Arquivo do mês: julho 2010

O polvo Paul e o ridículo no jornalismo


Não tem nem dois dias que eu ressuscitei uma entrevista do goleiro Rogério Ceni (na qual o cara falava sobre encarar esporte como entretenimento), e me deparo agora com um texto que avalia a corrida do jornalismo ao polvo “vidente” Paul como uma babaquice sem tamanho, uma jogada da marketing do aquário de Oberhausen, na Alemanha.

É nessas horas que o ditado “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” faz muito sentido. No texto, o crítico questiona os poderes sobrenaturais de Paul _ele próprio causando mais ridículo do que a situação em si.

Nosso amigo não percebeu que se trata de uma brincadeira divertida, com altíssimo potencial de audiência, mas que não deveria ter qualquer tipo de explicação. Procurar biólogos para explicar os “dons” de Paul, é verdade, também é estúpido (sim, o jornalismo fez isso).

Há momentos em que tudo o que o jornalismo precisa é de uma feature. Isso mesmo, um tratamento lúdico a uma não notícia capaz de divertir a audiência. O diversionismo pelo diversionismo.

Mas tem gente que não compreende como o humor pode fazer bem à profissão.

Como o Google funciona?

Um interessante gráfico sobre a indexação (e outras cositas más) do principal mecanismo de busca, às vezes tratado até como se fosse o único.

Capas de jornais como jornalismo comparado

Capas de jornais são sempre inspiradoras. Quando comparadas, ainda mais.

É esse o negócio do Mídia Mundo, trabalho solitário e ininterrupto de Eduardo Tessler na internet.

Tessler está por trás da concepção de vários redesenhos de jornais brasileiros, Diário de S. Paulo incluído _ainda por vir, mas com direito a novo formato e conceito (será mesmo o fim do  “aconteceu ontem”?).

Uma história a se acompanhar.

Rogério Ceni diz que esporte é apenas entretenimento. E você?

A entrevista foi em abril, mas um pequeno trecho da conversa com o goleiro Rogério Ceni publicada pela edição brasileira da revista da ESPN me fez pensar de novo se o jornalismo deveria tratar de vez o esporte com olhar prioritário no aspecto entretenimento _suscitado pelo evidente caráter lúdico do que está em jogo.

Sou adepto do rigor jornalístico, como em qualquer editoria, mas será que estou certo? Realmente precisa? Melhor: é o que o público quer? Não estaríamos, em vários momentos, levando a coisa a sério demais?

Numa resposta ampla dentro do contexto da repercussão do que diz diariamente, Ceni afirma que a área esportiva (em geral)  “deveria ser entretenimento”, ou seja, que palavras e atitudes mereciam ocupar menos destaque.

É verdade que os atletas viveriam todos mais felizes se o mundo da crônica esportiva fosse uma grande Globo _não só ela, pra não ser injusto e repetitivo: veículos jornalísticos que sobrevivem da cobertura do dia a dia, do rame-rame, não conseguem fugir muito da agenda positiva.

Um pouco como acontece com intensidade nos cadernos de turismo, carros e cultura.

Uma aresta para a gente aparar.

A Economist photoshopou Obama, e daí?

A capa de 19 de junho da The Economist, revista noticiosa mais importante do mundo (e das poucas que só ganham leitores com o passar do tempo), provocou furor ao descobrir-se, via The New York Times, que a publicação alterou uma fotografia em que o presidente Barack Obama aparecia cabisbaixo ao lado de mais duas pessoas tendo como fundo plataformas petrolíferas _imagem ideal (a alterada, claro) para ilustrar uma reportagem sobre o desastre ambiental de responsabilidade da petrolífera britânica BP em solo americano e suas implicações políticas.

É um pecado menor, e peço aqui que me entendam. Repórteres-fotográficos talvez jamais entenderão (há aquele consenso de que fotografia é obra de arte e não pode ser editada), e fui instado a falar sobre isso por Gustavo Roth, editor-adjunto de Fotografia da Folha de S.Paulo, que sempre colabora com o Webmanario.”Se queimaram feio, hein…?”, me disse Roth, ele próprio antenadíssimo no que rola nos meandros de nossa profissão, seja aqui, nos EUA ou no Uzbequistão.

