Arquivo do mês: agosto 2010

Finalmente um golpe de mestre dos jornais

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) anunciou sexta-feira no Rio, no encerramento de seu congresso anual, que está negociando com agregadores estímulos para que os internautas busquem notícias diretamente nos sites que os hospedam.

“Nossa meta é buscar formas adequadas de remuneração de nossos conteúdos, para que o jornalismo de qualidade continue a desempenhar o papel que tem e sempre teve em sociedades democráticas”, disse Judith Brito, presidente da entidade.

Como seriam essas “formas adequadas”? Ainda não sabemos ao certo, mas discute-se a redução dos textos exibidos em agregadores (como o Google News) e critérios de indexação que consigam distinguir entre o que pode ou não ser exibido por meio do Protocolo de Acesso Automático a Conteúdo.

Toda essa discussão, direitos autorais à frente, sempre teve como pano de fundo a sobrevivência dos jornais. A novidade, agora, é que os agregadores aceitaram negociar.

Se os jornais conseguirem ganhar dinheiro com algo que claramente ajuda a promover seu conteúdo, terá sido um golpe de mestre.

Nenhum estímulo para alcançar a fonte original de uma notícia pode ser maior do que o agregador (que, com frequência, possui audiência várias vezes superior aos veículos que se incomodam em aparecer neles).

Quem paga a conta no mundo do conteúdo grátis?

No mundo do grátis, quem paga a conta do conteúdo, pergunta Michel Lent.

Veja apresentação e pense no assunto. É um debate complexo e bem interessante.

Voltamos logo ao assunto.

Direto do sofá de casa e na rede, eleitor faz a diferença

Texto meu publicado ontem na Folha de S.Paulo sobre a participação do público, via internet, no primeiro debate exclusivamente on-line entre candidatos à Presidência, organizado pelo jornal e pelo UOL.

“As perguntas enviadas pelo público via webcam acrescentaram um ingrediente inesperado ao histórico debate entre os presidenciáveis, o primeiro na internet.

Inesperado, registre-se, para os próprios candidatos, várias vezes obrigados pelos internautas a deixar suas zonas de conforto para responder a assuntos espinhosos.

Num debate, temas como aborto, herança da estabilidade, pedágios e aliados inconvenientes recebem outro tratamento quando a pergunta vem de um cidadão, não de um rival ou jornalista.

Aqui, a internet também joga um papel fundamental: no conforto do sofá de casa, e protegidos por uma tela de computador, somos mais destemidos e espontâneos.

Não foi assim em experiências anteriores já testadas na TV, quando eleitores são confrontados com os candidatos ao vivo e cara a cara -ou dependem de um intermediário (no caso, um repórter) para serem ouvidos.

O banho de realidade da importância da abertura de canais de diálogo com o público vira ducha de água fria quando a rede é tratada pelos candidatos como mera ferramenta educacional ou instrumento de promessa de inclusão.

Se o futuro presidente da República ainda não entendeu o que é a internet, seus eleitores deram uma demonstração de que sabem perfeitamente para que ela serve primordialmente.”

A web não morreu

Lembra que ontem falei de um artigo da Wired sobre a morte da web e o avanço dos aplicativos móveis? Pois a tese está sob forte ataque.

Alexis Madrigal vai diretamente ao ponto em texto na The Atlantic: é a grana, estúpido.

E pensar que justo Chris Anderson, editor da Wired e defensor do preço zero na internet, teria formulado a hipótese (ao menos, é quem assina o texto, ao lado de Michael Wolff).

Sim, pontua Madrigal, revistas como a Wired podem fazer muito dinheiro usando aplicativos e serviços personalizados em dispositivos móveis.

Pra completar, Rob Beschizza detectou manipulação nos gráficos que ilustravam o polêmico texto de Anderson.

Mas lembre de Juan Varela, que crê (academicamente, até onde sei) na gradual desimportância da web como principal drive de conteúdo _e se vangloria de falar nisso faz tempo.

Vou deixar a palavra com especialistas.

Mais exemplos de jornalismo visual

Deixo você com o  infografista Ernesto Olivares, que sempre apresenta exemplos bacanas de informação bem disposta graficamente.

Aproveite.

A web morreu, sentencia a Wired

Aplicativos móveis e redes sociais são a nova world wide web, sentencia a revista Wired.

É uma discussão pertinente sobre as maneiras que acessamos conteúdo agora.

A navegação direta na rede pode ser substituída pelo uso de aplicativos que têm como base a recomendação social e a qualidade do acesso direto a várias funcionalidades _sem passar pelo revolucionário invento de Tim Berners-Lee.

O conteúdo continua na internet, mas está cada vez menos na web.

Juan Varela, que sabe bem mais do que eu, explica direitinho.

A nova ortografia e eu

Gosto de escrever ideia, europeia, dia a dia, tabloide, antissemita.

O desacordo ortográfico (sim, porque nós jornalistas fomos enganados e adotamos tudo muito antes) veio pro bem, apesar desse atropelo corporativo.

Mais uma vez a imprensa, achando que ainda influencia a vida do cidadão comum.

O povo (digo inclusive o esclarecido) tá demorando pra aderir à nova ortografia.

Uma clara demonstração de que já não ditamos regras.

O pensamento vivo de Arianna Huffington

Arianna Huffington, 60 anos, é uma personalidade do que a gente convencionou chamar de novo jornalismo (não o new journalism, mas novo mesmo).

Acreditou piamente na ideia de que a profissão, hoje, tem de ser exercida com base no diálogo redação/leitor, agora também produtor de conteúdo.

E seu site, o Huffington Post, superou gigantes da comunicação nos EUA na internet contando com uma estrutura física modesta.

Ela ganhou uma página na edição de ontem de O Globo que, como bem pontuou a colega Luciana Moherdaui, vale muito a pena ler.

Etiquetando o jornalismo


Curti essa provocação de Tom Scott: e se a gente pusesse adesivos nas matérias publicadas pelos jornais (sugiro uma versão eletrônica pra aplicar nos on-lines) com advertências do tipo “a pesquisa apresentada neste texto foi fornecida por uma assessoria de imprensa” ou “o jornalista não entende do assunto que está escrevendo”, entre outros?

Scott chama a etiquetagem de “tornar mais segura a leitura dos jornais”.

Todos os dias estamos fortemente expostos a receber essas etiquetas e, pelas circunstâncias em que produzimos nossos produtos, que atire a primeira pedra quem nunca passou por isso.

Atirou?

A burrice do conteúdo pago não tem fim

A burrice do muro do conteúdo pago não tem fim.

O caso do Wall Street Journal, então, detectado pelo professor Ramón Salaverría, é lapidar.

O veículo cobra por seu conteúdo (aliás, tem cerca de 1,3 milhões de assinantes pagantes), mas exibe as notícias _redigidas no clássico formato da pirâmide invertida_ com os primeiros parágrafos abertos a qualquer internauta.

Ou seja: o principal da informação é de livre acesso. Ainda mais numa estrutura de pirâmide invertida, na qual as coisas desimportantes figuram no pé, justamente o que o WSJ quer cobrar.

“É como se te dessem o carro e quisessem cobrar pelos tapetes”, diz Salaverría, que sentencia (com toda razão): “a pirâmide invertida não serve para quem cobra por conteúdo”.