Arquivo do mês: dezembro 2010

A ressurreição da TV

Saiu o Global Media Habits versão 2010, um estudo coordenado por Greg Lindsay que a cada ano tem se mostrado mais útil para ajudar a compreender alguns fenômenos da tecnologia e da comunicação.

Por exemplo, a pesquisa mostra que o planeta está comprando aparelhos de TV como nunca e assistindo mais à programação que eles oferecem _a média mundial é de três horas e 12 minutos.

Ou seja: mesmo com a internet, estamos vendo mais TV, como comentei nesta semana em podcast na Folha (o áudio começa com um comentário sobre a estranha relação entre WikiLeaks e Twitter).

Ainda sugiro mais, mas faltam dados para atestar: que a web está ajudando decisivamente a TV a recuperar audiência e  prestígio.

Futebol, reality shows e novelas são os programas mais atraentes para os telespectadores, uma coincidência com a internet, onde estes assuntos capitaneiam o interesse do internauta.

Esse buzz se reflete nas redes sociais, lugar em que cada vez mais as pessoas falam do que estão vendo no sofá da sala.

A pesquisa aponta ainda a incrível expansão dos dispositivos móveis (no Brasil, 32% da população tem PC, enquanto 86% possui um celular).

O estudo completo custa US$ 249.

Nada se cria…

Referências são sempre benvindas, seja no mundo das revistas, seja na web.

Mas foi impossível não notar que a capa mais recente da australiana GQ é cara de uma da Harper’s Bazaar de 1969…

O obituário on-line do Jornal do Brasil

Alunos da disciplina Técnicas de Reportagem, Entrevista e Pesquisa II de Jornalismo da Uerj, sob a coordenação do professor Marcelo Kischinhevsky, produziram uma espécie de obituário do Jornal do Brasil que, como todos sabemos, deixou neste ano de circular em papel e sobrevive apenas na versão on-line (onde, aliás, foi pioneira entre os veículos de comunicação nacional).

Trabalho interessante que merece ser visitado.

AP estima faturamento de agregadores em US$ 500 milhões

A informação de que os agregadores de notícias movimentam cerca de US$ 500 milhões, estimativa que a agência Associated Press informou em reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo (só para assinantes), é tão surpreendente quanto difícil de confirmar.

Infelizmente a matéria não esclarece qual o período de apuração desse valor (semanal, mensal, anual?) e, estando a AP na linha de frente do combate aos sites que adicionam (e promovem, diga-se) conteúdo alheio, não dá para acreditar em tudo o que ela diz sobre este tema.

A fonte do texto é Srinandan Kasi, vice-presidente da AP, que está empenhada na criação de um formato parecido ao pagamento de direitos autorais, como ocorre na música, por exemplo, para os criadores de conteúdo linkados por agregadores _a priori, estas páginas não possuem publicidade, daí a dificuldade em entender de onde sairia tanto dinheiro.

Vamos ver onde isso vai dar. A tendência é que em lugar nenhum.

Como fazer dinheiro na internet?

Gráfico interessante. Desfrute.

Livro analisa mudanças que a tecnologia impôs ao jornalismo

Numa era em que o avanço tecnológico deu uma imprensa particular para cada um, é impossível falar de jornalismo on-line sem abordar a participação do público.

O fim da fronteira entre mídia formal e a ex-plateia, como muito bem teorizou Jay Rosen (professor da Universidade de Nova York), é apenas um dos aspectos que a jornalista Magaly Prado aborda no livro “Webjornalismo”, lançado nesta semana pela Editora LTC.

Apesar de muitos jornalistas não terem percebido que seu trabalho mudou com a vida em rede, é óbvio que instâncias pessoais de manifestação (como os blogs) e a capacidade de vigilância e mobilização que a internet proporcionou às pessoas tornaram o fazer jornalístico um exercício de conversação.

Vivemos a época dos “‘produsers” _o termo é uma junção de produtor e usuário e foi cunhado em 2005 por Axel Bruns, autor de uma obra importantíssima para se compreender a transformação da profissão, “Gatewatching”, jamais traduzida para o português.

Com proposta didática e voltada para a sala de aula, Magaly discorre sobre essa nova e auspiciosa fase do jornalismo profissional, agora tocado a muitas mãos.

Mas é claro que a internet, onde a colaboração entre profissionais e amadores é muito mais evidente, também abriga práticas de jornalismo, digamos, tradicionais.

Com linguagem fácil e fragmentada (às vezes, fragmentada até demais), Magaly aponta boas práticas, mostra caminhos adotados no país e no exterior e, por meio de depoimentos de importantes profissionais da web brasileira (algumas vezes sem edição e publicados na íntegra), refaz a trajetória da plataforma desde 1995, quando desembarcou comercialmente por aqui.

Com cerca de 150 imagens, quase todas impressões de tela, o livro de Magaly também discorre sobre a chegada do iPad e sua influência na produção de conteúdo.

