além disso, independente da nossa vontade ou concordância, as pessoas já possuem seus espaços na web e lá publicam e compartilham o que bem entendem. Estamos na era do Eu.com. Nosso desafio está mais na capacidade de identificar, valorizar e descobrir formas de agregar esses conteúdos para oferecê-lo ao nosso público do que no confronto ou menosprezo com aquilo que é gerado pelo público.

Blogar serve para que?

Blogar saiu de moda, e faz algum tempo eu falava exatamente sobre os “diários pessoais” na web com o professor André Rosa (o Marmota, na blogosfera), um precursor desta plataforma.

Assim, conversamos sobre as mudanças que o avanço tecnológico trouxe para a profissão. Rosa (que ministra cursos ligados à web no Comunique-se) é definitivo: o desdém pelas novas mídias está deixando para trás os jornalistas que não querem se ocupar delas.

Você é uma das primeiras pessoas de meu entorno a “ter um blog”, isso deve ter sido em 2000, um pouco depois da pré-história. O que você acreditava que faria na época com aquela ferramenta e como enxerga a transformação pela qual passou o relato cotidiano em ordem cronológica reversa, que já foi até padrão em home page de site noticioso importante?
Foi em 2002, já na “idade da pedra polida”. Já naquela época, duas coisas me chamaram atenção. A primeira: não vou precisar mexer em códigos HTML e FTP num serviço de hospedagem gratuito para atualizar um site. A segunda: podia usar este espaço como “válvula de escape”, para textos que não tinha razão de escrever onde trabalhava. Com o tempo, percebi que esta facilidade em publicar trouxe outros objetivos à baila, desde a busca por reputação (técnica, literária, entre outros temas…) até a tal “monetização”. Com outros impactos visíveis, como empresas perdendo dinheiro diante de comentários maldosos de consumidores na rede, o blog definitivamente deixou de ser visto como “diário virtual”. Ainda sobre essa transformação, dá pra enxergar uma curva, quase como uma parábola: um início de descobertas, uma explosão até o auge e, finalmente, uma queda no volume de usuários, passada a euforia. Agora, quem ainda mantém blogs são aqueles que ainda os consideram úteis. E é curioso como este mesmo ciclo está acontecendo agora com o Twitter, não? E vai se repetir com a próxima tecnologia que irá mobilizar um grande número de usuários no futuro, graças a sua facilidade…

O jornalista é, antes de tudo, um teimoso? Essa coisa de “eu conheço quem sabe” nos dá um incremento exponencial no muxoxo ao contato com novas tecnologias, como se pudéssemos recuperar o tempo perdido no período de uma ligação para algum guru de mídia?
Quanto a teimosia, não tenho dúvidas! Mas não sei ao certo se isso reflete na relação dos jornalistas com tecnologias. Tanto é que muitos profissionais pioneiros na web tiveram que lidar com provedores de conexão discada, servidores de hospedagem, scripts gratuitos, entre outras “gambiarras” capazes de resolver problemas como narrações ao vivo, fóruns de debates, chats com convidados… Entre outras coisas que hoje são indispensáveis em qualquer cobertura. Por um lado, é evidente que nem todo jornalista precisa entender todas as tecnologias, e historicamente isso nunca foi um “problema” – quem trabalha em jornal terá mais dificuldades para lidar com TV, por exemplo. Agora, optar pelo desdém da rede neste cenário implica outro ônus, que vai além do simples uso das ferramentas: entender a mudança de lógica, que está mexendo com a profissão. Talvez isso não se resolva com um telefonema (ou e-mail) a um especialista.

