Arquivo do mês: outubro 2010

Um dos maiores momentos da ética no jornalismo

Paulo Beringhs, da TV Brasil Central, pede permissão ao senador Demóstenes Torres para denunciar censura de seus patrões ao programa que apresenta, ao mesmo tempo em que indica o colega ao lado como conivente e seu potencial substituto.

Um resumo das razões pelas quais escolhemos essa profissão.

O New York Times se declara sem ideias

Já tem mais de uma semana, mas vale o registro: o The New York Times anunciou oficialmente aos seus leitores que está sem ideias.

Explica-se: o blog “Idea of the Day”, que tratava de boas práticas no meio on-line, foi descontinuado após dois anos.

A justificativa é bem pior do que a decisão: diz a redação que “o fim do blog é resultado da escassez de recursos em um meio onde (…) constantemente surgem novas prioridades”.

É justamente onde surgem novas prioridades que estão as boas ideias, correto?

Uma ‘matéria’ diferente sobre os mineiros do Chile

Vivemos um tempo em que, naturalmente, jornalismo e entretenimento se confundem. Na web, porém, essa confusão é ainda maior.

Como arriscou o site Ego, a editoria de celebridades do braço da Rede Globo na internet, ao propor uma espécie de ensaio de moda com os mineiros recém-resgatados no Chile.

Confesso que fiquei sem palavras…

(a dica é de Leopoldo Godoy).

Uma imprensa para cada um

Mais de uma vez já escrevi aqui que se no meu tempo houvesse o acesso à tecnologia que vivenciamos hoje, talvez nunca teria trabalhado numa redação _faria jornalismo cidadão com meu celular ou netbook, numa boa, publicando tudo num blog ou coisa que o valha.

É sério. Com as armas que todos dispomos agora, quase idênticas às do jornalismo profissional, não faz muito sentido se acotovelar numa redação em busca de um lugar ao sol.

Ao jornalista de carreira, é verdade, há o privilégio da legitimação. Um exemplo bobo, mas prático: após o jogo de futebol, ele tem acesso a treinadores e jogadores, coisa que um cara que faz jornalismo como hobby tem de sofrer para, talvez, conseguir _sim, a internet permite conquistar legitimação (e os vários casos de jornalistas independentes com acesso aos personagens do noticiário prova isso).

O jornalista profissional tem ainda, à frente de si, a relevância e a credibilidade do veículo que representa. Não é pouco e abre portas.

Uma iniciativa individual pode atingir esse patamar, mas é uma trilha bem mais cansativa. Possível, mas desgastante.

A foto lá de cima, o equipamento individual de um freelancer, não pode intimidar. Com muito menos (e eu sou testemunha disso) dá para fazer bom jornalismo.

Mas, sinal dos tempos: é frequente ver outsiders muito melhor equipados _e sintonizados com a agilidade que nossos tempos pedem_ do que repórteres do mainstream.

Reflexão na produção jornalística

Eu sou um homem de papel, mas há muito ligado ao on-line.

A diferença básica entre as plataformas é que, quando seu ciclo de notícias tem 24 horas, há tempo para juntar lé com cré, e hierarquizar melhor o conteúdo.

Em tempo real, é muito difícil fazer isso. Tarefa para alguns poucos gênios.

Daí me lembrei da TV e as lições que ela transmite. O entretenimento traz, embutido, muito do jornalismo que deveríamos fazer _em papel e on-line, depende aí o tempo que temos e o nível de nossa massa encefálica.

Como essa experiência de maio de 2006, quando o programa Fantástico, da Globo, preparou por seis meses o ator Osvaldo Mil para ser um falso vidente _que enganou muita gente na chamada “Operação Bola de Cristal”.

A série apresentada pela “revista eletrônica dominical” tem 40 minutos e foi, originalmente, exibida em quatro episódios de dez minutos cada.