Vou ser polêmico agora: será? Não acho, mas não acho mesmo. Há, claramente, um erro, mas que embute uma tentativa de acerto. Aliás, Pedro Dias Leite, o homem que faz o caderno Poder da Folha fechar na hora e fechar bem, tinha me avisado um pouco antes da história _compartilhando a visão de que o episódio está longe de ser o maior absurdo do jornalismo moderno.

Talvez a mesma representação com um trabalho de arte em cima (uma estilização impressionista ou pop, sei lá) resolveria a coisa sem questionamentos filosofais que, na verdade, só nós jornalistas temos.

Photoshopado, Obama estava lá e continua lá, cabisbaixo, com uma plataforma de petróleo no Golfo do México como cenário de fundo. Excluíram-se personagens menores _literalmente, como a presidente da Câmara de representantes de uma cidade da Louisiana e uma autoridade local da Guarda Costeira já eliminada no corte do fotograma.

Impossível pensar em fazer uma coisa dessas sem supor que irão descobrir: a foto em questão, tirada em 28 de maio, é de um fotógrafo da agência Reuters, Larry Downing, e provavelmente foi distribuída para todo o mundo.

Eu não faria isso desse jeito numa publicação noticiosa, mas faria, sim, propondo um trabalho de ilustração sobre foto, pra se livrar de uma vez por todas da capivara do “alterar a realidade”, que no final das contas pauta o debate e de quem é muito difícl se desvencilhar.

Mas a capa mexida, no final das contas, não escondeu o Obama triste e enrolado tendo ao fundo o motivo de suas preocupações.

190 milhões sem ação

Mais um vídeo excelente que serviria perfeitamente ao jornalismo: um motoqueiro sai às ruas de São Paulo no intervalo do jogo Brasil x Holanda, na semana passada.

E o que ele encontra? Veja o vídeo e compreenda de uma vez por todas a importância da Copa do Mundo para o nosso povo _que, aliás, hoje deveria reproduzir o feriado não fosse a derrota da equipe de Dunga naquele dia.

Alguns blogs bons de se acompanhar (e desmascarar)

Quais os blogs mais legais?

A Time atualizou sua lista anual mostrando também aqueles diários que têm mais marketing do que conteúdo.

Ah, e preservou o lugar de destaque do Boing Boing, para mim o melhor de todos _e o que me fez chegar à descrição “coleção de coisas bacanas” para a plataforma.

Para ver e analisar.

Guardian faz manual de boas-vindas para leitores do Times

Divertido: o blog de notícias do The Guardian, jornal que é uma referência em convergência de plataformas e design de notícias na web, fez um post para dar as boas-vindas aos leitores do The Times, o concorrente que acaba de se fechar em copas e exigir formulários e cartões de crédito para que se leia suas notícias _e perdeu audiência.

Vai ser pedagógica essa briga entre o cobrar e não cobrar.

O verdadeiro Brasil x Argentina

O verdadeiro Brasil x Argentina hoje é o confronto pela liberdade de imprensa.

Enquanto o Casal K fomenta o ódio ao mainstream, mais especificamente ao Grupo Clarín (guardadas as proporções, a nossa Globo), em nosso terreiro membros poderosos do governo admitiram que estiveram no limite de processar meios de comunicação por reportagens com exaustivo trabalho de investigação por trás, diga-se.

No Brasil, o salto de 499 produtos jornalísticos que recebiam propaganda oficial em 2003 para quase 6 mil hoje foi lido como espécie de cabresto, de curral eleitoral. Assim como a política de benefícios que tem o Bolsa Família como carro-chefe.

É tudo verdade, mas é bom ouvir Eduardo van der Kooy, experiente editor do Clarín, pra entender no que somos bem diferentes dos hermanos _no futebol, ambos são habilidosos e beneficiados pela arbitragem.

Van der Kooy descreve um vazio de poder político que obrigou o jornalismo argentino a se tornar um ator dos acontecimentos, mais do que um mediador. E isso numa era em que a imprensa como filtro universal dos acontecimentos desmilinguou-se.

No Brasil, claramente perdemos esse protagonismo. Que, neste caso, pode ser ainda pior. Nenhum protagonismo exagerado, muito menos de quem não deve ser notícia, é bom para um país.

Conan, o repórter investigativo

Imagine se Conan, o Bárbaro, fosse repórter investigativo. E encontrasse personagens avessos a respostas claras e assessores de imprensa especialistas em impor obstáculos (sem contar os chefes).

O povo do Wagner & Beethoven imaginou.

E a @kikacastro foi quem viu no Novo em Folha.