Arquivo do mês: junho 2010

Mais um motivo para não cobrar por conteúdo

Mais um efeito, este colateral, da decisão de alguns veículos de cobrar por conteúdo: além de sumir dos sites de busca (a exceção são alguns acordos que permitirão acesso via Google a conteúdo protegido pelo paredão da cobrança), eles vão desaparecer também das matérias de empresas que têm por hábito fornecer links externos.

A BBC já anunciou que colocará, na maioria dos casos, avisos para os eventuais links que direcionem a conteúdo pago. Mais: a médio prazo, há a chance deles simplesmente sumirem do site britânico por uma questão de tempo e espaço.

Enquanto acham que estão protegendo seu valioso tesouro, os adeptos do micropagamento estão conseguindo, isso sim, ficar ainda mais escondidos e ensimesmados.

O jornalismo não fala mais em nome da opinião pública

No livro “Pensar a Comunicação: Pontos de Vista para Jornalistas e Políticos“, do francês Dominique Wolton, há uma excelente reflexão sobre as mudanças que a sociedade (e, nesse bojo, o jornalismo) experimentou nas últimas décadas. E olhem que a obra é de 2005, ou seja, há mais cinco anos de mudanças desde que o pesquisador francês se debruçou sobre o assunto.

Resumidamente, para Wolton, antes a legitimidade da imprensa constituía um embate no mesmo sentido da briga por uma sociedade democrática. Nesse contexto, o jornalismo diversas vezes soube utilizar a opinião pública para conseguir o que queria do poder político. Essa etapa, diz o francês, foi vencida.

Ocorre que, agora, os atores desse processo (ou seja, nós mesmos) continuamos agindo como se estivéssemos no século passado. “Os jornalistas pensam os problemas da informação com os olhos de ontem (…), como se a relação de força com o poder político ainda fosse frágil”.

Wolton prossegue: “Os jornalistas ainda se consideram os valentes guerreiros da verdade e do combate épico da informação do século passado e ignoram as contradições ligadas a seu próprio poder”.

Podemos enumerar, como parte do problema analisado pelo pesquisador, o overload informativo (a saturação de informação), falta de profissionalismo e excesso de velocidade na produção da informação, entre outros.

A conclusão, para Wolton: no meio desse caldeirão, os jornais (e jornalistas) deixaram de ser os porta-vozes da opinião pública para comprar brigas que têm como pano de fundo apenas a manutenção de seu status.

Muito bom.

Navegadores decifram seu RG na rede

Os navegadores também deixam impressões digitais enquanto você surfa na internet. Logo, você pode ser identificado.

A revelação, feita após estudo conduzido pela Electronic Frontier Foundation (EFF), mostra que dados banais como tipo de browser, sistema operacional e plug-ins podem, em conjunto, decifrar o RG cibernético do usuário.

Estes três dados são armanezados por praticamente todos os sites de busca quando você os conecta para fazer uma pesquisa.

Em julho, a EFF mostrará as conclusões do projeto Panopticlic num simpósio em Berlin.

Enquanto isso, no Brasil, discutimos se o Marco Civil Regulatório da Internet deve sugerir a guarda de dados do usuário por pelo menos um ano (a Polícia Federal defende que sejam três), contra seis meses do projeto original.

Como vimos, estamos cercados de ferramentas que rastreiam nosso comportamento on-line, elas apenas não estão nas mãos das “autoridades”.

Não é uma grande vantagem.

O futuro da visualização da informação

Como será a visualização da informação no futuro?

Bem, primeiro que eu considero o futuro o presente, ou seja, são as coisas que estamos fazendo hoje, levemente adaptadas, as que darão sequência ao que acreditamos e fazemos agora.

A aposta em dados embedados, por exemplo, parece estar bem viva na mente dos “futuristas” que tentam destrinchar o que vem por aí. Além, é claro, de painéis no melhor estilo Minority Report.

