Arquivo do mês: julho 2010

Jornal cobra para leitores comentarem em site

É bizarro, mas um bom teste: o jornal Sun Chronicle, de Attleboro (EUA), passou a cobrar a taxa única de US$ 0,99 para leitores que quiserem comentar as notícias de seu site.

O pagamento tem obrigatoriamente de ser feito em cartão de crédito, o que garante a identificação de 100% dos comentaristas. Certamente um ambiente mais seguro, mas menos parecido com a internet.

Rafael Sbarai vê autoritarismo e precipitação na estranha medida.

De tão estranha, aliás, acho mais prudente observar a adesão a ela _e o resultado prático na excelência do conteúdo da caixa de comentários, reconhecidamente baixo na maioria dos veículos que trabalham com notícias e interagem com seu público.

O passo pode sugerir um sinal, também, de que comentários são tão relevantes que é possivel vendê-los como se fossem classificados.

Por sinal, há quem use (e com bastante frequência) o espaço para promover links. Pagaria por isso?

A resposta de São Paulo à capa de O Pasquim

Foi muita coincidência, e não dá pra deixar de falar: no dia em que eu, provocado, relembrava a histórica manchete de O Pasquim “Todo paulista é bicha”, o jornal popular Meia Hora chegava às bancas (a poucas, procurei e não achei) de São Paulo.

O tabloide popular é um sucesso no Rio e, agora, tenta repetir a fórmula na terra do spray (sim, até a garoa evoluiu).

E qual a capa do kit promocional (ou seja, os jabás enviados às redações e formadores de opinião) do jornal? A manchete “Todo paulista é virado“, na verdade uma marmita com o próprio prato, clássico da cidade.

Impossível não morrer de rir.

Esclarecimento necessário: não recebi a quentinha do Meia Hora, mas desejo ao produto muitos anos de vida nestas bandas.

(via @leogodoy)

Todo paulista é bicha, mas leia antes as letras miúdas

O carioquíssimo Bernardo Mello Franco, gaiato que só ele (e ótimo repórter, diga-se), decidiu do nada enviar ontem uma capa histórica da imprensa brasileira. A manchete choca: “Todo paulista é bicha”.

Bem, choca quem, como eu, apesar de gaúcho (mais motivo pra piada), fala com esse sotaque da Mooca.

Tudo a ver com a irreverência do jornal que, vitaminado pelo humor carioca-mineiro de gente como Jaguar, Ziraldo e o Sérgio Cabral do bem (o pai), sobreviveu entre 1969 (meses antes de eu nascer) e 1991 com linguagem irreverente que seria precursora do chamado “humor moderno”, hoje representado no Brasil por um bando de gente chata que se faz passar por jornalista (enquanto a turma do Pasquim, formada basicamente por jornalistas, também tinha orgulho da opção pelo humorismo).

Imagine essa capa vista de longe, na banca _aliás, Bernardo não mandou tão do nada assim, ela é de 14 de julho de 1971, ou seja, fez anos outro dia.

Letrinhas miúdas (“que não gosta de mulher” aparecia entre TODO PAULISTA e É BICHA) aliviavam o insulto. Mas pra quem via de longe…

A propósito, foi o Pasquim quem popularizou (para alguns, foi o criador) do termo bicha como sinônimo de homossexual.

E eu agora pergunto: nos tempos do modorrento politicamente correto, isso seria possível?

Presidente 40

Blog da editoria Poder da Folha de S.Paulo que ajudo a fazer.

Recém-nascido, ainda sem blogroll, por exemplo.

E, por vários outros motivos, criticado pela ombudsman do jornal, Suzana Singer.

Jabulani redonda, relato quadrado

Já que eu ando numa fase meio esportiva (afinal, é a editoria onde trabalhei durante 13 de meus 20 anos de profissão), engato reflexão de Alberto Dines que considerei pertinente.

O ponto que mais me interessa é, se de fato, a internet acrescentou alguma novidade à cobertura esportiva. Ele acha que não, o que é altamente discutível.

“O fato de um twiteiro mandar um pergunta lá do meio da floresta amazônica para o comentarista ou narrador tiritando de frio num estádio na África do Sul não chega a constituir um efetivo avanço jornalístico”, diz Dines.

E mais uma frase para reflexão, mas essa com um erro incluído: a maioria dos jornalistas “escravizados” ganha muito mal.