Ali, o parapsicólogo Jayme Roitman e o mágico/ilusionista gaúcho Khronnus _com a narração de Cid Moreira_ expuseram as táticas que podem levar um picareta a convencer plateias (como de fato ocorreu) de seu inexistente poder paranormal.

Como as leituras fria (onde prevalece a observação do gestual e do vestuário) e quente (aqui vale vasculhar o lixo do cliente ou receber dicas que pessoas de seu entorno).

O programa mostra ainda como se constrói um pilantra: Angelo, o vidente criado por Mil, é treinado a ser verborrágico (maneira de dificultar a compreensão do que se diz) e adepto do espelhamento, outra estratégia de gurus que nada sabem sobre passado ou futuro _consiste em aproveitar brechas que as próprias pessoas dão ao fornecer, sem se dar conta, informações que depois serão usadas para iludi-las (a chamada falsa memória).

Tem muito mais coisa sensacional: técnica do arco-íris (quando se abarca tudo, quase em 360 graus, tornando a chance de erro mínima), o despacho do erro (“isso não é pra você”, suscitando a dúvida), a necessidade da cara fechada (vidente que ri muito não tem credibilidade).

Enfim, é uma aula de produção e jornalismo. Provar para as pessoas que elas podem ser facilmente enganadas é um baita serviço.

Quatro anos depois, enfim chegou a hora de citar esse excelente trabalho.

Um blog entre tantos

Mais uma dica curta: o blog de Pete Warden. Pertinente.

Um caso clássico de jornalismo-chute

O título bombástico do jornal argentino Perfil de 22 de agosto diz tudo: estamos diante de um caso clássico de jornalismo-chute.

A matéria foi escrita 17 dias depois do acidente que soterrou 33 trabalhadores numa mina de ouro e cobre no norte do Chile e que terminou, com nosso testemunho, num lamentável episódio de exploração comercial _mas com todos vivos, diga-se.

Muitas vezes, o melhor caminho é não escrever.

Circo midiático e os mineiros do Chile

Pelo menos 1,5 mil profissionais de 350 veículos globais estão credenciados para acompanhar o resgate dos 33 mineiros soterrados há mais de dois meses em Copiapó, no norte do Chile.

Texto da Columbia Journalism Review conclama os profissionais a refletirem sobre como não transformar a cobertura num grande circo midiático.

Difícil quando já se tem notícias de que os mineiros têm um pré-contrato para a divisão dos direitos sobre entrevistas, livros, filmes etc.

Jornalismo investigativo e internet provocam mudança real

Na semana passada escrevi que a “onda verde” e o crescimento de Marina Silva, associado à campanha sobre o aborto (e contra Dilma Rousseff), tinham passado a sensação de que a internet, enfim, provocara algum tipo de ruído eleitoral com resultado concreto nas urnas.

Faltava, para isso, a realização de uma pesquisa que apontasse o que os indícios mostravam, comentei.

Pois a pesquisa foi feita, pelo Datafolha, e detectou que não apenas a internet triunfou na reta final da campanha presidencial, mas também o jornalismo investigativo _este, aliás, em maior grau.

Convenhamos, o jornalismo investigativo também chega ao eleitorado via web, o que significa um bônus para a rede.

Um dos recortes do levantamento dá conta de que os fatos que levaram à queda da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra (sucessora de Dilma), e também o escândalo do acesso a dados sigilosos na Receita Federal tiveram mais impacto na mudança de votos do que os temas religiosos.

O Datafolha também perguntou aos eleitores (mais de 3,5 mil em todo o país) se eles haviam recebido algum tipo de mensagem eletrônica que desabonasse algum candidato.

Num universo de 56% do eleitorado brasileiro que acessam a internet, 14% disseram ter recebido correntes com boatos de toda espécie.

Porém foi a investigação jornalística quem teve papel mais importante na mudança do voto, ou seja, na alteração concreta de uma situação real.

As duas informações são auspiciosas, de toda forma.