O que o avanço da tecnologia fez com o jornalismo que nós ainda não percebemos claramente? Digo, quais devem ser nossas prioridades num mundo em que pessoas, instituições e governos conversam entre si, sem a nossa mediação?
Essa é a pergunta do milhão, Alec. Tem um paper do Nic Newman que traz um balanço interessante do movimento das mídias sociais, ressaltando as eleições do Irã como um desses exemplos a serem analisados com calma. Esse mesmo documento traz uma observação óbvia, mas que ultimamente anda me incomodando um pouco. Ele lembra que, nos últimos 15 anos, tivemos três fases distintas envolvendo ferramentas de publicação e seu uso pelo mainstream, especialmente os sites de notícia: os quadros de aviso num primeiro momento; os blogs num segundo; e finalmente os sites de relacionamento e outras ferramentas, como Twitter, Facebook. E estas fases se sobrepõem, o que representa um volume sem precedentes na participação das pessoas, dentro ou fora destes sites de notícia. O que ainda não percebemos claramente é de que forma essa profusão de mensagens, muitas vezes fragmentadas, repetitivas ou mesmo irrelevantes, poderão fazer sentido. O desafio do jornalista não está apenas em filtrar e encadear estas mensagens – como muitos já sugerem, tornar o profissional um “gatekeeper” constante – mas em desenvolver um ambiente que represente uma “quarta fase”, dentro desta linha sugerida pelo Nic Newman. Meu palpite é a de que, para isso, serão priorizadas questões como a própria relevância destas participações. Mas é só um palpite, lógico.

‘O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ter algo a dizer, e com estilo único’

Paco Sánchez é um das poucas pessoas que realmente dá para chamar de mestre. E não apenas porque ele é professor de jornalismo (tive o prazer de ser seu aluno no Master em Jornalismo Digital Multimídia, no ano passado _sua disciplina, Planejamento de Conteúdos, valeria um semestre inteiro).

Paco também é diretor editorial do jornal espanhol La Voz de Galicia e tem bastante a dizer sobre a espécie de “crise de conteúdos” que estamos assistindo no jornalismo, em geral, e no on-line, especificamente, num momento em que todos os sites se parecem bastante entre si.

O diagnóstico de Paco é preciso. “O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único”. E como encontrar esse estilo? Leia a conversa que tivemos recentemente.

Paco, você defende que os portais de internet tiveram uma má influência sobre o menu dos sites jornalísticos em geral. Explicando isso melhor: você acredita que a competição por audiência leva sites menores ou “independentes” a, em alguma medida, apenas replicar o conteúdo alheio para não parecer desatualizado?
Eu acho que alguns jornais perderam, na internet, a identidade que têm no papel. Isto é grave. Claro que afeta principalmente os jornais com menos recursos, mas também alguns grandes. Se você se guiar apenas pelas páginas mais vistas, por estratégias de SEO, pode cometer erros absurdos. Por exemplo, é possível que as dez matérias mais acessadas de um jornal sejam superficiais, frequentemente frívolas, replicadas de agências internacionais ou capturadas em outro lugar.

Se quem gerencia o conteúdo se deixa levar por esses resultados e programa mais matérias parecidas, está cometendo dois erros simultâneos de percepção: seu público não chegou ao jornal por causa daquele conteúdo e o usa apenas como passagem (“vejo o noticiário do time de futebol local e aproveito para clicar nessa matéria da Britney Spears”). O que atrai o leitor é informação diferenciada. Se seu objetivo era ler sobre Britney Spears, provavelmente ele entraria em outro site, mais específico, com o qual não poderíamos competir. Se, apesar de tudo, o objetivo do usuário era Britney Spears, provavelmente caiu em nosso site através de um motor de busca. É, portanto, um leitor puramente aleatório, com o qual dificilmente podemos construir uma audiência estável. Então,se nós seguirmos este tipo de estratégia, só conseguiremos visitas hoje, e fome amanhã. E o pior: alguns periódicos de papel começaram a permitir que os resultados de acesso de sua edição on-line passassem a influenciar a agenda de conteúdos na edição impressa. A última gota.

Outro de seus mantras é que nós, jornalistas, não devemos procurar a audiência, mas ao contrário: pela qualidade e originalidade de nossos conteúdos, as pessoas virão até nós. Primeiro que eu adoraria tê-lo como chefe (risos). Sério, como se equilibra isso? Eu não posso manter um site que ninguém acessa. Isso significa que é importante saber o que os usuários querem, certo? Ou não, o jornalismo profissional deve saber quais são as notícias mais relevantes e não pode viver ao sabor da preferência do público?
Estava me referindo mais ao meio, como corporação, dos que aos jornalistas individualmente, ainda que de certa forma seja possível aplicar o conceito também. Em geral, a grande mídia nasceu de uma pessoa ou um grupo de pessoas que tinham algo a dizer e ecoou em uma audiência grande ou importante. Se o processo for ao contrário, raramente funciona.