“Aquilo que a empresa jornalística brasileira chama de “desempenho multimídia” é um sistema falsamente meritocrata (na realidade escravocrata) no qual alguns ganham muito bem, em compensação são sugados até a medula dos ossos e impedidos de usufruir do sublime prazer de esmerar-se na apuração e na escrita.”

Jabá vergonhoso na ‘emprensa’ embriagada pelo sucesso

Vários jogadores da Espanha, “flamante” (adoro esse termo para “recente” em espanhol) campeã mundial, exibiam vistosos relógios vermelhos no desfile do título, que parou Madrid este semana.

Daí o jornal Sport perpetra a nota cuja reprodução você vê acima, uma vergonha sob qualquer ponto de vista.

Os relógios eram da grife CP5, de Carles Puyol, o zagueiro ruim de bola (e nascido virado pra lua) titular do time do bigodudo técnico Vicente del Bosque.

Se há algo para ilustrar jabá na enciclopédia, é esse texto. Não faltou nem o link para o leitor ir correndinho comprar o tal relógio.

Nessas horas dá vontade de virar vendedor de águua de coco, viu?

(Meu amigo Augusto Zaupa foi quem viu primeiro a pérola).

A revista O Cruzeiro de 1928 com cara de 2010

Dia 10 de novembro de 1928, primeiro número da revista O Cruzeiro _publicação semanal brasileira que duraria até 1975 com tiragens próximas de 1 milhão nos anos 50 e 60.

Escolhi a página acima pela ousadia na ilustração (rococó, ok, mas estamos em 1928…) que invade a outra página.

Tudo muito 2010 (tirando o contraste da cor salmão da página ímpar, totalmente vintage).

(via Jornalistas&Cia.)

NYT explica o esforço por trás da cobertura da Copa do Mundo

É um post de utilidade pública: nele, a equipe de programação do jornal explica o esforço por trás da cobertura da Copa do Mundo da África, que nos Estados Unidos mobilizou um público recorde _mas muito aquém da Olimpíada, como o próprio texto relata.

Desafios como a atualização de dados a cada dois segundos durante os jogos.

Pedagógico.

YouTube quer produzir primeiro longa-metragem gerado pelo usuário

O The New York Times já fez isso e o Flickr também, mas a proposta do YouTube (Life in a Day, ou “A Vida em um dia”) é bem mais auspiciosa: criar o primeiro longa-metragem do mundo produzido por usuários da web.

A ideia, claro, é que as pessoas usem a rede social de vídeos enviando trechos que, depois, serão editados pelos diretores de cinema Ridley Scott e Kevin Macdonald _daí a grandiosidade do projeto.

A data é 24 de julho. Registre um trecho da sua vida e participe.

A falha humana e a automação programada para falhar

O que é pior: uma falha humana que faz um anúncio constrangedor ser publicado no maior jornal do país ou uma programação humana feita para falhar, como o link patrocinado, recurso que inevitavelmente coloca o jornalismo em situação ridícula?

Não tenho dúvida de que a automação preparada para falhar é muito mais grave. Afinal de contas, diferentemente do erro humano, sabemos de antemão que aquilo vai acontecer.

São os casos da notícia sobre a proibição da venda do cigarro eletrônico no Brasil acompanhada de links para se comprar o produto proibido, ou da trágica notícia de uma criança que ficou presa numa máquina de lavar roupa ladeada por anúncios de máquina de lavar roupa _que tratei aqui recentemente.

Mas tem gente que pensa que não é bem assim, caso de Tiago Dória, alguém que conhece das coisas. Pra ele, a falha de um subalterno de um departamento de publicidade, que levou às páginas da Folha de S.Paulo o anúncio em que o Extra se despedia da seleção brasileira (quando na verdade ela havia ganho do Chile), é mais grave.

E acho então que precisamos discutir um pouco mais a extensão do uso de robôs no jornalismo, porque é óbvio que ele não me serve a partir do momento em que eu sei, com antecedência, que irá me provocar problemas.

O Tiago diz que não e me questiona (“e depois tem gente que ainda vem falar sobre link patrocinado”, afirmou no dia do anúncio errado da Folha, abordando diretamente uma das bandeiras do Webmanario).

Bem… essa defesa incondicional é mais retrógrada do que um mero departamento comercial que recebe duas versões de anúncio e manda para as páginas do jornal o incorreto.

É até muito conformista se resignar com o vexame da automação. E uma grande pena.