Arquivo do mês: agosto 2010

O que as assessorias de imprensa querem com a gente?

O que as agências (nome contemporâneo para os escritórios que gerenciam marcas, produtos e carreiras) querem com a gente, os jornalistas?

Fundamentalmente, duas coisas: nossa agenda e rede de relacionamentos e a habilidade de escrever coisas o mais parecidas possível com um texto jornalístico.

A combinação dos dois elementos é explosiva: sim, as assessorias de imprensa estão cada vez mais emplacando textos ipsis litteris, em boa medida com a colaboração do jornalismo on-line _este ente enfermo, sucateado e desprezado, que por falta de mão de obra acaba, deliberadamente ou por ineficiência, refém dos releases nossos de cada dia.

Até nos Estados Unidos, onde o trabalho nas agências sempre foi coisa de relações públicas (e eu repito: pra mim, assessoria de imprensa é coisa de relações públicas mesmo), cresceu a quantidade de coleguinhas empregados no negócio.

Entre 1980 e agora, subiu em 60% o número de jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa (ao mesmo tempo em que as redações enxugaram em 40% seus quadros).

A leitura clara é que os negócios, não as notícias, estão pautando o jornalismo.

O estado da blogosfera em infográfico

Os dados são antigos (dizem respeito ao estado da blogosfera feito pelo Technorati no ano passado), mas dispostos em gráfico oferecem boa (e resumida) informação visual (clique no gráfico para ampliar).

(o sempre solerte Michel Lent viu isso primeiro)

Quando o Google copia alguém, ganhamos todos nós

Fiquei sabendo esta semana, via Pedro Doria, que o Google está copiando o Bing, buscador da Microsoft que, apesar de deter 13% das buscas globais, ainda é quase uma curiosidade _ou você conhece alguém que o utilize?

A “cópia” começou na quase inócua possibilidade de aplicar um plano de fundo à anódina (e funcional) tela do Google, mas já chegou a um item bem mais importante: a disposição dos resultados da pesquisa de imagens, hoje apresentada de maneira funcional pelo site de Sergey Brin e Larry Page _e de forma idêntica ao buscador de Bill Gates.

É uma grande novidade, e a partir do momento em que o Bing demonstra que tem cérebro, a monocultura sofre mais um golpe.

Quando o Google copia alguém, fica claro que existe inteligência alhures.

Ganhamos todos nós.

Jornalismo visual: os segredos do NYT

Qual o segredo do New York Times para conceber algumas das peças de informação visual mais bem-sucedidas (ou seja, funcionais) da web global?

É o que conta o editor Steve Duenes neste vídeo, com direito a muito making of recapitulando o ponto alto da produção do jornalão (que acredita que a plataforma on-line será sua mais importante fonte de renda em dez anos).

Estamos sendo úteis para o nosso leitor na internet?

Este texto fala de publicidade, mas pode perfeitamente ser entendido como um recado ao jornalismo.

Será que estamos sabendo aplicar a tecnologia aos nossos produtos on-line? Ou muitas vezes despejamos ferramentas sem saber bem ao certo para que e, mais, deixando-as nas mãos do incauto leitor/usuário sem qualquer acompanhamento?

É que diz Gabriel Jacob.

“Não podemos esquecer que o que vale é a ideia como forma de gerar interesse e envolvimento duradouro. Precisamos ser realmente úteis. E, quando tratamos de digital, não podemos achar que a única coisa que importa é a interação com a ferramenta. Ela até pode ser um fator importante, mas, se depender da maioria das necessidades, ela, a interatividade, não sobrevive sozinha.”

Penso exatamente a mesma coisa.

Cinco minutos com Bob Woodward

A jornalista Vera Magalhães sempre me diz que a expressão “jornalismo investigativo” é um engano.

Claro, todo jornalismo é investigativo. É a essência do próprio trabalho.

Mas ainda há esse nicho, e os que vivem de falar dele.

Como Bob Woodward, repórter que ao lado de Carl Bernstein derrubou um presidente tendo a profissão e o Washington Post como armas.

Bob revela num vídeo bacana alguns detalhes que ele considera fundamentais para o tal “jornalismo investigativo”.

Nada muito distante do jornalismo propriamente dito, viu.

Os trambolhos das redações em 1996

Dá só uma olhada nesse vídeo de 1996 (muito comum na época, quando os jornais mostravam na TV os destaques de suas edições impressas do dia seguinte) feito no Diário Catarinense, de Florianópolis.

Ou melhor: dá uma olhada nos terminais da redação. Trabalhei com alguns trambolhos pouco menos robustos que os exibidos ali. E não dá saudade nenhuma, confesso.

Fora que, em 1996, quem tinha acesso à web dentro de um jornal?

Uma visita à enciclopédia Barsa

Em tempos de Wikipedia, a enciclopédia propriamente dita virou o exemplo melhor acabado daquilo que parou no tempo.

Daí fui visitar a Barsa, que era um sinônimo deste tipo de compilação no tempo em que não havia nada mais inteligente, em seus domínios on-line.

Lá, ela se vende como um produto ‘tridimensional’: pode ser adquirido em 18 volumes, mas com um DVD e mais acesso livre ao site da obra.

Os 18 livros têm, segundo diz a editora, mais de 10 mil páginas, 125 mil verbetes, 12 mil fotos, 900 “desenhos”, 500 mapas, “volumes costurados com fio vegetal” e “capa dura forrada com balacron de alta resistência com corte dourado e sobre capa em papel couché de alta resistência”.

Tirando o fio vegetal e a capa dura de balacron, tudo ao alcance de um clique.

Eu ainda quero saber quem compra uma enciclopédia em papel.

De novo, a bobagem do diploma

De novo aquela bobagem: a Espanha ferve porque descobriu-se que Sara Carbonero (a repórter televisiva do momento) não é formada em jornalismo.

Falta uma disciplina para que isso ocorra, revelou a mãe dela, Goyi.

Uma prova, perdida justamente pelo fato de Sara ter sido enviada para cobrir a Copa do Mundo da África, onde virou notícia e acabou beijada por um entrevistado _Casillas, seu namorado e goleiro da seleção campeã, a Espanha.

O debate pega fogo no jornal El Mundo, mas parece haver equilíbrio entre quem acha que o exercício do jornalismo exige uma graduação específica nisso e quem não acha.

Uma bobagem, como eu ia dizendo.

O passaralho revisitado

Estou lendo The Death and Life of American Journalism, ótima compilação de ideias reunidas por Robert W. McChesney e John Nichols, que há tempos escrevem bons artigos sobre nossa profissão em xeque.

Entre análises e análises de passaralhos há, como não poderia deixar de ser, a menção ao Paper Cuts, projeto na web que reúne informações sobre demissões em massa de jornalistas e, mais grave, encerramento de atividade de jornais impressos nos EUA.

Voltei ao site hoje e o que se vê é deprimente: um excesso de alfinetes pretos, ou seja, despedimentos (como se diz em Portugal e um termo que eu acho brilhante) sem confirmação oficial do número.

Caminhamos para a extinção, senhores?

Eu não creio.