Sempre lembro que Roberto Civita dizia que, primeiro, imaginava a revista que queria fazer, a que agradava a ele, e só depois começava a fazer pesquisas. O negócio de mídia é um negócio de identidade. Você tem que ser alguém com algo a dizer, e dizê-lo com um estilo único. O sucesso da The Economist é muito bem explicado a partir dessa perspectiva.

Há também exemplos no sentido oposto: no final do ano passado, houve alguma celeuma entre o público do jornal diário espanhol El Pais porque o diário criticou fortemente o governo socialista. Não era o que esperavam muitos leitores, embora o veículo estivesse certo, e alguns até mesmo chegaram a expressar o descontentamento emmento

público de uma forma muito significativa: “Este não é o meu ‘País’”. Com a identidade não se brinca.

Se estamos aguardando apenas o parecer volúvel que nos chega através de pesquisas de marketing, o destino mais provável é uma identidade confusa ou diluída e os termos se invertem: já não somos alguém que tem algo a dizer, e a audiência deixa de precisar da gente. A crise de tantas revistas noticiosas tradicionais tem a ver, em parte, com um processo dessa natureza.

Palavras suas: um jornal impresso tem valor por cerca de quatro horas. O que pode ser feito nas outras 20h para manter o público interessado? Você se lembra de exemplos de jornais que estão otimizando suas operações em grande parte através de intervenções nas suas edições digitais (editorial e produto)?
Com essas palavras o que eu quis dizer é que quase 100% dos exemplares diários impressos são vendidos quatro horas depois de publicados. O resto da venda é marginal. Isso não significa que as informações contidas no jornal expirem. Na verdade, minha proposta é encontrar maneiras de continuar lucrando com todo o volume de informação que continua a ser válida e útil em sua grande maioria.

A indústria do audiovisual entendeu isso muito bem desde o início, com alguma frequência amortiza investimento ou até mesmo começa a gerar lucros quando o filme estreia nos cinemas, mas ela passará anos tirando partido do produto, seja na TV paga, na TV aberta, no pay-per-view, no mercado de DVD etc.

Já existem muitos veículos que utilizam seu conteúdo impresso, aparentemente defasado, para agregar valor à edição eletrônica ou revendê-lo de outras maneiras: não só o The New York Times ou CNN, mas também meios pequenos já são capazes, por exemplo, de converter seu cartunista em uma marca ou vender as fotos do dia.

Somos todos dependentes das grifes da web

Rafael Sbarai, 23 anos, é um prodígio. Poucas pessoas analisam tão bem os meandros da web (e sua implicação no jornalismo), em português, como ele. E faltam textos em português sobre o assunto. Pessoas, escrevam mais!

Rafael não tem esse problema. Ele e três colegas têm dado, no blog De Repente,  excelentes pistas de quem somos e para onde vamos _e, claro, aquela pitada pessoal do ‘para onde deveríamos ir’.

Conversei com ele numa brecha da rotina corrida de quem é repórter e editor de mídia social no site da maior revista brasileira, Veja. O assunto: monocultura do Google, jornalismo participativo, grandes grifes da web. E, sobre elas, a constatação: temos dados pessoais demais abrigados sob o guarda-chuva dessas empresas poderosas. Leia a seguir a íntegra da conversa, via mail.

O Google é eficiente, talvez sua característica mais admirável, mas qual o risco de ficarmos todos dependentes dele? Somos usuários de serviços que foram, estão sendo ou serão anexados pela companhia de Brin e Page (e agregados).A monocultura me incomoda, mas lutar contra ela exige mover montanhas. A web reproduz exatamente as disputas de poder fora dela…

A questão de dependência na web transcende o Google. Hoje, somos dependentes de Twitter, Facebook e Google. Muitas das nossas informações pessoais estão armazenadas em um grande banco de dados. E isso me preocupa muito. A exposição não divulgada em rede, porém centralizada em um único ambiente. Risco todos nós temos. O lado positivo desta história é a possibilidade de personalização de serviços e recursos, um dos princípios que a internet sempre teve.

Sobre indexação de conteúdos, acho isso o máximo. Indo para nosso lado jornalístico, você percebe qual executivo de jornal sabe o que é uma distribuição de informação. O Murdoch levantou uma bandeira em 2009, de apropriação de conteúdo, e mostrou sua força. Mas quem sai perdendo é ele, por ter um jornal mais centralizado e menos distribuído. Ponto para o NYT, que adota parcerias com o Google, como o Living Stories.