Ainda faltam, em português, obras que consigam abarcar toda a complexidade que a rede trouxe para o jornalismo. Mais difícil ainda é resumir, em papel, as vastas possibilidades do meio on-line nesta profissão tão antiga. O livro de Magaly é, nesse aspecto, uma boa tentativa.

WEBJORNALISMO
AUTORA Magaly Prado
EDITORA LTC
QUANTO R$ 40 (272 págs.)

(resenha que publiquei na edição de sábado da Folha de S.Paulo)

Inócua, ciberperseguição ao WikiLeaks revela ignorância do poder

A ciberperseguição a Julian Assange e seu WikiLeaks chega a ser tão perturbadora quanto reveladora ao escancarar que os governos realmente não compreenderam a internet e a completa inutilidade de tentar controlá-la.

É quase o mesmo efeito dos próprios papéis diplomáticos que o site se propôs a vazar, que apenas confirmam o que já se imaginava sobre o funcionamento da diplomacia internacional.

A disputa de gato e rato entre Assange e aqueles que querem o seu pescoço só traz à tona o que já desconfiávamos havia bastante tempo.

Quando o sociólogo espanhol Manuel Castells, provavelmente o maior pensador contemporâneo da vida em rede, afirmou que os governos têm medo da internet porque não possuem controle sobre ela, acrescentou que a tentativa de fiscalização sempre estará entre as prioridades do poder político.

Basta lembrar da China, que mais do que um poderoso (porém sempre contornável) firewall que tenta impedir o acesso a páginas específicas, tem um verdadeiro batalhão de barnabés para pescar palavras-chave e censurar, o quanto antes, manifestações indesejáveis.

Em vão: a rede é um mundo composto de múltiplas vozes e alternativas onde não há patrão ou mandachuva.

No caso do WikiLeaks, é ainda mais risível a tentativa de expulsá-lo da rede.

Ora, a partir do momento em que a ONG fez parcerias com grandes grupos da mídia tradicional para dar mais repercussão e credibilidade aos papéis que conseguiu com exclusividade, sua própria presença na internet, como um site devidamente estabelecido numa URL, deixou de ser necessária.

Além disso, como já está acontecendo, basta Assange estalar os dedos para que um número incontável de pessoas se disponha a abrigar o conteúdo que tanto desconforto tem provocado no meio político e diplomático.

Para quem acha que a internet não tem regras, eis uma delas: não mexa com comunidades conectadas, porque você irá perder.

Experimente tentar tirar do ar uma página hospedada no Uzbequistão, por exemplo. É melhor esquecer.

Sites-espelho, aqueles que meramente reproduzem conteúdo, existem desde o começo da web _e não vão acabar por um decreto de um governo poderoso qualquer.

É outra certeza que o Cablegate deu ao mundo: a ignorância do poder quando o tema é a vida em rede. Coisa que a gente já desconfiava, não é mesmo?

(O texto acima, de minha lavra, foi publicado na edição de ontem do jornal Folha de S.Paulo)

YouTube faz coletânea com os principais virais de 2010

Vocês sabem que, apesar de não estar (sempre) diretamente ligado a jornalismo, tenho muito interesse nos virais e na maneira como eles são distribuídos na rede. Analisar esse comportamento tem tomado, nos últimos anos, bastante tempo dos meus dias.

O YouTube (com o apoio da fabricante de dispositivos móveis HTC) decidiu colocar até o dia 31, a razão de um vídeo por dia, aqueles que considera os virais mais expressivos de 2010.

Vai lá que já são 4 os vídeos _e a contagem regressiva para o ano está rolando.

(Quem viu primeiro foi o Braimstorm9).

O primeiro grande vazamento do WikiLeaks

A divulgação de mais de 250 mil correspondências entre embaixadas americanas no mundo todo e o Pentágono ainda vai ocupar as páginas dos jornais por um bom tempo _nem 10% desse conteúdo foi revelado até agora.

No Brasil, quem publica os papéis vazados pela ONG WikiLeaks é o jornal “Folha de S.Paulo“.

Bom momento para relembrar o primeiro grande vazamento (no jargão jornalístico, conteúdo passado de forma anônima pela fonte) ao projeto de Julian Assange.

O vídeo é inesquecível: uma desastrada incursão de duas patrulhas aéreas das Forças Armadas Americanas que culminaram com a morte de vários civis em Bagdá no dia 12 de julho de 2007.

A imagem que abre este post é o momento do ataque que matou dois cinegrafistas da agência de notícias Reuters. Os diálogos dos pilotos americanos beiram o patético: eles confundiram as câmeras com armas pesadas.

Foi o que tornou o WikiLeaks famoso, em 18 de abril de 2010 _quando o site completou quatro anos no ar.

O fim da fronteira entre mídia e audiência

Como 20 anos de comunicação digital acabaram com a fronteira entre mídia e audiência?

É o que repassa este texto, dividido em três partes e bastante completo.