Arquivo do mês: setembro 2010

NYT fala pela primeira vez em deixar de publicar

Provocou algum furor a declaração de Arthur Sulzberger Jr, publisher do New York Times, de que um dia o jornal “será forçado” a parar de publicar o produto em papel.

Foi numa resposta a questionamento sobre um suposto crepúsculo para o impresso (perguntou-se se era 2015).

Essa (o fim do impresso) ainda é uma pergunta sem resposta, mas foi a primeira vez que o NYT falou oficialmente sobre isso.

Sulzberger falou também sobre o muro do conteúdo pago, que o jornalão faz subir a partir de 2011. Deu em outra frase ótima: “Para sermos bem-sucedidos, é preciso correr riscos”.

Vamos ver até onde vai essa máxima.

(Leopoldo Godoy foi quem deu a dica)

O trabalho mais auditado do mundo

É mesmo surpreendente e curiosa a visão que as torcidas têm do trabalho jornalístico formal _ao mesmo tempo em que martelam na tecla de sua gradual irrelevância, o que, sob a luz da era da publicação pessoal, caminha para uma definição conceitual.

Carlos Fernández Liria, escritor e professor de Filosofia da Universidade Complutense de Madrid, mostra-se totalmente descido do muro ao comentar como a imprensa espanhola se comporta ao cobrir o movimento bolivariano, comandado por Hugo Chávez nas Américas.

“Na Europa há muita censura, a mídia só contrata jornalistas que digam o que lhes interessa”, afirma Fernández.

Claro exagero, mas que passa aquele recado: a internet ampliou a vigilância do público, e o trabalho jornalístico, provavelmente, é o mais auditado do mundo.

Merece até uma quantificação.

Governo dispensa mediação do jornalismo profissional

Mais uma indicação de que a imprensa como filtro universal dos acontecimentos está em baixa: autoridades do governo de Cristina Kirchner, em eterna guerra com os maiores grupos de mídia do pais, correram à internet em busca de canais personalizados de publicação.

A presidente já reuniu mais de 50 mil seguidores no Twitter, enquanto vários ministros ganharam blogs _onde passam o dia respondendo aos jornalistas, oos quais raramente dão declarações oficiais.

Jornais e TVs se fundem

A fusão entre redações de TV e jornal é uma saída para o jornalismo?
É o que está acontecendo nos EUA.

Sob ‘guru’ indiano, site de Serra aposta naquilo que o internauta mais abomina

Texto de minha lavra que a Folha publicou ontem.

“O site oficial da campanha do candidato à Presidência José Serra (PSDB) se transformou desde que o norte-americano de ascendência indiana Ravi Singh assumiu sua administração, há dez dias.

A página abandonou produção de conteúdo e atualização frequente para virar mera caçadora de contatos, recorrendo justamente ao expediente que o internauta mais odeia: os cadastros.

Onde se clica surge um formulário. A intenção é angariar voluntários (ainda não se sabe exatamente para que) e obter listas de e-mails e contatos em redes sociais.

Só quem tiver a curiosidade de rolar até o fim da página e clicar no site oficial do PSDB, que aparece discretamente sob um ícone, terá acesso à cobertura das atividades diárias de Serra _ainda que a atualização seja discutível e a navegação, nada amigável. Trata-se de uma inversão de hierarquia inexplicável.

O site é o que o candidato (que na quinta-feira festejou, numa entrevista ao vivo a uma rádio, a conquista de seu seguidor 401 mil) indica em seu perfil no Twitter.

Outro erro flagrante da página proposta por Singh (cujo primeiro ato ao ser contratado foi criar o slogan “é a hora da virada”) é o apelo, quase em tom comovido, que aparece na home page.

“Ajude-nos a enviar este vídeo para todos os seus amigos AGORA!” é tudo o que não se deve suplicar quando a pretensão é distribuir conteúdo. Isso quebra a própria etiqueta na rede.

Afinal, se for bom ou pertinente, seu vídeo será distribuído espontaneamente pelas pessoas _e engajamento espontâneo na internet é tudo o que pode fazer a diferença numa eleição.

Singh tem um longo histórico de participação em campanhas eleitorais. Na mais recente, na Colômbia, trabalhou para Juan Manuel Santos, que se elegeu presidente. Seu rival nas urnas, Antanas Mockus (PV), porém, provocou muito mais barulho e repercussão na web.

Enquanto os tucanos patinam, suas principais adversárias na corrida ao Planalto (Dilma Rousseff e Marina Silva) têm feito a lição de casa em suas páginas oficiais.

Primeiro, a acertada opção pelo formato jornalístico para contar o dia a dia da campanha, além de atualização frequente de conteúdo mais chamativo, como fotos em tamanhos panorâmicos.

As páginas de PT e PV ainda ressaltam com destaque a possibilidade de contribuir financeiramente com suas candidatas. Há, é claro, inevitáveis atalhos para cadastros e formulários. Mas eles são apenas uma opção, não a principal (ou única, no caso de Serra) destaque do site.”

Quem frequenta bancas de jornal?

Você frequenta bancas de jornais e revistas? Por quê?

A transição do modelo de negócios desse tipo de comércio vale um post inteiro.

Mas antes vamos debater o assunto…

Fidel Castro abre o bico

Fidel está falando com a imprensa estrangeira. Quer dizer, nem tanto: começou com jornalistas venezuelanos quase amordaçados. Mas soltou um ‘o Wikileaks merece uma estátua’. Ainda um bom frasista aos 84 anos.

Agora, foi fotografado ao lado do americano Jeffrey Goldberg, que colabora com a The Atlantic, talvez a grande revista dos EUA hoje.

Vem materiaça por aí.

Desce a última página do Jornal do Brasil

Texto de Joaquim Ferreira dos Santos publicado originalmente em O Globo, reproduzido pelo Observatório de Imprensa.

“Penteia o teu último nariz de cera, JB, pede ao Joaquim Campelo para copidescar uma pirâmide invertida que está na página três, diz ao Gabeira para pesquisar a capa que o Alberto Dines fez do AI-5 – e desce a página para o túmulo dos grandes jornais.”

Mas tem o caminho apontado pelo repórter velho de guerra (meu contemporâneo setorista de seleção e quetais) Jorge Cordeiro.

“Transferir o jornal de mala e cuia para o meio digital, em vez de fechá-lo, é a meu ver pra lá de sensato _e estimulante!”

Acho auspicioso o rumo que o JB decidiu (por via das circunstâncias) tomar: transformar-se em 100% on-line.

Agora, tenho sérias dúvidas se o motivo de tanta empolgação (a possibilidade de se entregar de vez às delícias multiplataforma e à interação com o público) será realmente aplicado no novo JB.

Pra isso, é preciso mais do que disposição ou conhecimento técnico, mas retaguarda tecnológica e, principalmente, de mão de obra.

Justamente o que faltou, por ausência de verba, ao velho JB.

Veremos.

Jornalista não tem medo de morrer

Acaba de ser traduzido para o espanhol o livro “Murder Without Borders” (Assassinato sem Fronteiras), do canadense Terry Gould.

A obra investiga os assassinatos de sete jornalistas em distintas regiões do planeta (só no ano passado, 76 colegas perderam a vida).

Sua conclusão é espetacular: porque todos eles adotaram uma atitude quase suicida ao prosseguir em suas investigações a despeito das ameaças de morte?

“Todos eles concluíram que deviam aceitar a morte como consequência de seu trabalho”, diz o autor.

Por essas e por outras me orgulho desta profissão.