É duro falar sobre isso, mas ainda é maioria o conteúdo ruim produzido pelo público. Já foi pior, verdade, mas ainda é ruim. A ex-plateia ainda está muito preocupada em replicar conteúdo do mainstream? Que parcela dessa audiência colaborativa percebeu que na verdade é capaz de pautar os meios se usar as novas plataformas para se mobilizar?

Infelizmente vivemos já uma época da bolha da colaboração e do que se considera web 2.0. Não sou adepto deste termo (Nota do Webmanario: eu tampouco, é um rótulo marketeiro) e ele é reflexo do processo de mkt que envolveu a colaboração e o jornalismo. A plateia – ex-consumidora de informação – é extensa e está sob diversos formatos. E isso depende muito do contexto cultural.

Fico admirado com a política colaborativa de produção de conteúdo dos norte-americanos, chilenos e sul-coreanos, por exemplo. Totalmente diferente do Brasil. Enquanto aqui sinônimo de jornalismo colaborativo era estar em uma página principal de um portal com notícias requentadas pelo mainstream, lá fora o “cidadão-repórter” pensa em um contexto local e de grande caráter de prestação de serviço. É só ver alguns bons casos do iReport, apesar de que ele recebe maior destaque quando há uma notícia falsa. A questão deste formato é como saber filtrar isso. No iReport, não há este filtro, mas há uma hierarquização de notícias. Quem faz isso com maestria é o bom e velho OhmyNews.

Muito se fala hoje no Spot.us, um outro modelo que é bem discutido nos nossos blogs. Mas ainda o vejo com certo cuidado. Um “jornalismo financiado”, antes de tudo, é intencional.

YouTube, Twitter e Wikipedia: conte-me seus amores e seus horrores por essas três marcas (e ferramentas) que estão eternizadas na história da internet.

Nunca parei para fazer uma reflexão sobre os três modelos. Dos três, o que menos uso é o Youtube. Isso é fato. Nunca gostei de compartilhar conteúdos áudiovisuais. Me considero muito amador neste segmento. Apesar de muita coisa boa em seu “acervo”, aprecio mais Videolog e Vimeo. São formatos com cara mais profissional e com um menor filtro de coisas nonsense.

A Wikipedia é um mecanismo poderosíssimo, discutível e uma das fontes preciosas que conseguem acompanhar diariamente a evolução da sociedade com os usos tecnológicos.

O Twitter é o símbolo da economia da informação e o peso que o conhecimento e “estar ligado” provoca em uma sociedade interconectada. Muito se fala em sua busca em tempo real (já estamos no 2º período da busca em tempo real – a primeira aconteceu com o crescimento dos blogs e a indexação do Technorati), mas o que mais aprecio na ferramenta é a criação de uma linguagem totalmente distinta e que permita colocar muitas pessoas em uma conversa a partir do @. Sem você saber, você foi citado por uma ou outra produção (digo no nosso caso: jornalistas e/ou blogueiros). Esse retorno é o mais fantástico.

Gosto também dos termos que usam para desempenhar funções: saem de cena os falsos “amigos”; entram os ‘seguidores’ e ‘seguidos’. A palavra seguir pressupõe escutar, acompanhar e, acima de tudo, respeitar, o que falta e muito na web em geral.

Outra movimentação destacável é que o Twitter comprovou a tese da queda da audiência de uma página principal de portal/site. É o percurso de tornar-se menos centralizado e mais distribuído. O que mostra a eficiência e a premissa de Paul Baran com seus nodos distribuídos, centralizados e descentralizados. Muito da história do jornalismo on-line está em três imagens que mais parecem astrofísica ou química, mas delimita um belo universo jornalístico. O que dá pra deixar de conclusão sobre esses três formatos é como a tecnologia e internet SEMPRE conectou pessoas e não computadores.

‘Não existe mais informação exclusiva’, diz Marcelo Träsel

Com Marcelo Träsel, jornalista, professor e pesquisador, minha relação é antiga: dividimos opiniões e compartilhamos dúvidas (e soluções) durante um bom período de trabalho no portal Terra. De lá para cá, ele se especializou na análise da influência das novas mídias no exercício do jornalismo. E é assertivo ao dizer que o copia e cola acabou com a informação exclusiva “microssegundos” depois que ela é publicada. Notícia virou commodity, acrescento eu.