2020 está chegando, confira.

O jornalismo invadido

As contratações de dois experientes jornalistas pela Edelman, multinacional gigantesca de Relações Públicas, para ocupar cargos de comando desatou a especulação nos EUA: o RP estaria tentando ocupar o espaço do jornalismo?

Richard Sambrook, ex-chefão da BBC News, é o novo diretor de conteúdo da Edelman, enquanto Stefan Stern, ex-Financial Times, será diretor de estratégias.

Com eles, a empresa aponta claramente na aposta em produção de conteúdo jornalístico sob medida para seus clientes (e para a imprensa, formal ou não).

Daí, surgiu a tese do “jornalismo hibrido”.

‘Não quero uma nação de blogueiros’, diz Steve Jobs

Do evento de terça-feira promovido pelo The Wall Street Journal com Steve Jobs, ficou quase lateral a opinião do messias das novas mídias sobre critério editorial e fontes confiáveis na Internet.

“Não quero uma nação de blogueiros”, disse Jobs, ressaltando a importância de uma imprensa formal possante e democrática.

São palavras com evidente tino comercial: o criador da Apple colocou sua empresa à disposição do mainstream para pensar formas de cobrar por conteúdo na web.

O estranho movimento do The Globe & Mail

O jornal canadense The Globe & Mail contratou a agência Pagemasters e anunciou um processo de outsourcing. Contratar pessoal via terceiros, sabemos todos, reduz enormemente os custos.

É como na TV, quando as grandes redes compram conteúdo de produtoras dos mais variados tamanhos.

A Pagemasters chega a entregar páginas totalmente diagramadas, compostas e revisadas ao gosto do freguês.

O movimento do Globe preocupa, porém, porque a Pagemasters fica baseada em Toronto _exatamente a cidade-sede do jornal de 165 anos.

Se você faz outsourcing para cobrir sua própria cidade, algo vai mal.

EUA já cogitam subvenção pública para salvar os jornais

Benefícios fiscais por jornalista contratado, criação do “imposto do eletrônico” (cobrança direta ao consumidor com a intenção de criar um fundo de US$ 4 bi anuais) e até cupons que poderão ser transformados em “bônus de investimento” em empresas jornalísticas.

Documento do Federal Trade Commission, a versão americana do nosso Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), dá uma série de sugestões para “reiventar o jornalismo”, apostando fortemente não só na disposição do público em doar para seu veículo favorito (essa uma tradição americana) como também na mão de ferro do governo para salvar empresas moribundas.

É bem uma solução europeia _lembram que Sarkozy aprovou pacote com benefícios e ainda uma assinatura de jornal para cada jovem que completar 18 anos?

Gente muito boa, como Jeff Jarvis, já levantou a voz para protestar contra essa possível intervenção nos EUA.

O mangá a serviço do jornalismo

Ótima descoberta do Portal Imprensa: o japonês Yomiuri Shimbun, jornal que tira cerca de 10 milhões de exemplares por dia, tem recorrido aos quadrinhos (ou, como eles dizem lá, mangá) para relatar alguns fatos a seus leitores.

Como o exemplo acima, a revolta de gangues que têm provocado distúrbios na Jamaica.

Usada com critério, a HQ pode perfeitamente ser um exemplo criativo de novo formato jornalístico. O cuidado aqui é evitar que se fantasie a coisa _aí, deixa de ser jornalismo.

Série ‘Novos Pobres’ mostra aquilo que o jornal impresso sabe fazer

A série Novos Pobres, que o The New York Times está publicando, é trabalho talhado para um jornal impresso fazer.

Profundo (sem ser cansativo) e ao mesmo recheado de peças multimídia, faz a lição de casa como papel e brilha on-line _o que já se tornou uma tradição da casa.

Como no episódio mais recente, que mostra que a população negra de Memphis perdeu décadas de avanço com a crise econômica que estourou em 2008 (e ainda não acabou).