Na conversa que você lê abaixo, fiz questão de falar sobre apuração distribuída, seu objeto de pesquisa mais recente. Träsel defende a prática (que consiste em “repartir trabalho” com os leitores, como analisar uma lista extensa de documentos). Para o professor, que comanda uma concorrida pós em Jornalismo Digital na PUC-RS, trata-se de ótimo exemplo de jornalismo participativo _neste caso, o trabalho dos leitores terá, sempre, de passar por filtro e mediação do jornalismo profissional antes de ser publicado.

Falamos ainda de como o leitor-colaborador é maltratado pelo mainstream, que oferece apenas o doce da visibilidade em troca de material exclusivo.

Pesa contra a apuração distribuída o tabu (ou a ignorância, como queira) do mainstream, que acredita que a partir do momento em que disponibiliza abertamente um documento (ou conjunto deles) que obteve com exclusividade, está dando o ouro para o bandido, ou seja, municiando a concorrência com informações que em tese deveriam ser exclusivas. A colaboração do público nunca é lembrada, num primeiro momento. É sempre o menos importante. A discussão sempre começa com “tempos de proteger esse conteúdo a sete chaves e descobrirmos nós mesmos o que ele traz de valioso”. Há um antídoto contra isso? O que dizer aos veículos que ainda protegem informação muitas vezes corriqueira da visibilidade pública e resistem a apelar ao crowdsourcing?

O crowdsourcing e outras formas de participação do público não são adequadas para todas as culturas empresariais. Admiro mais uma empresa que resiste a esse tipo de projeto por apego às rotinas de trabalho e valores jornalísticos da época da mídia um-todos do que as empresas que introduzem o crowdsourcing e seções com graus variados de participação apenas para surfar na onda do “jornalismo cidadão”. E são muitas. Abrir espaços para comentários num webjornal é muito fácil. Difícil é realmente levar em conta a opinião e a informação produzidas pelo público no cotidiano da redação.

Feita essa ressalva, voltemos à questão: o crowdsourcing é uma ferramenta que libera os repórteres de tarefas repetitivas e de pouca exigência técnica, garantindo mais tempo para minerar pautas inovadoras e informação realmente inédita. O verdadeiro ouro do jornalismo não são os documentos, mas o enfoque, o gancho, a pauta. Documentos em si mesmos não dizem muita coisa. Devem ser acompanhados de contextualização, de contrapontos das partes envolvidas. A meu ver, faz mais sentido destacar cinco repórteres para repercutir da melhor forma possível os dados do que condená-los a passar dias garimpando documentos, trancados na redação. Até porque, cerca de 10 microssegundos após a publicação dos dados arduamente refinados, toda a concorrência vai dar CTLR+C e CTRL+V e foi-se a exclusividade. Não existe mais informação exclusiva.

Não custa lembrar também que o papel do noticiário é informar a sociedade, seja por quais meios forem, e não alimentar o ego dos repórteres com furos.

O Guardian tem aquele projeto bem bacana, de ter jogado quase 500 mil notas fiscais na rede e pedido a seus leitores que o ajudem a achar problemas nelas. Mas já surgiram poréns: circula a informação de que assessores parlamentares são contumazes frequentadores do projeto, seja desqualificando provas ou validando outras, sempre de acordo com os interesses de suas siglas políticas. Isso, de certa forma, não sugere que a apuração distribuída é apenas um ponto de partida, algo que exigirá retrabalho, filtros e mais filtros, além de muitíssima apuração, depois? Não pode, em resumo, atrasar o andamento de uma apuração, por mais incrível que pareça?

Embora existam distorções, creio que no fim das contas as estratégias de apuração distribuída sempre vão trazer vantagens para uma equipe de reportagem. Como em todos os sistemas abertos à participação, atores envolvidos nos fatos podem tentar avacalhar a análise dos dados, inserindo contrainformação. Porém, no caso do Guardian mesmo, o sistema permitia a qualquer pessoa revisar as páginas já analisadas e denunciar abusos. Além disso, o número de participantes é tão grande (naquele caso, cerca de 24 mil pessoas) que as distorções provavelmente acabam soterradas pelas intervenções válidas. Pode-se até pensar num sistema que apresente o mesmo documento a, digamos, três participantes diferentes, e avise se houver inconsistências na análise.

Como afirmei acima, porém, os dados em si mesmos não dizem muita coisa. Portanto, o resultado de um projeto de apuração distribuída é, sim, apenas um ponto de partida. Além de contextualizar e repercutir os dados, também é papel dos repórteres verificar todas as informações. Igualzinho a qualquer outro tipo de reportagem.

Não custa lembrar, ainda, que assessores de políticos e profissionais de relações públicas interferem em reportagens realizadas sem ajuda do crowdsourcing usando os métodos mais variados. Um sistema automático ao menos elimina o perigo da influência pessoal e do suborno.

Pra mim o crowdsourcing, para ser bem-sucedido, envolve uma relação de troca. Muitas vezes noto gente que nunca fez nada por mim (ou seja, jamais me deu uma informação útil ou se engajou em algum projeto do meu interesse) pedir auxílio na web. Aliás, acho frequente essa atitude na grande mídia. Parece que ela sempre quer algo de você, mas nunca dá nada em troca _melhorando: acha que seu conteúdo basta. É falha na conversação, reage tal um mamute ante situações novas, é refratária e teme novas tecnologias, segrega o conteúdo produzido pelo usuário a um gueto qualquer em seu site… Tudo pra dizer que reclama-se muito, especialmente no Brasil, do qualidade do colaborador. Mas acho que ele é maltratado, a grande mídia não precisa mudar de atitude?

Quanto a essa questão, vejo dois problemas principais:

1- A mídia se aproveita do material produzido pelo leitor, mas dá em troca apenas “visibilidade” e muitas vezes sequestra esse material. Basta ler os termos de cessão de direitos da maioria dos sistemas de colaboração do leitor para perceber isso. Em geral, ao enviar um texto, áudio ou imagem, o leitor abdica de todos os direitos sobre esse material – até mesmo o direito de publicar esse material em sua conta no YouTube, álbum do Flickr etc.

As colaborações enviadas passam a ser propriedade da empresa de comunicação, o que, convenhamos, é ridículo e absurdo. Se produzi uma foto e a enviei de graça a um jornal, tenho de no mínimo manter os direitos de uso. Os setores jurídicos vêem a colaboração do leitor como uma doação, quando, na verdade, é um compartilhamento, uma concessão, um empréstimo. É justo que o leitor faça o mesmo empréstimo a outros jornais e distribua a informação via redes sociais. O interesse da sociedade é que a informação seja disseminada o máximo possível, e não que empresas de comunicação transformem a participação do público em uma fonte de matéria-prima barata.

Seria muito justo se as notícias produzidas com base em dados e imagens enviados pelo público fossem distribuídas sob licença Creative Commons, por exemplo, já que a empresa não pagou por elas. Talvez seja pedir demais.

2- As informações enviadas pelo público interferem muito pouco na rotina das redações. São raros os casos em que uma equipe dedicada a isso vai atrás das lebres levantadas pelos colaboradores. Envolver-se com os assuntos de interesse dos colaboradores seria a melhor forma de pagá-los pelo compartilhamento de informação e contribuiria muito para melhorar, do ponto de vista social, a cobertura da imprensa.

As pautas enviadas pelo público são um excelente termômetro da sociedade e uma forma de adequar a cobertura ao interesse real da comunidade. É claro, pouca gente se interessa por notícias de Brasília e isso não significa que se deva seguir cegamente os dados de audiência e extinguir a editoria de política. Talvez, porém, pudesse haver menos governo federal e mais governo municipal, Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa na imprensa regional. Mais bairro e menos país.

Percebo que as colaborações enviadas por leitores nos bons projetos de webjornalismo participativo em geral se preocupam em cobrir essa lacuna da cobertura. São mais voltadas ao buraco na rua, aos ônibus superlotados, ao terreno baldio cheio de lixo. Alguns jornais têm aproveitado essa fonte inesgotável de pautas e designado repórteres para aprofundar os temas. A maioria, porém, enxerga as seções de webjornalismo participativo como um tipo de parquinho onde o leitor pode brincar de ser jornalista. É um desperdício.